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Desde a derrota do Brasil para a Alemanha na Copa do Mundo, não param de aparecer artigos sobre o comportamento individualista e midiático da seleção. Os movimentos dos jogadores foram altamente explorados pela mídia. Uma simples cueca aparecendo já levantava dúvidas: seria mais uma jogada de um patrocinador? Com a multiplicidade de mídias, há sempre uma brecha para faturar.

Por outro lado, nunca debatemos tanto uma Copa do Mundo. As mídias sociais – sempre elas – também foram responsáveis pela amplificação das discussões. Nessa era de “mídia absoluta”, cada jogada foi replicada infinitas vezes, sem qualquer controle. Tudo virou evento: uma foto ou post do Podolski, as atividades extra campo da equipe alemã, as jogadas polêmicas, enfim, o que aconteceu em campo e fora dele foi compartilhado à exaustão.

Não se sabe ao certo se o bom comportamento da equipe alemã, que deu o que falar, foi uma jogada de marketing, mas fica claro que o país soube usar essa superexposição. Desde o princípio, ficou claro que o produto era o time. Até a vitória sobre o país hospede foi tratada com a piedade que jogaria a favor dos alemães. Já a estratégia da a equipe brasileira é mais transparente: foca claramente talentos individuais em detrimento do grupo. Agindo assim, a seleção está seguindo o seu próprio caminho ou ditando as regras do mundo cada vez mais “selfie” no qual vivemos?

Antes de mais nada, é preciso esclarecer que, segundo os psicanalistas, o comportamento individual não é um pecado. A ginga e o drible dos brasileiros, que nos fizeram conhecidos mundo, é prova disso e está no nosso DNA. Por outro lado, os nossos jogadores não a incorporam no jogo coletivo e preferem “jogar sozinhos”, se transformando em um reflexo da nossa própria sociedade. Sim, porque somos hiperconsumista, egoístas, valorizamos o carpe diem e não nos estimulamos a interagir em grupo. Ao contrário, somos levados a nos diferenciar do outro por meio da competição, do individualismo, da originalidade e do consumismo exacerbado.

Somos a sociedade do jeitinho, da lei de Gerson (para os nascidos depois dele, Gerson era um jogador de futebol da nossa seleção!) , da cultura do “ se dar bem”, do “levar vantagem”, pensando única e exclusivamente em si próprio. Se você tem mais de 40 anos, pode se lembrar dessa propaganda de 1976. Se você é da geração Y, não deve saber quem foi Gerson, ou que ele protagonizou a cultura do individualismo.

Então, será que a nossa seleção não está simplesmente reproduzindo o jogo social, não voltado para o bem comum, mas sim para tirar proveito próprio e faturar mais? E os famosos “15 minutos de fama”, são individuais ou coletivos? E a propaganda política no Brasil: valoriza o partido ou a imagem do candidato?  O individualismo está em valor, é obvio; no Brasil o jogo é assim.

Talvez por isso não me choque tanto o comportamento dos jogadores da seleção. Acredito que eles são nada mais do que membros dessa tribo chamada Brasil, que publica suas fotos para serem vistas e curtidas (não há a menor graça se ninguém curte). Dizemos que não nos importamos com a opinião dos outros, mas na realidade não vivemos sem ela, e o sucesso das redes sociais está aí para provar isso.

A seleção é feita de heróis e não cabe a eles questionar o sistema. Essa reflexão é nossa, que não jogamos futebol para ganhar a vida. Por que outros países fazem mais ações sociais que o Brasil? A Alemanha veio aqui, se reuniu com a tribo dos Pataxós e conseguiu que os índios fizessem uma pajelança por eles meia hora antes do jogo. Depois, comemoraram em campo com o tal ritual. Que integração!

Os alemães, aliás, mexeram de muitas formas com o brasileiro. E nos ensinaram muito, em especial deixando-nos a possibilidade de questionar a sociedade do selfie. Então, porque não aproveitar o momento para discutir se a Geração Y está agindo de maneira egoísta ou se está sendo estimulada a atuar assim? Se for estímulo, se a culpa for da sociedade, a seleção selfie nada mais é do que o retrato do Brasil. Só discutindo isso a fundo faremos a diferença para voltar a ganhar de novo em todos os campos, e não somente os das Copas…

Foi sancionada na semana passada a “Lei Menino Bernardo”, que  proíbe o uso de castigos físicos e de tratamento cruel ou degradante como formas de correção, disciplina e educação de crianças e adolescentes. Conhecida também como “Lei da Palmada”, ela determina que pais, demais integrantes da família, responsáveis e agentes públicos executores de medidas socioeducativas que descumprirem a norma vão receber encaminhamento para um programa oficial ou comunitário de proteção à família, tratamento psicológico ou psiquiátrico e advertência.

Acho importante esclarecer, em primeiro lugar, que a lei não tem por objetivo tirar a autoridade dos pais. Estamos vivendo uma época de revisão de valores, na qual muito ja se falou sobre as consequências da baixa autoestima na vida de uma criança. Sabemos que seu equilíbrio emocional ficará seriamente comprometido, acarretando provavelmente depressão, ansiedade, busca constante de aprovação, medo, sentimento de inferioridade e outras dificuldades na vida adulta.

Da mesma maneira, expor uma criança à humilhação ou a castigos emocionais pode produzir danos tão ou mais importantes (a ridicularização, inclusive). Então, acho importante frisar que uma lei dessa não tem nada a ver com autoridade parental: uma criança precisa e precisará sempre de limites. Ela precisa desesperadamente saber que não lhe é permitido fazer qualquer coisa, com referências claras mundo externo – isso é permitido mas, aquilo, não é. A criança com limites se sente, inclusive, mais amada e mais segura, dizem os especialistas. Isso ja é motivo suficiente para nos darmos conta que precisamos dar normas claras aos nossos filhos. Mas ha uma maneira de fazê-lo. Dizer “é hora de ir pro banho” ou “você precisa recolher seus brinquedos depois de usar” é mais claro do que dizer: “comporte-se!”, por exemplo. As crianças têm mais dificuldades de entender conceitos abstratos.

Muitos pais, no entanto, querem ser modelo e se comportam como amigos de seus filhos, evitando chamar a atenção ou negar-lhes algum pedido. Por conta do cotidiano corrido que nos rouba parte da convivência com nossos filhos,  tentamos proporcionar a eles um convívio agradável, embora curto. E, cá entre nós: preferimos os bons momentos porque ficar dando bronca é muito chato.

Eu digo que fui da última geração na qual lutávamos pelo amor de nossos pais. Era uma época em que eles tinham vários filhos (o que é raro, hoje, quando as familias têm, em média, dois filhos) e brigávamos com nossos irmãos disputando a atenção e o carinho dos pais. Hoje, parece as coisas se inverteram e somos nos, pais e mães, que lutamos pelo amor de nossos filhos. Temos aquela sensação de que se não fizermos tudo o que eles querem, se não comprarmos tudo o que eles pedem, eles não nos amarão.

No fundo, sabemos: nossos filhos vão nos respeitar mais e se transformarão em adultos mais equilibrados se dermos orientações claras e se impusermos os limites adequados a eles. Conheço vários adolescentes que dizem que gostariam que seus pais o tivessem feito com mais firmeza no momento devido, ou seja, sua infância. Quando adultos, terão uma melhor noção de como se comportar no mundo cotidiano, se tiverem anteriormente uma experiência saudável com limites. O mundo externo será claramente um ambiente no qual ele vai precisar controlar suas emoções, não poderá fazer o que quiser e terá suas expectativas frustradas. Cabe a nós, como primeira referência dos nossos filhos, demarcar fronteiras claras e lógicas. Só sair gritando ou batendo não ajuda a criança entender porque está agindo errado.

Mas eu acredito que só sancionar a lei proibindo bater nas crianças também não é suficiente para explicar aos pais, educadores e todos os cuidadores de crianças, que o limite continua sendo função parental, e que não é possível transferir esse trabalho para a escola ou empregados. A sociedade também precisam entender que a aplicação de castigos e humilhações não darão aos nossos filhos a noção de limite, funcionando, em alguns casos, como potencializadores das suas dificuldades. Precisamos todos de orientação no processo de educar crianças para se tornarem adultos maduros e integrados em uma sociedade.

Se tomarmos o caminho inverso – e, muitas vezes, mais fácil – as crianças crescerão sem saber as normas vigentes e podem desperdiçar talentos fantásticos por inadequação ao comportamento  exigido dentro de cada contexto. Nós, que ja estamos crescidos, sabemos a importancia disso: não se adequar a certas regras sociais é algo passível de punição, com vexame muito maior e consequências muito mais graves do que uma bronca ou bom “não” na hora certa.

 

Nesta Copa do Mundo, as seleções da Holanda e da Alemanha – que golearam em suas primeiras partidas – têm mais em comum do que simplesmente o bom desempenho da primeira fase: a presença de esposas e namoradas na concentração. Coincidência ou não, a gestão menos rígida das duas equipes se reverteu em gols. Foi assim que entrou em campo, junto com o Mundial, a discussão sobre os benefícios da flexibilidade.

Assim como os bons técnicos de futebol, abrir mão de certas regras é cada vez mais necessário nas organizações. Argumentos para reforçar essa tese não faltam, mas vou frisar um relevante: a falta de tempo nas grandes cidades. O tema não sai nunca da lista dos problemas porque com o trânsito caótico, os funcionários perdem cada vez mais tempo se deslocando. Nesses casos, soluções de home office, por exemplo, caem muito bem. Por um lado porque acabam com o problema em si e, por outro, eliminam custos desnecessários para a empresa (aluguel de espaço, por exemplo). Sem contar a questão da qualidade de vida, que é quem a grande ganhadora da história.

Em se tratando uma competição tão acirrada e mundialmente vista como a Copa, os dirigentes certamente entenderam que ter a família por perto funciona, para os atletas, como um agente de descompressão. Da mesma forma, as organizações vivem momentos estressantes, já que são obrigadas a dar resultados cada vez melhores aos seus acionistas. Assim como a grande sacada dos dois técnicos, eu diria que a nossa, enquanto empresa, é percebermos que a cultura é evolutiva, e não estática. E se ela muda, as regras devem mudar junto.

O caso do home office, por exemplo, já é uma realidade, porque é possível fazer reuniões não presenciais com muita facilidade. À distância também é possível gerenciar uma equipe em todas as suas necessidades (motivação, integração, identificação de lideranças, coaching, treinamentos, avaliação de performance…) Nessa lógica, pode soar completamente normal ter funcionários dispostos para uma reunião à noite ou para fazer uma conferência com outro país em horários específicos para atender as necessidades de fuso horário. Em contrapartida, eles podem ter o direito de estar mais livres durante alguns dias da semana, atender a compromissos pessoais durante o horário de expediente, entre outras facilidades. A legislação trabalhista brasileira ainda terá que se ajustar à essa nova realidade, claro, mas vejo isso como uma questão de tempo.

Outra questão gritante de flexibilidade para as empresas no Brasil é a roupa de trabalho. A forma de se vestir é cultural e, portanto, também evolui. Especialmente em lugares quentes, a dupla terno/gravata está cada vez menos adequada. Por outro lado, permitir trajes mais “fun” em dias especiais (camisetas da seleção em dias de jogo do Brasil, roupas mais descontraídas em ocasiões de festas, etc) dá mais vida ao ambiente e às pessoas. Essa demanda, moderna, fica mais clara com  a chegada na geração Y nas empresas, cuja performance está muito ligada ao prazer e à diversão.

Por meio dessa rápida análise, percebemos que a flexibilidade anda de mãos dadas com o bom senso: a sociedade precisa estar atenta às demandas das pessoas das quais depende. Ela precisa se antecipar, exercitando o processo de “escuta”, compreendendo as necessidades de seus profissionais e analisando quais vão realmente impactar na motivação da equipe, no produto ou serviço final oferecido ao cliente, além de custos extras no orçamento.

Da mesma forma que os técnicos de futebol não querem mexer em time que está ganhando, é normal que as empresas tenham receio de mudar regras do jogo quando estão por cima. Contudo, acabam não percebendo as mudanças rápidas do mercado, da cultura e acreditam que, se obtiveram sucesso no passado, obterão também no futuro. Mas a realidade é que nunca o mercado mudou tão rapidamente. Não há campeões por decreto e a seleção espanhola está aí para provar essa máxima…

Temos visto produtos antes considerados essenciais sumirem do mercado de forma repentina, afetados pelo desenvolvimento de outros semelhantes e com mais funções. O fim do ciclo de vida da máquina fotográfica, do fax, do scanner e da fita cassete são exemplo dessa evolução assustadoramente rápida das coisas. Por isso, acho que a expressão “em time que está ganhando não se mexe” caiu completamente em desuso. Sabemos que nenhum time é absoluto porque as competências da competição passada não são, necessariamente, as mesmas necessárias para ganhar o jogo agora.

O saldo positivo do jogo é que as empresas já perceberam esse movimento e vêm se reinventando todos os dias. Gosto de dar o exemplo do aplicativo Waze, que ganhou o mercado rapidamente porque foi o primeiro GPS a trabalhar com o processo colaborativo para detectar engarrafamentos e sugerir outros caminhos alternativos. Antes dele, os GPS nos davam uma rota estática.Com esse modo de funcionamento, o Waze ganhou rapidamente um número imenso de adeptos. Além disso, quanto mais pessoas usam o aplicativo, mais difícil será a entrada no mercado de concorrentes.

O sucesso desse aplicativo é um índice a ser considerado, analisado e copiado. As organizações precisam escutar os desejos do mercado e implementar produtos e serviços adequados, se quiserem sobreviver. Mas só conseguirão fazer isso se mantiverem um quadro de funcionários motivado, alerta, antenado, disposto a investir tempo e esforço no crescimento da organização. O caminho para isso, você já conhece. Senão, basta voltar para o primeiro parágrafo.

Quem acompanha a cobertura da Copa do Mundo deve ter visto uma discussão entre pai e filho que está causando polêmica.

Flagrado por câmeras de emissoras de TV, um pai tenta impedir seu filho de protestar, por medo dele se dar mal, de se machucar, ou seja, com a intenção de protegê-lo, da mesma forma que a maioria de nós agiria em relação aos filhos.

Pois bem. No meio da confusão, ele explica ao filho: “Você vai ter seus direitos quando trabalhar! Eu pago a sua escola!”. Em coro, os outros manifestantes pedem: “Deixa ele.”

As opiniões contra e a favor de ambos se dividiram nos comentários na internet. Embora o real problema seja só dos dois, o caso serve para discutirmos uma questão atual, que toca o abismo de comunicação que se criou entre as gerações: qual é melhor forma de falar com seu filho e de orientá-lo?

Essa dúvida é certamente mais pertinente porque estamos vivendo, segundo Bauman, em uma sociedade líquida. Para ele, nos dias de hoje, nada é feito para durar, as relações são efêmeras, tudo muda rapidamente e o futuro é incerto. Então, nesse cenário, como saber o quê, de fato, é correto e o que não é? E o que parece correto hoje, não pode deixar de ser amanhã? Como desempenhar nosso papel de pais – historicamente inspiradores, educadores e transmissores de valores – em um mundo que já não é conduzido pelas regras e valores da geração dos Baby Boomers e que está em constante transformação?

Nenhuma outra sociedade jamais possibilitou que o indivíduo exercesse uma autonomia e liberdade individual tão grandes, diz Gilles Lipovetsky. Qualquer um pode dizer o que pensa em uma mídia diferente, como o Twitter, o Youtube, o Facebook e outras tantas.  Vivemos na civilização do espetáculo, como diz Vargas Llosa, na qual a informação está cada vez mais conectada à imagem e a autoridade não tem mais relação com a legitimidade.

Isto posto, é melhor cair na real: não dá mais pra mandar seu filho calar a boca. Nós já os criamos de forma diferente da qual fomos criados, em uma sociedade moderna que promove e estimula os pensamentos individuais, divergentes e contestadores. Mas, se a autoridade paterna (e materna) não tem mais o peso que tinha, como orientar nossos filhos para causas nas quais acreditamos?

Acredito que a primeira coisa a ser feita é dialogar muito, e não somente na hora da crise, no meio da rua e durante a “manifestação”. Provavelmente aquele rapaz, que teve sua liberdade questionada pelo pai, demorará muito a perdoá-lo por tê-lo privado de sua autonomia na hora de contestar e por tê-lo exposto daquela maneira.

Se queremos ter credibilidade junto aos nossos filhos, não podemos mais somente impor nossa vontade, como tiranos. Temos que conversar muito, expor nossos pontos de vista, contar sobre as nossas histórias, mostrar-lhes raízes. Aliás, tem uma frase de Hodding Carter, da qual eu gosto muito, que diz: “Os melhores presentes que podemos dar aos filhos são raízes e asas”. Pode parecer contraditório, mas precisamos dar a eles o senso de pertencer a uma família, origens, valores, mas também asas para que voem (leia-se: educação, capacidade de análise crítica, garra, ousadia, tenacidade, otimismo, amor…)

Não será no calor da batalha que essa transmissão se dará. Muito menos no meio da rua com as câmeras ligadas e a bola rolando. Trata-se de um trabalho cotidiano, de discussão e de troca, cansativo mas prazeroso, desgastante mas gostoso. Também provocativo e enriquecedor. Não dá pra ser pai (e mãe) só na hora do aperto. Essa construção precisa ter fundações sólidas.

Depois disso, é deixá-los voar. Ter a sua própria alta autoestima, batalhar no mundo, se inserir nas causas nas quais acreditam, escolher sua carreira e seu futuro, suas companhias e parcerias.

Nosso papel (e dever) é estimulá-los a seguir em frente, mantendo o hábito de questionar com eles se suas escolhas são as mais adequadas, se entendem as consequências de suas decisões. Podemos, ao invés de somente impor e mandar, ajudá-los na reflexão das consequências de certo comportamentos.

Mas, é preciso ir com cuidado, afinal, não somos psicólogos dos nossos filhos. Podemos ajudá-los até certo ponto, e ajudá-los a questionar sempre. Mas já passou a época em que podíamos simplesmente impedir por decreto que eles se expressassem. A sociedade não aceita mais isso, e nossos filhos também não. Não há um manual que nos ensine a ser pai e mãe em tempos turbulentos. Mas a possibilidade do diálogo sempre existiu e, hoje, mais do que nunca, é a melhor via. Aliás, eu diria que é uma via de mão dupla: democrática e essencial, pela qual podemos transitar de mãos dadas com nossos filhos.

No meu último post, falei sobre as consequências da nossa mudança de comportamento nessa sociedade hipermoderna, da qual o jovem da geração Y/Gamer é o ator principal. Suas principais características são a cultura do excesso e da busca compulsiva pelo prazer, que acabam provocando sentimentos de insegurança, angústia e medo.

Se você faz parte dessas gerações, pode ter se perguntado: mas em que a hipermodernidade se diferencia de outras épocas? Segundo o filósofo francês Lipovietsky, pai do termo, na modernidade a sociedade se caracterizava por um controle sobre seus cidadãos, com sanções e normas sociais a serem observadas, estabelecendo assim um padrão de comportamento para ajustar a capacidade produtiva da sociedade.

Esse padrão era ditado pela autoridade parental, pela a igreja, pelos superiores hierárquicos, pelo poder público e pelo Estado. E, claro, pela própria sociedade, que era muito mais conservadora do que hoje. Pelo menos, aparentemente. Tudo isso se perdeu nos dias de hoje e a prova é que você não acha mais que seu chefe ou professor sabem mais do que você em questões de tecnologia e nem vai buscar conselho com um líder religioso quando precisa tomar uma decisão, certo?

Pouco a pouco, a cultura foi se modificando, aceitando e valorizando o novo, a afirmação de cada pessoa como sendo única e especial, com seus desejos e necessidades. Falamos da pós-modernidade, na qual o valor básico era, portanto, o hedonismo, o consumo massivo, a exacerbação do “eu” em detrimento do que é de interesse comunitário.

Começamos a criar a personalização da vida, o estabelecimento de uma sociedade mais individualista, com total possibilidade de expressão. Investimos em uma dinâmica que nos incitava a criar a necessidade de consumo imediato, reforçando para isso o amor-próprio e criando necessidades de posse e prestígio.

Com a necessidade de crescimento da sociedade do consumo, ampliou-se o universo para as classes mais pobres, e todos os valores que esta inserção abrange: somos todos iguais, todos podem agir como quiserem, não há mais normas sociais e as grandes estruturas sociais perdem significativamente sua autoridade.

Foi também na pós-modernidade, com o surgimento de métodos comerciais do capitalismo moderno (marketing de massa das grandes redes comerciais) que a sociedade inteira se voltou para viver mais o presente. Passamos a valorizar o fútil e o frívolo, sem preocupações com a culpa, o ambiente social, num movimento de alienação: o que importa sou eu e o meu prazer. Entramos na esfera da cultura narcisista, sem normas impostas, e com uma tremenda perda das ideologias de forma geral.

Depois de passar por tudo isso, evoluímos para a época atual – a hipermodernidade – sobre a qual falei no post anterior. Independente de qual geração seja a sua, acho que essa teoria ajuda a entender o conflito entre as pessoas que nasceram em épocas diferentes e hoje têm de conviver no universo profissional ou pessoal. Ela foram moldadas por valores diferentes e por isso suas relações tendem a ser conflituosas. “No meu tempo, não era assim…” é uma frase que indica claramente a diferença de valores e o choque com o comportamento do outro.

E útil ter em mente que nossos modelos mentais foram influenciados pelos valores mais fortes que nos foram transmitidos durante a formação de nosso caráter, em especial na infância e adolescência.  Talvez essa reflexão nos ajude a ser mais tolerantes com as diferentes maneiras de ver o mundo, que tanto causa problemas de relacionamento entre Y, Baby Boomers e X. E, claro, nos dê pistas de como aproveitar o melhor de cada geração, aquilo que deveria ser transmitido sempre e não se perder com o tempo.

Se você tem mais de 40 anos, já deve ter percebido que estamos vivendo um paradoxo sem precedentes: a sociedade atual cultiva valores completamente opostos aos que você conheceu quando era criança.  E se é mais jovem que isso, certamente se ligou que é protagonista desse momento.

De acordo com o filósofo francês Gilles Lipovietsky, estamos na era da hipermodernidade, que se caracteriza pelo nosso consumismo exagerado. Comparado a nossos avós e bisavós, acumulamos muito mais cacarecos: roupas, sapatos, acessórios e até comida! Será que a necessidade deles era menor? Não tinham dinheiro suficiente para comprar o que nós compramos? A tecnologia não era tão avançada, por isso possuíam menos coisas? Nenhuma das alternativas está completamente correta.

Segundo o estudioso, a explicação está na mudança de padrões de comportamento. Sem as normas tradicionalistas, a sociedade vem se dividindo em extremos e criando comportamentos paradoxais na busca compulsiva pelo prazer. Por isso, acumulamos coisas. E não se trata somente de objetos; o excesso está principalmente em nossos hábitos cotidianos.

Repare que, de uns tempos para cá já não comemos de forma saudável, coletiva, não temos tempo de preparar nossas refeições, como nossos antepassados. Cultivamos o lema do “coma o que quiser”, na hora em que der. Como o momento é de abundância de alimentos, os industrializados principalmente, acabamos criando uma escala que vai de obesos a anoréxicos, a partir de uma lógica pessoal e emotiva.

A hipermodernidade se caracteriza também pela ausência de um discurso ideológico razoável (tudo é uma catástrofe, nada parece ter solução) e pela desintegração social que, ao mesmo tempo em que possibilita o prazer sem limites e motiva a agressividade excessiva, se vê ávida por ordem e moderação.

Além disso, as instituições já não são as mesmas que nos tempos idos.  Como resultado, temos maior incidência de crimes hediondos, aparentemente por motivos torpes. As regras e valores ficaram mais tênues e, por consequência, temos mais medo da desordem, de assaltos e de morrer pela violência. Me faz lembrar dessa musica de Gilberto Gil, na qual ele fala da possibilidade de morrer de morte “matada”:

“então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida.”

Isso se reflete no comportamento da sociedade, de maneira geral. Evitamos sair de casa à noite, tememos expor nossos objetos de valor ou sermos assaltados no trânsito. E o medo é generalizado, independente de classe social. Quem utiliza transporte público teme a violência, seja ela um incêndio criminoso, um estupro, um roubo, uma agressão. Nos questionamos se a “liberdade” conquistada não foi responsável pela atual situação, já que trouxe com ela uma clara ausência de limites. Como demonstra essa música, do Mc Guime, que exprime  a notória ausência de medo que desafia as autoridades:

 “Acelera forte, os malote no tanque e o fuzil na garupa
Pilota com uma mão e atira com a outra
Especialista em fuga”

No campo profissional, também vivemos a sociedade do paradoxo. Falamos muito em engajar funcionários mas, no momento de crise, cortamos a folha de pagamento para reduzir custos ou lucrar mais. Empresas discursam sobre a defesa do meio ambiente, mas continuam descarregando material poluente na natureza. Queremos respeito às leis de trânsito, furiosos com os indivíduos bêbados ao volante, mas falamos ao celular enquanto dirigimos…

Quanto mais avançam as condutas responsáveis, mais aumenta a irresponsabilidade, nos isolando e transformando em “lutadores sem filosofia”, como descreveu Marcelo Yuka, em “Ego City”:

“Que nos prende ao consumo siliconizado
E farpado urgente que diz
Bem-vindo a Ego City
Lutadores sem filosofia
Crianças sem esquinas
Realidade da portaria
Mas só se for pela porta dos fundos
De frente pro mar
De costas pro mundo
Perderam o governo
Mas ainda seguram os trunfos”

 Barry Schwartz diz, em “O Paradoxo da Escolha” que a possibilidade de fazer escolhas nos deixa ainda mais angustiados.

E essa “nova sociedade” é angustiante porque já que não nos dá bases sólidas, nem limites. Fica a impressão que nada mais satisfaz o homem hipermoderno e, por isso, ele busca incansavelmente mais formas de ter alegria, satisfação e prazer. Quer seu cérebro inundado de dopamina o tempo todo e o comportamento da Geração Y exemplifica bem esse conceito.

Já disse em outros posts que esta geração, que vem se fundindo à Geração Gamer, será mais angustiada que as anteriores. Belchior falou bem desse sentimento em “Coração Selvagem”:

“O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver
E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza
E arriscar tudo de novo com paixão
Andar caminho errado pela simples alegria de ser
Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo , vem morrer comigo
Talvez eu morra jovem, alguma curva no caminho, algum punhal de amor traído, completara o meu destino.”

É justamente a ausência de normas sociais que gera nesses jovens confusão e questionamento. Eles se veem em meio a duvidas básicas, do tipo como se vestir para o trabalho e que perguntas podem ser feitas ao chefe, por exemplo.

Os jovens são a personificação da transição, já que são hipermodernos vivendo em um mundo ainda criado por modernos e pós-modernos!  Eles estranham a definição de normas, porque cresceram em um mundo sem regras sociais. Ao contrário, o mundo deles as extinguiu, na tentativa de poder ser mais autêntico, e em uma negação clara dos valores vigentes.

Angustiado, este jovem quer estar em dois ou três lugares ao mesmo tempo – ainda que virtualmente. Tecla furiosamente seu smartphone enquanto janta com a família. Por não aceitar os momentos de tédio, consome antidepressivos, procurando compreender o mundo à sua volta. Têm medo, como na canção de Julieta Venegas e Lenine:

“Tenho medo de acender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá”

A culpa também é nossa, das gerações mais velhas. Fomos estimulados a educá-los de forma menos restritiva, acreditando que assim estaríamos estimulando suas potencialidades. Isso até pode ser verdade, porém, a tese virou antítese. O “não” considerado execrável, foi abolido e, finalmente, proibido. As crianças ganharam poder nas famílias e os pais se submeteram a elas, possivelmente acreditando que formariam personalidades fortes e mentes criativas.

Então, se a responsabilidade de ter criado esse novo momento é nossa, também nos pertence o dever de ajudar a sociedade em transição, reafirmando os valores que entendemos como adequados a uma sociedade organizada e mais harmônica. Seja nas organizações, em casa, nas escolas, nosso papel, mais do que nunca, é dar um norte a uma sociedade que parece estar se perdendo nos seus excessos.

Então, mãos à obra!

PS: No próximo post, vou falar sobre a diferença entre hipermodernidade e os momentos anteriores: modernidade e pós-modernidade.

De quando em quando, o mercado publicitário lança um comercial que “pega” e fica na cabeça das pessoas. Hoje em dia, a mensagem que “pega” fica circulando na internet, em um movimento que chamamos de “viralizar”.  Mais do que uma invenção da publicidade, acho que esse tipo de propaganda é uma grande sacada dos profissionais da área. Eles aproveitam, com inteligência, um sentimento social e o transformam, com bastante criatividade, em algo tangível e marcante. Pode ser engraçado ou sensível, pouco importa. Foi assim com o “Não basta ser pai, tem que participar”, lançado pela Gelol, 1984. Na época, a marca conseguiu exprimir um desejo social da maior participação do pai na educação dos filhos. E usamos o bordão até hoje! Até a geraçõe Y usa a frase, sem sequer conhecer a propaganda!

Nessa mesma linha, há um exemplo recente, de um novo momento social que a mídia conseguiu captar: o movimento  do “desapega”. Ele coincide com o advento de sites de compra e venda de usados que se espalham pelo Brasil, reproduzindo algo que já existe há muito tempo na Europa. Esses sites surgem em um momento no qual o conceito de desapego vale para tudo e para todos, tanto nas relações afetivas como no plano material. A mídia até brinca com isso, como vemos nessa outra propaganda da mesma empresa.

Há uma metamorfose da cultura, que expressa um sentimento social vigente: nos tornamos uma sociedade desapegada. No Aurélio (sim, o dicionário), “desapegado” significa “desunido, desafeiçoado”, e o desapego é sinônimo de falta de afeição e de amor, Desapego é indiferença.

Hoje funciona assim: tem alguma frustração com uma pessoa? Descarte-a da sua vida, delete do Facebook, pare de seguir no Twitter, mande os emails dela automaticamente para a lixeira, não atenda suas ligações. Alguma coisa ficou velha? Venda, troque ou substitua rápido, porque isso é possível e é absolutamente normal. Resumindo: desapegue. Essa palavra de ordem nos incita a vender, dar, trocar, doar, esquecer sem vínculos ou remorsos. Simples assim.

Temos nos transformado numa  sociedade materialista, que espera que troquemos tudo por algo mais recente. O passo seguinte é poder contar isso para o  mundo via Facebook, Twitter, Instagram, espalhando a boa-nova para 1 bilhão de pessoas… A pegada é mostrar que você tem o último modelo, com mais funções, ou que você esteve na balada mais desejada, ou que você “se renovou” e agora está num “novo” relacionamento sério.

Essa sociedade do “carpe diem” (aproveite o dia, em latim) não tolera frustrações ou aborrecimentos. O trabalho está chato? Troque por outro! Aquela pessoa fala ou escreve demais? Bloqueie-a nas redes sociais e problema resolvido! A criança se frustrou com a espera no restaurante ou na fila do supermercado? Dê o smartphone pra que ela não fique entediada e, como consequência, não teremos “escândalos”.

A mesma sociedade que nos incita a sermos intolerantes e, ao mesmo tempo, hiperconectados, é também a que valoriza quem primeiro exercitar este conceito e se desvincular do que pode ser “excesso”. Mas os dois conceitos, o da “sociedade do excesso” e da “sociedade do desapego”, são muito diferentes. A condenação do exagero pelos filósofos que denunciam a “sociedade do excesso” não inclui descartar, rejeitar, livrar-se das pessoas ou objetos com os quais criamos uma relação de afeto.

Assim, vamos nos perdendo nas metamorfoses da cultura, sem perceber suas nuances e sem questioná-las porque, afinal, “pensar” implica um consumo de energia  e requer tempo. Nos esquecemos, porém, que é só por meio da reflexão e do afeto que podemos nos expandir como pessoas, sair da roda viva do cotidiano, questionar o “status quo” e aprender para assim crescer pessoal e profissionalmente. Com a exigência da rapidez preconizada na cultura pós-moderna, acabamos eliminando o exercício do pensamento crítico, que leva ao autoconhecimento e ao aprendizado. A mensagem é clara: a sociedade nos diz que não precisamos passar por momentos de pressão, de chateação, de fastio, de espera: a felicidade e o prazer podem ser agora, com a renovação e com a posse. Sem as ponderações adequadas, vamos nos tornando mais superficiais.

Esse movimento é muito bonito na teoria, mas o problema é que, na prática, a vida não é feita de felicidade constante. Não é possível viver e se construir sem decepções, fracassos, frustrações, esforços, esperas, e outros momentos que remetem a sentimentos negativos. A receita da vida tem como ingredientes muita garra e perseverança e, sem isso, seremos cada dia mais voláteis e vazios.

Penso que nossa tarefa– pais, jovens, psicólogos, escola, organizações, cidadãos pensantes – é refletir sobre como esse movimento vai impactar a vida adulta das gerações que já nasceram em um mundo completamente moldado pelo desapego. Creio que a Geração Y e as gerações vindouras terão mais dificuldades em estabelecer relações afetivas  mais profundas e pensamento de longo prazo. Terão mais dificuldade em refletir e em agir fora da ordem consumista do mercado do desapego. Provavelmente, se sentirão menos autores da própria vida.

 “We shape our buildings, and afterwards, our buildings shape us.” (Winston Churchill)

 

“Nós construímos (damos forma) nossos prédios e, depois, eles nos constroem (nos moldam). A frase, proferida pelo político e estadista inglês Winston Churchill, em um discurso em 1944, parece antiga e ultrapassada, mas pode ser perfeitamente adaptada para os dias atuais. Hoje, as construções que nos influenciam não são mais físicas, de concreto. Agora, é nossa arquitetura virtual que nos molda e nos induz a novos tipos de comportamento. São essas as que vão nos “construir”, daqui em diante.

Edificamos novas formas de acessar coisas e pessoas, lugares e possibilidades. Erguemos redes de comunicação eficazes, rápidas e inteligentes e assim, estamos construindo nosso presente e nosso futuro. É essa a ideia de Nicholas Carr no livro “O que a Internet está fazendo com as nossas mentes”, reforçada por Sherry Turkle em “Alone Together”. Para eles, é preciso assumir que o modelo mental da geração que nasceu após o surgimento dessa nova tecnologia, como a conhecemos hoje, trará consequências na maneira como essas pessoas pensam e agem. E a discussão não esta centrada em se esse novo modelo mental é melhor ou pior do que modelos anteriores, mas sim no fato de que estão em processo de mudança e evolução.

O fato de estarmos tão dependentes de nossos smartphones, a ponto de quase entrarmos em crise de abstinência ao passar algum tempo sem checar mensagens, acessar e-mails, redes sociais ou fotografar enlouquecidamente, é um sintoma dessa mudança de comportamento. Alias, é um sintoma coletivo, quase uma histeria porque não é raro perceber que, muitas vezes, as pessoas se privam de viver o momento real em função do virtual. Esse novo tipo de relação estabelecida por nós tem uma interferência direta no modelo mental que construímos.

Nesse sentido, me inquietam os impactos e possíveis desdobramentos desse novo modelo no comportamento da Geração Y e das que virão depois (a geração Gamers, como eu os chamo). Minha geração aprendeu que é importante ter momentos de reflexão, a sós, equilibrados com as experiências em grupo: em família, na escola ou com os amigos. A convivência com outras pessoas sempre foi importante, mas um trabalho profundo de reflexão, emocionalmente esgotante mas produtivo, requer a habilidade de ficar sozinho, sem qualquer outro estímulo aos quais estamos hoje acostumados (um livro, no máximo!).

Mas parece, inclusive, que a questão da experiência de “estar sozinho” é mal compreendida nos dias de hoje. Rapidamente a comparamos à sensação de “ser solitário”. Mas, se pensarmos bem, são coisas bem diferentes. Estar bem sozinho, acompanhado de si mesmo, feliz por ter um tempo que permite pensar, criar, ter ideias é algo absolutamente normal, saudável e necessário. O conceito de “solidão”, no qual nos sentimos excluídos dos acontecimentos, ou que os outros estão vivendo intensamente algo que não estamos é outra coisa.

As redes sociais procuram promover essa sensação de integração “full time”, mas acaba provocando ainda mais sentimentos de solidão. Ao saber, via Facebook, que houve uma festa da qual não participou ou um evento para o qual não foi convidado, o individuo pode ser inundado de um sentimento dolorido de solidão, que se instala com muita força. Afinal, uma das maiores dores é a dor da exclusão. Ela dói fisicamente, já nos disseram os neurocientistas.

Uma das promessas da internet é de que nunca estaremos sozinhos. Por mais paradoxal que pareça, ao estarmos plugados nas redes sociais, a rede nos confronta com a nossa própria solidão. Nossa tendência é, então, estarmos em mais lugares ao mesmo tempo, freneticamente compartilhando e curtindo tudo o que for possível. Compartilho, portanto, existo. Curto, portanto, sou percebido. Como tudo precisa ser feito rapidamente há menos conversas ao vivo, e consequentemente, menos espaços de reflexão.

A criança pequena se transforma no objeto com o qual ela brinca. São a textura, a força, a resistência dos materiais das brincadeiras de infância que vão forjando quem ela será. Ela é construção do que foi transmitido por seus pais. Se, no mundo atual, não há espaço para a pausa, como incutir a necessidade da pausa nos filhos? São também as pausas, e não somente as ações, que nos definem. Se vivemos em um ambiente sem hiatos, sem direito a reflexão, como saberemos quem somos? Como vamos crescer? Como reconheceremos as expressões faciais de nossos amigos, funcionários e chefes se só no relacionarmos com eles pela internet? Como saberemos o que pensam, se eles se esconderem, por medo de suas fragilidades, atrás dos textos e e-mails? Como lidaremos com o choro, a angústia, a depressão do outro, se não dermos espaço para reconhecermos estes sentimentos em nós mesmos?

Crianças aprendem a conversar a partir das conversas de seus pais, de sua família em convívio social. Se isso for desaparecendo, como vamos ensiná-las a se exprimirem? Não será, certamente, fazendo-as se distraírem com o celular ou o tablete ao menor indício de frustração. Não será nos filmes e videogames que eles encontrarão seu caminho.  Se vamos ficando mais intolerantes em relação a ouvir dos nossos amigos suas dificuldades, dúvidas e problemas, como estimular a capacidade de ter compaixão, empatia, pena?

Como vemos, muitos sentimentos e comportamentos estão em jogo. Já parou para pensar  nisso, assim, sozinho, sem o smartphone conectado, ali do lado? Você faz alguma pausa para pensar nesse frenesi da vida online? Carlos Drumond de Andrade sabia bem que a vida necessita de pausas, antes mesmo do ritmo frenético dos tempos de hoje.

“Eu, editado”

 

 

 

 

 

 

Você já deve ter percebido que os relacionamentos interpessoais deram uma guinada depois do advento dos aplicativos de comunicação existentes em nossos smarthphones e tabletes. As pessoas têm usado e abusado de programas como Whatsapp, talvez estimuladas pela seu custo zero.  Entretanto, a mudança vem de mais longe, porque antes disso já nos comunicávamos por e-mail, mensagem de texto (SMS) e chat. Enfim, parece que voltamos no tempo e passamos de “homo oratio” à “homo scriptum”, com perdão pela expressão inventada em latim.

Verdade seja dita: atualmente temos preferido digitar um texto do que falar ao telefone. Cada vez mais vemos pessoas usando aplicativos em detrimento do primitivo ato de falar para se comunicar. E justificamos, todos, em uníssono: “ah, é mais fácil digitar”… Será que é mesmo mais cômodo ficar curvado sobre o smartphone e ignorando o mundo ao nosso redor e todo seu caos? Algumas pessoas chegam a afirmar abertamente que, quando ligam para alguém, preferem deixar um recado na caixa de mensagens do que encontrar seu interlocutor disponível do outro lado da linha. O que isso significa?

No livro Alone Together, ainda sem tradução em português, Sherry Turkle faz uma análise interessante sobre o comportamento das pessoas no mundo guiado pela internet. Ele explica que, por andarem por aí com seus fones de ouvido, solitários em sua “bolha”, os jovens da geração Y têm dificuldade em interagir com o outro. Afinal, interagir significa mostrar suas vulnerabilidades e nisso a geração Y não quer nem ouvir falar…

Todos nós, independente da idade e da geração, temos um grande medo de que a exposição de nossa intimidade revele também nossos pontos fracos. Talvez por isso preferimos a aparente tranquilidade do “eu editado”.  O “eu editado” é uma expressão para definir aquele costume de – quando escrevemos em uma caixa de diálogos – por algum motivo reescrever antes de enviar. Essa prática tem se tornado comum e percebemos bem no Skype quando alguém faz isso, por exemplo. Há um vídeo que fala bem sobre a relação com esse nosso “Eu editado”. É um vídeo curto, de 17 minutos e muito atual, que explica didaticamente a maneira de se expressar dos jovens de hoje em dia.

Mas, porque esse comportamento? Estaríamos evitando o risco de não estarmos no controle das coisas? Ou será que, ao evitar falar ao vivo ou por telefone estamos evitando a complexidade das relações humanas, as possíveis frustrações das relações a dois, os chamados “riscos emocionais”? Quando passo uma mensagem, posso “editar” o que digo, “controlar” melhor meus sentimentos. As pessoas podem nos desapontar e este é o risco que corremos nas relações que estabelecemos. Se minha relação for com um robô, eu não terei frustrações?

Outro exemplo desse novo modelo de relação com nossas máquinas esta no filme “Her”, de Spyke Jonze. O personagem Theodore (Joaquin Phoenix) é um homem comum, recém- separado, que compra um sistema operacional e o configura de acordo com seus modelos. O sistema é inteligente, sexy, divertido, tem uma voz sensual e, por apresentar uma alternativa à solidão do mundo moderno, faz com que o protagonista apaixone por “ela”, batizada de Samantha. O filme tem uma excelente proposta e não se perde no enredo, ao contrário de outras boas idéias que já vimos. Como o personagem é um homem carente e solitário (nada diferente das pessoas reais da nossa sociedade), Theodore faz de Samantha sua parceira.

Tanto o filme “Her” quanto o livro de Sherry Turkle são duas obras modernas que abordam com maestria essa questão. Acho interessante a proposta dos dois autores porque nos fazem  abrir o debate sobre questões desse novo universo, ao qual pertencemos. Será que estamos nos tornando “solitários acompanhados”? Estamos evitando viver o “risco” que as relações humanas implicam, nos abstendo da intimidade que a relação direta proporciona? Deixamos de lado a intensidade da relação a dois e a riqueza do imponderável, do imprevisível, do mágico e da alegria que ela proporcina, ainda que possa ser descontrolada e caótica? Será que as pessoas se dão conta da diferença brutal que há entre a cyberelação e a relação face a face? Estamos colocando menos emoção nas relações, ja que elas são majoritariamente virtuais? Seremos, daqui pra frente, “Nós, sempre editados”, para mostrarmos ao mundo apenas a nossa melhor face? Se respondermos sim a algumas das questões acima, deveríamos nos perguntar se não estaremos vivendo em uma triste era de cybersolidão.

 

Cecília Meireles, poetisa brasileira fantástica que morreu em 1964, deixou uma vasta obra de literatura infantil. Quem leu quando criança sabe do que estou falando. Quem não leu, deveria fazê-lo, porque os valores incutidos em suas poesias são próprios de quem retratava o universo infantil com conhecimento de causa: Cecília foi também professora.

Entre tantas poesias lindas da autora, há uma que gosto muito tanto pela simplicidade como pela maneira com que questiona profundamente a vida. Chama-se “Isto ou aquilo” e diz assim:

 

“Ou guardo o dinheiro e não compro o doce

ou compro o doce e gasto o dinheiro”

 

Essa poesia é uma grande sacada para ensinar às crianças que, na vida – inclusive na adulta – vivemos fazendo opções. Infelizmente, não podemos ter tudo ao mesmo tempo. Ela continua assim:

 

“Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares”

 

Escrito no mesmo ano de sua morte, o texto mostra o quanto Cecília Meireles estava preocupada com a educação das crianças. E tem mais:

 

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

 

Com versos tão certeiros assim, até parece que Cecília Meireles estava prevendo a “chegada” da geração Y e da geração gamers… Esses jovens, debutantes no mercado de trabalho, passaram muito tempo jogando videogames em smarthphones, tabletes e computadores, tomando decisões nos jogos os tempo todo. Eles sabem que é preciso escolher e representam bem esse próximo verso:

 

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…

e vivo escolhendo o dia inteiro!

 

É interessante observar que, por outro lado, na vida cotidiana desta geração, não há vontade explícita de fazer opções. Os jovens estão em uma balada, mas não deixam de investigar o que está acontecendo nas outras, onde estão seus amigos. A geração Y ou Gamer está na praia curtindo, mas fica pensando no videogame que está em casa. Muitas vezes até leva o jogo para se distrair na praia! Ao mesmo tempo em que estão na piscina, querem andar de bicicleta. Parece que estão em um desasossego sem fim…

 

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranqüilo.

 

Também, pudera. Existir em uma sociedade que privilegia o presentismo é um estimulo para viver intensamente o agora, em função de uma estratégia de marketing cuja palavra de ordem preferida é: “Consuma já!”. Muitas vezes sem perceber, somos motivados a comprar o carro do momento, usar o relógio que revela “quem somos” (!) (aliás, indústria deve estar com sérios problemas porque ha tempos os jovens não usam relógio!), vestindo a marca Z que nos deixa sensuais, comendo a comida orgânica que faz bem à saúde e viajando pelo mundo com um smartphone que nos ajudar com as traduções por meio de um aplicativo.

 

Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

 

É preciso dizer também que embora não pareça, essa turma – acostumada a tomar tantas decisões – está perturbada com todas as opções que tem.

Barry Schwartz, autor do livro “O Paradoxo da Escolha”, fala sobre como é angustiante o processo de tomada de decisão quando há muitas opções viáveis.  Queremos estar em todos os lugares ao mesmo tempo e aproveitar todas as opções, já que a sociedade do consumo sussurra: “ Faça agora, depois será tarde demais”.

O mundo de muitas opções, que nos obriga a tomar decisões, que por sua vez nos angustiam ao deixarmos pra trás as opções eliminadas, é um paradoxo do nosso tempo. Hoje, as regras sociais são mais flexíveis (nos possibilitam, por exemplo, não estar casado com a mesma pessoa a vida toda) e o mundo ficou “flat” e “pequeno” (permitindo o escolha em uma gama maior de marcas). E sim, se você chegou à essa conclusão, acertou: esse modelo mental é recente, típico desta nova geração.

Contudo, alguns valores permanecem vivos e atuais. A poesia de Cecília Meireles já nos ensinava, na década de 60, que não é possível a onipresença, a ubiquidade:

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.

 

Em um mundo de tantas opções, algumas são sempre altamente recomendadas. Se ainda não temos as respostas do futuro, podemos pelo menos nos valer das experiências do passado e nisso a literatura de Cecília Meirelles pode fazer bem e ensinar muito. Com sua poesia leve, ela pode ser um bom argumento para abrir a discussão sobre a implicação da tomada de decisões. Deixar de lado algumas alternativas que são, aparentemente interessantes, algo que faz parte das nossas vidas.  Entrar em uma empresa significa abrir mão de entrar em outra.  E assim por diante. A nossa era é extremamente atrativa, com muitos caminhos possíveis. Mas é também mais angustiante, como nos explica Barry Schartz. E Cecília Meireles, lá atrás, parece que já sabia disso.

 

 

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