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Há anos lidando todos os dias com jovens em início de carreira, cheguei a uma séria conclusão: a geração Y está mais perdida do que nunca. Como consequência, o descompasso de compreensão entre as gerações só cresce. Tenho cada vez mais a sensação de que é preciso muito esforço para entender o que essa geração quer dizer. Quantas vezes vi essa moçada patinando sem conseguir dar clareza a seus questionamentos ou à transmissão de uma ideia? O que vem deles tem chegado a nós, os mais velhos, de forma muito caótica.

Um exemplo: eles têm muitas dúvidas sobre a carreira, mas quando conversamos com eles, cavando um pouco para tentar entender o problema, eles não sabem explicar exatamente do que gostam ou o que esperam. Divagam, se explicam, mas não dizem nada tangível.

Outro: eles saem de uma empresa sem ter claro o motivo. Não têm explicação a dar nem à empresa, nem a eles mesmos. E começam a procurar um novo trabalho sem saber o que o incomodava no anterior. Na minha época, tínhamos uma entrevista de desligamento, na qual toda a roupa suja era lavada, e falávamos claramente o que tinha acontecido. Não era um exercício tão difícil assim e ainda ajudava na busca de um novo trabalho.

Um outro aspecto gritante do comportamento dessa geração e que está ligado a esse jeito nebuloso de se expressar é a dificuldade que eles têm em reconhecer e demonstrar sentimentos. E, nesse ponto, eu tenho uma vaga ideia do porquê: a busca do jovem está focada nos prazeres externos da vida. Tudo precisa ser “fun”. Tem que curtir, senão não tem graça. Tenho a impressão que eles não conseguem – ou não sabem como – captar as dopaminas internas que todos temos, nos pequenos prazeres, nos pequenos momentos e nos aprendizados que valem muito…

Volto aos sentimentos, porque é algo que me impressiona nessa geração. Analisemos. Os Y terminam relações por WhatsApp. Jogam um segredo alheio no Secret sem se importar com as consequências daquilo para a vida da pessoa atingida. Eliminam pessoas do Facebook sem o menor critério, no calor de qualquer desagrado, sem pensar no futuro e em suas infinitas possibilidades e cruzamentos. O importante é eliminar o problema já. O resto… depois a gente vê…

Acredito que essa impulsividade torna essa geração menos previsível e, portanto, mais angustiada. Na ânsia da busca pelo prazer o tempo todo, prejudica a construção das relações afetivas. Afinal, elas demandam paciência, compreensão, perdão, diálogo, e todas essas outras tarefas que dão muito trabalho! Interessante notar que agindo no calor das coisas, eles acabam gerando outros sentimentos negativos (fobia, insegurança, medo) e se distanciando da razão inicial do que os angustia…

Falar e entender nossos sentimentos nunca foi algo simples, embora muita gente acredita dominar o autoconhecimento. Mas percebo que a geração Y tem ainda mais dificuldade nesse campo. Primeiro porque está “aparentemente” ocupada com sua agenda lotada: deslocamentos intermináveis, trabalho, academia, redes sociais. Depois, porque isso parece chato para eles (como tudo que requer um pouco mais de profundidade).

A famosa DR (discussão da relação) é abominada pelos jovens, e não é por acaso. Eles têm a sensação que aquilo é uma bronca e não um exercício importante para expor, discutir e entender seus próprios sentimentos. Talvez porque se conheçam pouco e não dispensem tempo para este momento de reflexão. Nesse caso, fica mesmo parecendo perda de tempo. Com tanta coisa a fazer em uma sociedade medida pelo número de pages view, ainda tem gente querendo falar de sentimentos?! Tenham dó.

Mas, é claro que o jovem tem sentimentos, e eu não seria maluca de dizer o contrário. Contudo, penso que, ao se sentir frustrado, ou com raiva, ciúme, inveja, desprezo, desespero, mágoa, tristeza (sentimentos que se traduzem basicamente em angústia) ele tende a escapar da situação em vez de discuti-la. Discutir causa estresse e a geração Y tem pavor disso.

Como boa Baby Boomer que já errou e acertou muito nesta vida, e grande observadora dessa geração, gostaria de deixar um ensinamento aos Ys: não adianta fugir dos sentimentos. Ignorá-los não leva a angústia embora, ao contrário: mal resolvida, ela pode voltar ainda mais forte.

A vida necessita de pausas e elas não representam perda de tempo. Ao contrário, são parte do amadurecimento e do crescimento. Dê um tempo a si mesmo simplesmente para pensar – o chamado ócio criativo – para admirar as coisas ao redor ou para refletir sobre o quanto você se conhece. Descobrir o que faz ter amor ou raiva, sentir inveja ou orgulho, o que realmente o deixa feliz ou chateado. E claro, pensar nas reações caso a caso.

No ambiente profissional, é possível aplicar a mesma regra: diga sem rodeios ao seu chefe o que não está gostando. Explique suas dúvidas a ele em vez de ir discutir o assunto com outra pessoa. Ele é a pessoa que pode dar as respostas mais adequadas às suas questões. Procure um tempo na agenda de ambos (não vale fazer isso na hora de ir embora), explique que gostaria de ter uma conversa com ele. Mande pau, mas sem agressões. As pessoas mais velhas tendem a se sentir agredidas quando são confrontadas muito diretamente. Colocá-lo contra a parede também não funciona. Só pergunte, escute e fale. Seu desafio é nunca começar uma frase com um “não”.

Para finalizar, aplique esta última regra também na vida: converse mais sobre seus sentimentos com pessoas de quem você goste. Não é fácil, no início. Nunca é para ninguém. Mas uma vez dentro dessa dinâmica e usufruindo dos seus benefícios, você verá como pode ser bom entender seus próprios sentimentos, expor suas dúvidas e ouvir conselhos, opiniões, elogios e, por que não, críticas. Tudo isso ajuda a crescer.

*Reprodução do post e Eline Kullock publicado originalmente no Portal da Competência

 

Terminei o último post falando da angústia da geração Y porque queria aprofundar o tema que está, volta e meia, no centro do debate sobre os males dos tempos atuais. Levando-se em conta que somos, em geral, uma sociedade dominada pela ansiedade, não é novidade que os mais jovens também o sejam. Mas, é interessante analisar os motivos pelos quais somos mais deprimidos do que nossos pais e avós…

Em primeiro lugar, o mundo está cada vez menos previsível. De fato não sabemos, ao acordar, como o dia terminará. Há mais violência – assaltos, sequestros, assassinatos, estupros, acidentes – e isso, por si, já nos obrigada a enfrentar, cotidianamente, o sentimento de incerteza. Da mesma forma, estamos sempre atrasados para o próximo compromisso, tentando encaixar tudo o que precisamos fazer nas nossas minguadas 24 horas do dia. Gastamos mais tempo no trânsito, nos deslocamentos (em grandes e médios centros urbanos), perdendo uma grande fatia de nossas horas úteis, o que nos deixa frustrados.

A cada dia (ou a cada hora!), o valor das empresas onde trabalhamos varia, e elas podem admitir ou demitir seus funcionários, fundir com outras empresas ou ficarem obsoletas, se o mercado desenvolver produtos ou serviços de mais valor. Até nossa tarefa – hoje primordial – corre o risco de ficar obsoleta, em função do crescente desenvolvimento da tecnologia. Isso significa que profissionalmente também somos instáveis, apesar de ainda contrairmos dívidas a longo prazo, apoiados em uma enganosa sensação de estabilidade.

Em segundo lugar, os pais dos jovens da geração Y os educaram dizendo que eles eram ótimos. Todos os educadores de plantão disseram que aquelas crianças aprenderiam melhor se tivessem uma autoestima alta. E, diferentemente das gerações anteriores, eles cresceram ouvindo que poderiam fazer o que quisessem de suas vidas. A campanha de eleição de Barack Obama dizia “Yes, you can” é um exemplo clássico da educação de nossos tempos, na qual damos todo o poder aos mais jovens.

Desde cedo, esses mesmos pais deixaram os pequenos realizar escolhas: da roupa que iriam usar, da comida que iriam comer, dos lugares aonde queriam ir… Para um Y, tudo isso pode parecer muito natural e normal, mas não foi sempre assim. No passado, não era o pai da família que decidia aonde todos iriam no domingo? Não era a mãe quem colocava a mesa, servia a comida e dizia: “lambam os beiços, porque é o que temos para o jantar”? Não era normal uma criança optar tanto por tudo, ter tanta voz, tanta opinião. Essa situação é relativamente nova e veio se estabelecendo com a evolução da sociedade hipermoderna, dando um “empowerment” aos jovens jamais vivido por gerações passadas.

Além disso, outra coisa mudou: vivemos no mundo do “muito”. Na minha época, havia seis ou sete carreiras que alguém poderia seguir na vida, três ou quatro modelos de carro, com menos de cinco opções de cores. Ou seja: havia pouco de tudo. Hoje, com a customização e a tecnologia, vivemos o contrário. Quer um exemplo? No Brasil, temos à disposição pelo menos 100 cursos universitários. Se pensarmos em marcas de telefone celular, televisões, carros, perderemos certamente a conta…

Interessante notar que, com o nascimento da compra virtual, foi possível variar as ofertas, colocando na “prateleira” produtos antes muito caros para serem expostos em uma loja, onde há o valor do aluguel incluído. O autor Malcolm Gladwell fala disso com propriedade em “A Cauda Longa”. Agora, produtos para canhotos, para idosos ou para o público GLBT viraram boas oportunidades para os fabricantes. Sem o custo fixo da vitrine, produtos específicos de mercados segmentados puderam ser expostos e comprados, aumentando em muito nosso leque de opções.

Contudo, ter muitas opções – que deveria nos proporcionar prazer e satisfação –nos gera angústia. Em “O Paradoxo da Escolha”, Barry Schwartz diz que, nos tempos modernos, conquistamos mais democracia e um grau maior de satisfação. Entretanto, essa sobrecarga de poder, sem a real noção das consequências das nossas escolhas, nos deixa mais tensos e, ao mesmo tempo, cria expectativas irreais do tipo: “se você fizer esforço, consegue o que quiser!”. Para Schwartz, o problema é ainda mais sério: o excesso de opções pode nos levar à depressão.

Se repararmos bem, isso já é realidade no que diz respeito às nossas opções de trabalho, de afeto, de esportes, de locais para viver, de estilos de vida e de bens pessoais. Com a sociedade do consumo nos dizendo todo o tempo “consuma este produto ou aquele e seja mais feliz”, a pressão da escolha aumentou, nos gerando mais angústia. Ver os amigos consumindo “outras festas, pelo Facebook” ou Instagram e não ter sido convidado, não estar participando, já é fator de angústia relevante para o jovem. Assim, poder estar em vários locais ao mesmo tempo, por meio das redes sociais, contribui seriamente para a frustração da geração Y.

Moral da história? Precisamos, junto com os jovens, refletir sobre as consequências desse paradoxo do muito, que tanto nos dá prazer, mas que pode nos levar a nutrir sentimentos negativos ao sermos engolidos pela gama exagerada de opções. O primeiro passo é reservar um tempo pensando em como isso nos afeta, e em como podemos ser mais felizes, aproveitando, claro, esse mundo que também é maravilhoso com tantas boas possibilidades, convenhamos.

*Reprodução do post e Eline Kullock publicado originalmente no Portal da Competência

Uma das características determinantes de uma geração é, certamente, seu modelo mental. Esse modelo nada mais é do que a maneira de agir, pensar e de ver o mundo e as coisas, construído a partir dos usos e costumes da sociedade vigente. Nesses usos e costumes estão incluídos momentos históricos e políticos, evolução tecnológica, comportamento da família e do entorno, opinião pública, moda, entre outros fatores que podem afetar a formação do nosso caráter e influenciar nosso comportamento.

Um exemplo simples: eu vivi o tempo da carta. Aos 15 anos, quando morei em Londres, por exemplo, eu me comunicava com minhas amigas no Brasil por meio de troca de cartas. Se eu perguntasse, em uma delas: “Como foi sua festa de 15 anos?”, ia ter que segurar a curiosidade e esperar “um pouco” pela resposta. A carta demorava cerca de quinze dias para chegar no Brasil. Se minha amiga fosse rápida e me escrevesse logo em seguida, a resposta levaria ainda mais quinze dias para chegar às minhas mãos. Assim, com sorte, em um mês, eu teria a resposta na minha “caixa de entrada”…

Quando eu conto isso aos jovens da geração Y, sinto que eles ficam realmente passados. Para eles, é impensável se imaginar em um mundo desses, onde seria preciso esperar um mês para ter uma notícia que hoje se tem em questão de segundos… Assim, essa minha experiência – de ter vivido na época da carta e ainda ter “alcançando” a era do Twitter e do Whats App, ferramentas que eu uso e domino – me proporcionam um modelo mental único. Significa que ele é diferente do modelo mental do jovem – que nasceu com a tecnologia – mas também muito distinto do modelo mental dos mais velhos, que ficaram só na carta…

Engraçado que a moçada de hoje não sabe sequer o que é um papel de carta. Quando mostro, em palestras ou treinamentos, o papel de carta da minha época – aquele fininho, que a gente usava para pesar menos no correio via aérea, percebo que o jovem não tem registro do que seja aquilo. Eles geralmente demonstram a mesma reação de quando veem uma máquina de datilografia manual…

Trata-se de uma questão de referência. A rapidez do mundo atual nos faz ter interpretações diferentes de um mesmo termo. A partir do meu modelo mental, “rápido” é uma coisa completamente diferente para mim e para um millenial. Assim como quando uso referenciais internos para dizer “longe” ou “perto”, a noção de rapidez passa pelo mesmo processo: nossa forma de ver o mundo e nosso modelo mental.

A noção de rapidez se modificou muito com a sociedade do hiperconsumo. Nos dias de hoje, o marketing agressivo do “carpe diem” pede que a gente se divirta agora, porque o amanhã não é controlável e pode nem existir. Ele nos impele a comprar já, porque amanhã o produto pode ter se esgotado. Essa sociedade da rapidez e do presentismo, que nos estimula para que o prazer seja imediato, também é a responsável por guardarmos cada vez menos dinheiro. Não é à toa que o nível de endividamento da população tem aumentado, na mesma medida em que o nível de poupança tem diminuído.

Nessa ânsia, do “faça hoje e faça rápido” os jovens entraram em um processo angustiante de querer estar em todos os lugares ao mesmo tempo. O Facebook, e as redes sociais, de forma geral, estimula este comportamento. Porque nesse universo, em que todo mundo compartilha diversão o tempo todo, o jovem sente a necessidade de estar presente em todas. Quer curtir tudo, quer comentar tudo, quer fazer parte. Quer ser feliz.

Você já deve ter presenciado a cena: um jovem, em uma festa, fazendo selfies, postando e comentando no Facebook, subindo fotos no Instagram, se exibindo, feliz, sem estar, necessariamente, “participando” do evento. Está apenas presente – e quer mostrar que está – mas não vive de verdade o momento. Mesmo assim, ele fica ali olhando as postagens da timeline, e tem a impressão que a grama do vizinho é sempre mais bonita, ou seja, tem sempre alguém curtindo mais do que ele em outro lugar, em outra balada.

Analisando tudo isso, é possível entender que o jovem muda de emprego quando se entedia. Ele imagina – pelo que vê todo dia na tela do seu smartphone – que os amigos estão se divertindo mais do que ele no trabalho. Então, ele muda nessa busca incessante do prazer instantâneo, e constante. É o mesmo tipo de comportamento que o leva a sair da festa e ir correndo para “aquela outra”, que parecia mais divertida…

Este ciclo é extremamente frustrante e angustiante. Viver nessa “vibe” pode causar depressão, porque não é fácil ter que escolher entre tantas opções para ter seu prazer instantâneo e, no fim, nem mesmo ter essa garantia. Mas isso é tema para outro post. Quem sabe no próximo?

*Reprodução do post e Eline Kullock publicado originalmente no Portal da Competência

 

Você ainda tem duvida sobre a qual geração pertence? Esta semana participei do programa “A Hora do Coaching”*, com Noscilene Santos, e expliquei a diferença entre elas. Com foco nos Millenials, comentei também sobre o desafio de gerenciar as novas gerações, a gamificação no mundo corporativo, o reverse mentoring da geração Y para com as mais velhas, entre outros temas relacionados. Para assistir o vídeo clique aqui.

O programa vai ao ar toda quarta-feira, às 09h00 pela Tv Geração Z

Muito se fala sobre a importância de fazer mentoring e coaching com a geração Y, porque é normal que esses jovens tenham muito a aprender. Mas é preciso assumir a existência do inverso: a geração Y tem muito a ensinar às anteriores. Ainda que esse movimento pareça estranho aos mais conservadores, ele tem nome e sobrenome: “reverse mentoring“.

O tema, inclusive, já é discutido fora do Brasil, como no artigo de Wendy Marcink Murphy “Reverse Mentoring at Work”. Até mesmo Jack Welch, quando era presidente da General Electric, em 1999, anteviu esta tendência e desenvolveu um programa no qual os mais jovens ensinavam os mais velhos.

Lendo isso, você pode estar se perguntando: o que podemos aprender com os mais novos, além da tecnologia que eles, sem dúvida, manejam com mais facilidade? Na minha opinião, eles podem nos ensinar sobre seu próprio universo, muitas vezes impenetrável para os mais velhos. Com eles, podemos desvendar, por exemplo, o modelo mental dessa geração, suas tendências de comportamento e de consumo, além das especificidades da sociedade, de forma geral. Além disso, eles podem também ensinar sobre a concorrência e contribuir muito nos mostrando sua visão de futuro.

Mas, se esse movimento “pegar”, nossos gestores estão preparados para aprender com os mais jovens? Eu acredito que não, e que isso é uma tarefa para a área de Recursos Humanos. O RH pode ajudar promovendo encontros com a geração Y, para mostrar que ela tem uma visão talvez mais adequada sobre o futuro, para explorar a mentalidade dos jovens ou memso para entender como observam o mundo e o comportamento das próximas gerações. Essa troca pode ser de grande valor para o mundo corporativo.

Outra vantagem a ser explorada: por conta do hábito de jogar videogame, a geração Y está mais acostumada a tomar decisões rapidamente. Em um mundo no qual a tomada de decisão é muito importante, no qual ser o primeiro na mente do consumidor é essencial (vide as experiências do Facebook, do Waze, dos aplicativos de táxi etc), os jovens têm muito a nos ensinar.

Considerando que estamos na era da “Sociedade da Tomada de Decisão”, eles certamente aprenderão melhor que os mais velhos a fazer escolhas cada vez mais complexas. Quando fiz 20 anos, pude comprar meu primeiro Fusca. Usado, claro, mas ainda assim, um Fusca. Não havia escolha. Quando queríamos assistir a um canal de TV, tínhamos quatro ou cinco opções, no máximo. Hoje, quando uma pessoa compra um carro, quantas opções têm? Se ela precisa de um telefone celular, entre quantos modelos pode eleger o seu? O mundo está muito mais rico nesse sentido. Assim, os nativos dessa sociedade do “muito” estão acostumados com a velocidade e as opções desse novo mundo, e podem ensinar bastante a quem viveu na época do “pouco”.

Para aproveitar ao máximo essa troca, que pode ser vantajosa para todos os lados, é preciso entender e incorporar a possibilidade do reverse mentoring. Estar aberto a essa nova possibilidade é o primeiro passo. Somente quando estivermos convencidos do valor dessa interação é que poderemos persuadir nossos superiores hierárquicos.

As empresas que embarcarem nessa jornada têm mais possibilidade de sucesso. Vão promover, além de tudo, uma relação saudável entre as gerações, permitindo um convívio mais harmônico, no qual todos saem ganhando.

(Reprodução do post de Eline Kullock publicado originalmente no site www.dtcom.com.br)

Desde a derrota do Brasil para a Alemanha na Copa do Mundo, não param de aparecer artigos sobre o comportamento individualista e midiático da seleção. Os movimentos dos jogadores foram altamente explorados pela mídia. Uma simples cueca aparecendo já levantava dúvidas: seria mais uma jogada de um patrocinador? Com a multiplicidade de mídias, há sempre uma brecha para faturar.

Por outro lado, nunca debatemos tanto uma Copa do Mundo. As mídias sociais – sempre elas – também foram responsáveis pela amplificação das discussões. Nessa era de “mídia absoluta”, cada jogada foi replicada infinitas vezes, sem qualquer controle. Tudo virou evento: uma foto ou post do Podolski, as atividades extra campo da equipe alemã, as jogadas polêmicas, enfim, o que aconteceu em campo e fora dele foi compartilhado à exaustão.

Não se sabe ao certo se o bom comportamento da equipe alemã, que deu o que falar, foi uma jogada de marketing, mas fica claro que o país soube usar essa superexposição. Desde o princípio, ficou claro que o produto era o time. Até a vitória sobre o país hospede foi tratada com a piedade que jogaria a favor dos alemães. Já a estratégia da a equipe brasileira é mais transparente: foca claramente talentos individuais em detrimento do grupo. Agindo assim, a seleção está seguindo o seu próprio caminho ou ditando as regras do mundo cada vez mais “selfie” no qual vivemos?

Antes de mais nada, é preciso esclarecer que, segundo os psicanalistas, o comportamento individual não é um pecado. A ginga e o drible dos brasileiros, que nos fizeram conhecidos mundo, é prova disso e está no nosso DNA. Por outro lado, os nossos jogadores não a incorporam no jogo coletivo e preferem “jogar sozinhos”, se transformando em um reflexo da nossa própria sociedade. Sim, porque somos hiperconsumista, egoístas, valorizamos o carpe diem e não nos estimulamos a interagir em grupo. Ao contrário, somos levados a nos diferenciar do outro por meio da competição, do individualismo, da originalidade e do consumismo exacerbado.

Somos a sociedade do jeitinho, da lei de Gerson (para os nascidos depois dele, Gerson era um jogador de futebol da nossa seleção!) , da cultura do “ se dar bem”, do “levar vantagem”, pensando única e exclusivamente em si próprio. Se você tem mais de 40 anos, pode se lembrar dessa propaganda de 1976. Se você é da geração Y, não deve saber quem foi Gerson, ou que ele protagonizou a cultura do individualismo.

Então, será que a nossa seleção não está simplesmente reproduzindo o jogo social, não voltado para o bem comum, mas sim para tirar proveito próprio e faturar mais? E os famosos “15 minutos de fama”, são individuais ou coletivos? E a propaganda política no Brasil: valoriza o partido ou a imagem do candidato?  O individualismo está em valor, é obvio; no Brasil o jogo é assim.

Talvez por isso não me choque tanto o comportamento dos jogadores da seleção. Acredito que eles são nada mais do que membros dessa tribo chamada Brasil, que publica suas fotos para serem vistas e curtidas (não há a menor graça se ninguém curte). Dizemos que não nos importamos com a opinião dos outros, mas na realidade não vivemos sem ela, e o sucesso das redes sociais está aí para provar isso.

A seleção é feita de heróis e não cabe a eles questionar o sistema. Essa reflexão é nossa, que não jogamos futebol para ganhar a vida. Por que outros países fazem mais ações sociais que o Brasil? A Alemanha veio aqui, se reuniu com a tribo dos Pataxós e conseguiu que os índios fizessem uma pajelança por eles meia hora antes do jogo. Depois, comemoraram em campo com o tal ritual. Que integração!

Os alemães, aliás, mexeram de muitas formas com o brasileiro. E nos ensinaram muito, em especial deixando-nos a possibilidade de questionar a sociedade do selfie. Então, porque não aproveitar o momento para discutir se a Geração Y está agindo de maneira egoísta ou se está sendo estimulada a atuar assim? Se for estímulo, se a culpa for da sociedade, a seleção selfie nada mais é do que o retrato do Brasil. Só discutindo isso a fundo faremos a diferença para voltar a ganhar de novo em todos os campos, e não somente os das Copas…

Foi sancionada na semana passada a “Lei Menino Bernardo”, que  proíbe o uso de castigos físicos e de tratamento cruel ou degradante como formas de correção, disciplina e educação de crianças e adolescentes. Conhecida também como “Lei da Palmada”, ela determina que pais, demais integrantes da família, responsáveis e agentes públicos executores de medidas socioeducativas que descumprirem a norma vão receber encaminhamento para um programa oficial ou comunitário de proteção à família, tratamento psicológico ou psiquiátrico e advertência.

Acho importante esclarecer, em primeiro lugar, que a lei não tem por objetivo tirar a autoridade dos pais. Estamos vivendo uma época de revisão de valores, na qual muito ja se falou sobre as consequências da baixa autoestima na vida de uma criança. Sabemos que seu equilíbrio emocional ficará seriamente comprometido, acarretando provavelmente depressão, ansiedade, busca constante de aprovação, medo, sentimento de inferioridade e outras dificuldades na vida adulta.

Da mesma maneira, expor uma criança à humilhação ou a castigos emocionais pode produzir danos tão ou mais importantes (a ridicularização, inclusive). Então, acho importante frisar que uma lei dessa não tem nada a ver com autoridade parental: uma criança precisa e precisará sempre de limites. Ela precisa desesperadamente saber que não lhe é permitido fazer qualquer coisa, com referências claras mundo externo – isso é permitido mas, aquilo, não é. A criança com limites se sente, inclusive, mais amada e mais segura, dizem os especialistas. Isso ja é motivo suficiente para nos darmos conta que precisamos dar normas claras aos nossos filhos. Mas ha uma maneira de fazê-lo. Dizer “é hora de ir pro banho” ou “você precisa recolher seus brinquedos depois de usar” é mais claro do que dizer: “comporte-se!”, por exemplo. As crianças têm mais dificuldades de entender conceitos abstratos.

Muitos pais, no entanto, querem ser modelo e se comportam como amigos de seus filhos, evitando chamar a atenção ou negar-lhes algum pedido. Por conta do cotidiano corrido que nos rouba parte da convivência com nossos filhos,  tentamos proporcionar a eles um convívio agradável, embora curto. E, cá entre nós: preferimos os bons momentos porque ficar dando bronca é muito chato.

Eu digo que fui da última geração na qual lutávamos pelo amor de nossos pais. Era uma época em que eles tinham vários filhos (o que é raro, hoje, quando as familias têm, em média, dois filhos) e brigávamos com nossos irmãos disputando a atenção e o carinho dos pais. Hoje, parece as coisas se inverteram e somos nos, pais e mães, que lutamos pelo amor de nossos filhos. Temos aquela sensação de que se não fizermos tudo o que eles querem, se não comprarmos tudo o que eles pedem, eles não nos amarão.

No fundo, sabemos: nossos filhos vão nos respeitar mais e se transformarão em adultos mais equilibrados se dermos orientações claras e se impusermos os limites adequados a eles. Conheço vários adolescentes que dizem que gostariam que seus pais o tivessem feito com mais firmeza no momento devido, ou seja, sua infância. Quando adultos, terão uma melhor noção de como se comportar no mundo cotidiano, se tiverem anteriormente uma experiência saudável com limites. O mundo externo será claramente um ambiente no qual ele vai precisar controlar suas emoções, não poderá fazer o que quiser e terá suas expectativas frustradas. Cabe a nós, como primeira referência dos nossos filhos, demarcar fronteiras claras e lógicas. Só sair gritando ou batendo não ajuda a criança entender porque está agindo errado.

Mas eu acredito que só sancionar a lei proibindo bater nas crianças também não é suficiente para explicar aos pais, educadores e todos os cuidadores de crianças, que o limite continua sendo função parental, e que não é possível transferir esse trabalho para a escola ou empregados. A sociedade também precisam entender que a aplicação de castigos e humilhações não darão aos nossos filhos a noção de limite, funcionando, em alguns casos, como potencializadores das suas dificuldades. Precisamos todos de orientação no processo de educar crianças para se tornarem adultos maduros e integrados em uma sociedade.

Se tomarmos o caminho inverso – e, muitas vezes, mais fácil – as crianças crescerão sem saber as normas vigentes e podem desperdiçar talentos fantásticos por inadequação ao comportamento  exigido dentro de cada contexto. Nós, que ja estamos crescidos, sabemos a importancia disso: não se adequar a certas regras sociais é algo passível de punição, com vexame muito maior e consequências muito mais graves do que uma bronca ou bom “não” na hora certa.

 

Nesta Copa do Mundo, as seleções da Holanda e da Alemanha – que golearam em suas primeiras partidas – têm mais em comum do que simplesmente o bom desempenho da primeira fase: a presença de esposas e namoradas na concentração. Coincidência ou não, a gestão menos rígida das duas equipes se reverteu em gols. Foi assim que entrou em campo, junto com o Mundial, a discussão sobre os benefícios da flexibilidade.

Assim como os bons técnicos de futebol, abrir mão de certas regras é cada vez mais necessário nas organizações. Argumentos para reforçar essa tese não faltam, mas vou frisar um relevante: a falta de tempo nas grandes cidades. O tema não sai nunca da lista dos problemas porque com o trânsito caótico, os funcionários perdem cada vez mais tempo se deslocando. Nesses casos, soluções de home office, por exemplo, caem muito bem. Por um lado porque acabam com o problema em si e, por outro, eliminam custos desnecessários para a empresa (aluguel de espaço, por exemplo). Sem contar a questão da qualidade de vida, que é quem a grande ganhadora da história.

Em se tratando uma competição tão acirrada e mundialmente vista como a Copa, os dirigentes certamente entenderam que ter a família por perto funciona, para os atletas, como um agente de descompressão. Da mesma forma, as organizações vivem momentos estressantes, já que são obrigadas a dar resultados cada vez melhores aos seus acionistas. Assim como a grande sacada dos dois técnicos, eu diria que a nossa, enquanto empresa, é percebermos que a cultura é evolutiva, e não estática. E se ela muda, as regras devem mudar junto.

O caso do home office, por exemplo, já é uma realidade, porque é possível fazer reuniões não presenciais com muita facilidade. À distância também é possível gerenciar uma equipe em todas as suas necessidades (motivação, integração, identificação de lideranças, coaching, treinamentos, avaliação de performance…) Nessa lógica, pode soar completamente normal ter funcionários dispostos para uma reunião à noite ou para fazer uma conferência com outro país em horários específicos para atender as necessidades de fuso horário. Em contrapartida, eles podem ter o direito de estar mais livres durante alguns dias da semana, atender a compromissos pessoais durante o horário de expediente, entre outras facilidades. A legislação trabalhista brasileira ainda terá que se ajustar à essa nova realidade, claro, mas vejo isso como uma questão de tempo.

Outra questão gritante de flexibilidade para as empresas no Brasil é a roupa de trabalho. A forma de se vestir é cultural e, portanto, também evolui. Especialmente em lugares quentes, a dupla terno/gravata está cada vez menos adequada. Por outro lado, permitir trajes mais “fun” em dias especiais (camisetas da seleção em dias de jogo do Brasil, roupas mais descontraídas em ocasiões de festas, etc) dá mais vida ao ambiente e às pessoas. Essa demanda, moderna, fica mais clara com  a chegada na geração Y nas empresas, cuja performance está muito ligada ao prazer e à diversão.

Por meio dessa rápida análise, percebemos que a flexibilidade anda de mãos dadas com o bom senso: a sociedade precisa estar atenta às demandas das pessoas das quais depende. Ela precisa se antecipar, exercitando o processo de “escuta”, compreendendo as necessidades de seus profissionais e analisando quais vão realmente impactar na motivação da equipe, no produto ou serviço final oferecido ao cliente, além de custos extras no orçamento.

Da mesma forma que os técnicos de futebol não querem mexer em time que está ganhando, é normal que as empresas tenham receio de mudar regras do jogo quando estão por cima. Contudo, acabam não percebendo as mudanças rápidas do mercado, da cultura e acreditam que, se obtiveram sucesso no passado, obterão também no futuro. Mas a realidade é que nunca o mercado mudou tão rapidamente. Não há campeões por decreto e a seleção espanhola está aí para provar essa máxima…

Temos visto produtos antes considerados essenciais sumirem do mercado de forma repentina, afetados pelo desenvolvimento de outros semelhantes e com mais funções. O fim do ciclo de vida da máquina fotográfica, do fax, do scanner e da fita cassete são exemplo dessa evolução assustadoramente rápida das coisas. Por isso, acho que a expressão “em time que está ganhando não se mexe” caiu completamente em desuso. Sabemos que nenhum time é absoluto porque as competências da competição passada não são, necessariamente, as mesmas necessárias para ganhar o jogo agora.

O saldo positivo do jogo é que as empresas já perceberam esse movimento e vêm se reinventando todos os dias. Gosto de dar o exemplo do aplicativo Waze, que ganhou o mercado rapidamente porque foi o primeiro GPS a trabalhar com o processo colaborativo para detectar engarrafamentos e sugerir outros caminhos alternativos. Antes dele, os GPS nos davam uma rota estática.Com esse modo de funcionamento, o Waze ganhou rapidamente um número imenso de adeptos. Além disso, quanto mais pessoas usam o aplicativo, mais difícil será a entrada no mercado de concorrentes.

O sucesso desse aplicativo é um índice a ser considerado, analisado e copiado. As organizações precisam escutar os desejos do mercado e implementar produtos e serviços adequados, se quiserem sobreviver. Mas só conseguirão fazer isso se mantiverem um quadro de funcionários motivado, alerta, antenado, disposto a investir tempo e esforço no crescimento da organização. O caminho para isso, você já conhece. Senão, basta voltar para o primeiro parágrafo.

Quem acompanha a cobertura da Copa do Mundo deve ter visto uma discussão entre pai e filho que está causando polêmica.

Flagrado por câmeras de emissoras de TV, um pai tenta impedir seu filho de protestar, por medo dele se dar mal, de se machucar, ou seja, com a intenção de protegê-lo, da mesma forma que a maioria de nós agiria em relação aos filhos.

Pois bem. No meio da confusão, ele explica ao filho: “Você vai ter seus direitos quando trabalhar! Eu pago a sua escola!”. Em coro, os outros manifestantes pedem: “Deixa ele.”

As opiniões contra e a favor de ambos se dividiram nos comentários na internet. Embora o real problema seja só dos dois, o caso serve para discutirmos uma questão atual, que toca o abismo de comunicação que se criou entre as gerações: qual é melhor forma de falar com seu filho e de orientá-lo?

Essa dúvida é certamente mais pertinente porque estamos vivendo, segundo Bauman, em uma sociedade líquida. Para ele, nos dias de hoje, nada é feito para durar, as relações são efêmeras, tudo muda rapidamente e o futuro é incerto. Então, nesse cenário, como saber o quê, de fato, é correto e o que não é? E o que parece correto hoje, não pode deixar de ser amanhã? Como desempenhar nosso papel de pais – historicamente inspiradores, educadores e transmissores de valores – em um mundo que já não é conduzido pelas regras e valores da geração dos Baby Boomers e que está em constante transformação?

Nenhuma outra sociedade jamais possibilitou que o indivíduo exercesse uma autonomia e liberdade individual tão grandes, diz Gilles Lipovetsky. Qualquer um pode dizer o que pensa em uma mídia diferente, como o Twitter, o Youtube, o Facebook e outras tantas.  Vivemos na civilização do espetáculo, como diz Vargas Llosa, na qual a informação está cada vez mais conectada à imagem e a autoridade não tem mais relação com a legitimidade.

Isto posto, é melhor cair na real: não dá mais pra mandar seu filho calar a boca. Nós já os criamos de forma diferente da qual fomos criados, em uma sociedade moderna que promove e estimula os pensamentos individuais, divergentes e contestadores. Mas, se a autoridade paterna (e materna) não tem mais o peso que tinha, como orientar nossos filhos para causas nas quais acreditamos?

Acredito que a primeira coisa a ser feita é dialogar muito, e não somente na hora da crise, no meio da rua e durante a “manifestação”. Provavelmente aquele rapaz, que teve sua liberdade questionada pelo pai, demorará muito a perdoá-lo por tê-lo privado de sua autonomia na hora de contestar e por tê-lo exposto daquela maneira.

Se queremos ter credibilidade junto aos nossos filhos, não podemos mais somente impor nossa vontade, como tiranos. Temos que conversar muito, expor nossos pontos de vista, contar sobre as nossas histórias, mostrar-lhes raízes. Aliás, tem uma frase de Hodding Carter, da qual eu gosto muito, que diz: “Os melhores presentes que podemos dar aos filhos são raízes e asas”. Pode parecer contraditório, mas precisamos dar a eles o senso de pertencer a uma família, origens, valores, mas também asas para que voem (leia-se: educação, capacidade de análise crítica, garra, ousadia, tenacidade, otimismo, amor…)

Não será no calor da batalha que essa transmissão se dará. Muito menos no meio da rua com as câmeras ligadas e a bola rolando. Trata-se de um trabalho cotidiano, de discussão e de troca, cansativo mas prazeroso, desgastante mas gostoso. Também provocativo e enriquecedor. Não dá pra ser pai (e mãe) só na hora do aperto. Essa construção precisa ter fundações sólidas.

Depois disso, é deixá-los voar. Ter a sua própria alta autoestima, batalhar no mundo, se inserir nas causas nas quais acreditam, escolher sua carreira e seu futuro, suas companhias e parcerias.

Nosso papel (e dever) é estimulá-los a seguir em frente, mantendo o hábito de questionar com eles se suas escolhas são as mais adequadas, se entendem as consequências de suas decisões. Podemos, ao invés de somente impor e mandar, ajudá-los na reflexão das consequências de certo comportamentos.

Mas, é preciso ir com cuidado, afinal, não somos psicólogos dos nossos filhos. Podemos ajudá-los até certo ponto, e ajudá-los a questionar sempre. Mas já passou a época em que podíamos simplesmente impedir por decreto que eles se expressassem. A sociedade não aceita mais isso, e nossos filhos também não. Não há um manual que nos ensine a ser pai e mãe em tempos turbulentos. Mas a possibilidade do diálogo sempre existiu e, hoje, mais do que nunca, é a melhor via. Aliás, eu diria que é uma via de mão dupla: democrática e essencial, pela qual podemos transitar de mãos dadas com nossos filhos.

No meu último post, falei sobre as consequências da nossa mudança de comportamento nessa sociedade hipermoderna, da qual o jovem da geração Y/Gamer é o ator principal. Suas principais características são a cultura do excesso e da busca compulsiva pelo prazer, que acabam provocando sentimentos de insegurança, angústia e medo.

Se você faz parte dessas gerações, pode ter se perguntado: mas em que a hipermodernidade se diferencia de outras épocas? Segundo o filósofo francês Lipovietsky, pai do termo, na modernidade a sociedade se caracterizava por um controle sobre seus cidadãos, com sanções e normas sociais a serem observadas, estabelecendo assim um padrão de comportamento para ajustar a capacidade produtiva da sociedade.

Esse padrão era ditado pela autoridade parental, pela a igreja, pelos superiores hierárquicos, pelo poder público e pelo Estado. E, claro, pela própria sociedade, que era muito mais conservadora do que hoje. Pelo menos, aparentemente. Tudo isso se perdeu nos dias de hoje e a prova é que você não acha mais que seu chefe ou professor sabem mais do que você em questões de tecnologia e nem vai buscar conselho com um líder religioso quando precisa tomar uma decisão, certo?

Pouco a pouco, a cultura foi se modificando, aceitando e valorizando o novo, a afirmação de cada pessoa como sendo única e especial, com seus desejos e necessidades. Falamos da pós-modernidade, na qual o valor básico era, portanto, o hedonismo, o consumo massivo, a exacerbação do “eu” em detrimento do que é de interesse comunitário.

Começamos a criar a personalização da vida, o estabelecimento de uma sociedade mais individualista, com total possibilidade de expressão. Investimos em uma dinâmica que nos incitava a criar a necessidade de consumo imediato, reforçando para isso o amor-próprio e criando necessidades de posse e prestígio.

Com a necessidade de crescimento da sociedade do consumo, ampliou-se o universo para as classes mais pobres, e todos os valores que esta inserção abrange: somos todos iguais, todos podem agir como quiserem, não há mais normas sociais e as grandes estruturas sociais perdem significativamente sua autoridade.

Foi também na pós-modernidade, com o surgimento de métodos comerciais do capitalismo moderno (marketing de massa das grandes redes comerciais) que a sociedade inteira se voltou para viver mais o presente. Passamos a valorizar o fútil e o frívolo, sem preocupações com a culpa, o ambiente social, num movimento de alienação: o que importa sou eu e o meu prazer. Entramos na esfera da cultura narcisista, sem normas impostas, e com uma tremenda perda das ideologias de forma geral.

Depois de passar por tudo isso, evoluímos para a época atual – a hipermodernidade – sobre a qual falei no post anterior. Independente de qual geração seja a sua, acho que essa teoria ajuda a entender o conflito entre as pessoas que nasceram em épocas diferentes e hoje têm de conviver no universo profissional ou pessoal. Ela foram moldadas por valores diferentes e por isso suas relações tendem a ser conflituosas. “No meu tempo, não era assim…” é uma frase que indica claramente a diferença de valores e o choque com o comportamento do outro.

E útil ter em mente que nossos modelos mentais foram influenciados pelos valores mais fortes que nos foram transmitidos durante a formação de nosso caráter, em especial na infância e adolescência.  Talvez essa reflexão nos ajude a ser mais tolerantes com as diferentes maneiras de ver o mundo, que tanto causa problemas de relacionamento entre Y, Baby Boomers e X. E, claro, nos dê pistas de como aproveitar o melhor de cada geração, aquilo que deveria ser transmitido sempre e não se perder com o tempo.

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