Feed on
Posts
Comments

De quando em quando, o mercado publicitário lança um comercial que “pega” e fica na cabeça das pessoas. Hoje em dia, a mensagem que “pega” fica circulando na internet, em um movimento que chamamos de “viralizar”.  Mais do que uma invenção da publicidade, acho que esse tipo de propaganda é uma grande sacada dos profissionais da área. Eles aproveitam, com inteligência, um sentimento social e o transformam, com bastante criatividade, em algo tangível e marcante. Pode ser engraçado ou sensível, pouco importa. Foi assim com o “Não basta ser pai, tem que participar”, lançado pela Gelol, 1984. Na época, a marca conseguiu exprimir um desejo social da maior participação do pai na educação dos filhos. E usamos o bordão até hoje! Até a geraçõe Y usa a frase, sem sequer conhecer a propaganda!

Nessa mesma linha, há um exemplo recente, de um novo momento social que a mídia conseguiu captar: o movimento  do “desapega”. Ele coincide com o advento de sites de compra e venda de usados que se espalham pelo Brasil, reproduzindo algo que já existe há muito tempo na Europa. Esses sites surgem em um momento no qual o conceito de desapego vale para tudo e para todos, tanto nas relações afetivas como no plano material. A mídia até brinca com isso, como vemos nessa outra propaganda da mesma empresa.

Há uma metamorfose da cultura, que expressa um sentimento social vigente: nos tornamos uma sociedade desapegada. No Aurélio (sim, o dicionário), “desapegado” significa “desunido, desafeiçoado”, e o desapego é sinônimo de falta de afeição e de amor, Desapego é indiferença.

Hoje funciona assim: tem alguma frustração com uma pessoa? Descarte-a da sua vida, delete do Facebook, pare de seguir no Twitter, mande os emails dela automaticamente para a lixeira, não atenda suas ligações. Alguma coisa ficou velha? Venda, troque ou substitua rápido, porque isso é possível e é absolutamente normal. Resumindo: desapegue. Essa palavra de ordem nos incita a vender, dar, trocar, doar, esquecer sem vínculos ou remorsos. Simples assim.

Temos nos transformado numa  sociedade materialista, que espera que troquemos tudo por algo mais recente. O passo seguinte é poder contar isso para o  mundo via Facebook, Twitter, Instagram, espalhando a boa-nova para 1 bilhão de pessoas… A pegada é mostrar que você tem o último modelo, com mais funções, ou que você esteve na balada mais desejada, ou que você “se renovou” e agora está num “novo” relacionamento sério.

Essa sociedade do “carpe diem” (aproveite o dia, em latim) não tolera frustrações ou aborrecimentos. O trabalho está chato? Troque por outro! Aquela pessoa fala ou escreve demais? Bloqueie-a nas redes sociais e problema resolvido! A criança se frustrou com a espera no restaurante ou na fila do supermercado? Dê o smartphone pra que ela não fique entediada e, como consequência, não teremos “escândalos”.

A mesma sociedade que nos incita a sermos intolerantes e, ao mesmo tempo, hiperconectados, é também a que valoriza quem primeiro exercitar este conceito e se desvincular do que pode ser “excesso”. Mas os dois conceitos, o da “sociedade do excesso” e da “sociedade do desapego”, são muito diferentes. A condenação do exagero pelos filósofos que denunciam a “sociedade do excesso” não inclui descartar, rejeitar, livrar-se das pessoas ou objetos com os quais criamos uma relação de afeto.

Assim, vamos nos perdendo nas metamorfoses da cultura, sem perceber suas nuances e sem questioná-las porque, afinal, “pensar” implica um consumo de energia  e requer tempo. Nos esquecemos, porém, que é só por meio da reflexão e do afeto que podemos nos expandir como pessoas, sair da roda viva do cotidiano, questionar o “status quo” e aprender para assim crescer pessoal e profissionalmente. Com a exigência da rapidez preconizada na cultura pós-moderna, acabamos eliminando o exercício do pensamento crítico, que leva ao autoconhecimento e ao aprendizado. A mensagem é clara: a sociedade nos diz que não precisamos passar por momentos de pressão, de chateação, de fastio, de espera: a felicidade e o prazer podem ser agora, com a renovação e com a posse. Sem as ponderações adequadas, vamos nos tornando mais superficiais.

Esse movimento é muito bonito na teoria, mas o problema é que, na prática, a vida não é feita de felicidade constante. Não é possível viver e se construir sem decepções, fracassos, frustrações, esforços, esperas, e outros momentos que remetem a sentimentos negativos. A receita da vida tem como ingredientes muita garra e perseverança e, sem isso, seremos cada dia mais voláteis e vazios.

Penso que nossa tarefa– pais, jovens, psicólogos, escola, organizações, cidadãos pensantes – é refletir sobre como esse movimento vai impactar a vida adulta das gerações que já nasceram em um mundo completamente moldado pelo desapego. Creio que a Geração Y e as gerações vindouras terão mais dificuldades em estabelecer relações afetivas  mais profundas e pensamento de longo prazo. Terão mais dificuldade em refletir e em agir fora da ordem consumista do mercado do desapego. Provavelmente, se sentirão menos autores da própria vida.

 “We shape our buildings, and afterwards, our buildings shape us.” (Winston Churchill)

 

“Nós construímos (damos forma) nossos prédios e, depois, eles nos constroem (nos moldam). A frase, proferida pelo político e estadista inglês Winston Churchill, em um discurso em 1944, parece antiga e ultrapassada, mas pode ser perfeitamente adaptada para os dias atuais. Hoje, as construções que nos influenciam não são mais físicas, de concreto. Agora, é nossa arquitetura virtual que nos molda e nos induz a novos tipos de comportamento. São essas as que vão nos “construir”, daqui em diante.

Edificamos novas formas de acessar coisas e pessoas, lugares e possibilidades. Erguemos redes de comunicação eficazes, rápidas e inteligentes e assim, estamos construindo nosso presente e nosso futuro. É essa a ideia de Nicholas Carr no livro “O que a Internet está fazendo com as nossas mentes”, reforçada por Sherry Turkle em “Alone Together”. Para eles, é preciso assumir que o modelo mental da geração que nasceu após o surgimento dessa nova tecnologia, como a conhecemos hoje, trará consequências na maneira como essas pessoas pensam e agem. E a discussão não esta centrada em se esse novo modelo mental é melhor ou pior do que modelos anteriores, mas sim no fato de que estão em processo de mudança e evolução.

O fato de estarmos tão dependentes de nossos smartphones, a ponto de quase entrarmos em crise de abstinência ao passar algum tempo sem checar mensagens, acessar e-mails, redes sociais ou fotografar enlouquecidamente, é um sintoma dessa mudança de comportamento. Alias, é um sintoma coletivo, quase uma histeria porque não é raro perceber que, muitas vezes, as pessoas se privam de viver o momento real em função do virtual. Esse novo tipo de relação estabelecida por nós tem uma interferência direta no modelo mental que construímos.

Nesse sentido, me inquietam os impactos e possíveis desdobramentos desse novo modelo no comportamento da Geração Y e das que virão depois (a geração Gamers, como eu os chamo). Minha geração aprendeu que é importante ter momentos de reflexão, a sós, equilibrados com as experiências em grupo: em família, na escola ou com os amigos. A convivência com outras pessoas sempre foi importante, mas um trabalho profundo de reflexão, emocionalmente esgotante mas produtivo, requer a habilidade de ficar sozinho, sem qualquer outro estímulo aos quais estamos hoje acostumados (um livro, no máximo!).

Mas parece, inclusive, que a questão da experiência de “estar sozinho” é mal compreendida nos dias de hoje. Rapidamente a comparamos à sensação de “ser solitário”. Mas, se pensarmos bem, são coisas bem diferentes. Estar bem sozinho, acompanhado de si mesmo, feliz por ter um tempo que permite pensar, criar, ter ideias é algo absolutamente normal, saudável e necessário. O conceito de “solidão”, no qual nos sentimos excluídos dos acontecimentos, ou que os outros estão vivendo intensamente algo que não estamos é outra coisa.

As redes sociais procuram promover essa sensação de integração “full time”, mas acaba provocando ainda mais sentimentos de solidão. Ao saber, via Facebook, que houve uma festa da qual não participou ou um evento para o qual não foi convidado, o individuo pode ser inundado de um sentimento dolorido de solidão, que se instala com muita força. Afinal, uma das maiores dores é a dor da exclusão. Ela dói fisicamente, já nos disseram os neurocientistas.

Uma das promessas da internet é de que nunca estaremos sozinhos. Por mais paradoxal que pareça, ao estarmos plugados nas redes sociais, a rede nos confronta com a nossa própria solidão. Nossa tendência é, então, estarmos em mais lugares ao mesmo tempo, freneticamente compartilhando e curtindo tudo o que for possível. Compartilho, portanto, existo. Curto, portanto, sou percebido. Como tudo precisa ser feito rapidamente há menos conversas ao vivo, e consequentemente, menos espaços de reflexão.

A criança pequena se transforma no objeto com o qual ela brinca. São a textura, a força, a resistência dos materiais das brincadeiras de infância que vão forjando quem ela será. Ela é construção do que foi transmitido por seus pais. Se, no mundo atual, não há espaço para a pausa, como incutir a necessidade da pausa nos filhos? São também as pausas, e não somente as ações, que nos definem. Se vivemos em um ambiente sem hiatos, sem direito a reflexão, como saberemos quem somos? Como vamos crescer? Como reconheceremos as expressões faciais de nossos amigos, funcionários e chefes se só no relacionarmos com eles pela internet? Como saberemos o que pensam, se eles se esconderem, por medo de suas fragilidades, atrás dos textos e e-mails? Como lidaremos com o choro, a angústia, a depressão do outro, se não dermos espaço para reconhecermos estes sentimentos em nós mesmos?

Crianças aprendem a conversar a partir das conversas de seus pais, de sua família em convívio social. Se isso for desaparecendo, como vamos ensiná-las a se exprimirem? Não será, certamente, fazendo-as se distraírem com o celular ou o tablete ao menor indício de frustração. Não será nos filmes e videogames que eles encontrarão seu caminho.  Se vamos ficando mais intolerantes em relação a ouvir dos nossos amigos suas dificuldades, dúvidas e problemas, como estimular a capacidade de ter compaixão, empatia, pena?

Como vemos, muitos sentimentos e comportamentos estão em jogo. Já parou para pensar  nisso, assim, sozinho, sem o smartphone conectado, ali do lado? Você faz alguma pausa para pensar nesse frenesi da vida online? Carlos Drumond de Andrade sabia bem que a vida necessita de pausas, antes mesmo do ritmo frenético dos tempos de hoje.

“Eu, editado”

 

 

 

 

 

 

Você já deve ter percebido que os relacionamentos interpessoais deram uma guinada depois do advento dos aplicativos de comunicação existentes em nossos smarthphones e tabletes. As pessoas têm usado e abusado de programas como Whatsapp, talvez estimuladas pela seu custo zero.  Entretanto, a mudança vem de mais longe, porque antes disso já nos comunicávamos por e-mail, mensagem de texto (SMS) e chat. Enfim, parece que voltamos no tempo e passamos de “homo oratio” à “homo scriptum”, com perdão pela expressão inventada em latim.

Verdade seja dita: atualmente temos preferido digitar um texto do que falar ao telefone. Cada vez mais vemos pessoas usando aplicativos em detrimento do primitivo ato de falar para se comunicar. E justificamos, todos, em uníssono: “ah, é mais fácil digitar”… Será que é mesmo mais cômodo ficar curvado sobre o smartphone e ignorando o mundo ao nosso redor e todo seu caos? Algumas pessoas chegam a afirmar abertamente que, quando ligam para alguém, preferem deixar um recado na caixa de mensagens do que encontrar seu interlocutor disponível do outro lado da linha. O que isso significa?

No livro Alone Together, ainda sem tradução em português, Sherry Turkle faz uma análise interessante sobre o comportamento das pessoas no mundo guiado pela internet. Ele explica que, por andarem por aí com seus fones de ouvido, solitários em sua “bolha”, os jovens da geração Y têm dificuldade em interagir com o outro. Afinal, interagir significa mostrar suas vulnerabilidades e nisso a geração Y não quer nem ouvir falar…

Todos nós, independente da idade e da geração, temos um grande medo de que a exposição de nossa intimidade revele também nossos pontos fracos. Talvez por isso preferimos a aparente tranquilidade do “eu editado”.  O “eu editado” é uma expressão para definir aquele costume de – quando escrevemos em uma caixa de diálogos – por algum motivo reescrever antes de enviar. Essa prática tem se tornado comum e percebemos bem no Skype quando alguém faz isso, por exemplo. Há um vídeo que fala bem sobre a relação com esse nosso “Eu editado”. É um vídeo curto, de 17 minutos e muito atual, que explica didaticamente a maneira de se expressar dos jovens de hoje em dia.

Mas, porque esse comportamento? Estaríamos evitando o risco de não estarmos no controle das coisas? Ou será que, ao evitar falar ao vivo ou por telefone estamos evitando a complexidade das relações humanas, as possíveis frustrações das relações a dois, os chamados “riscos emocionais”? Quando passo uma mensagem, posso “editar” o que digo, “controlar” melhor meus sentimentos. As pessoas podem nos desapontar e este é o risco que corremos nas relações que estabelecemos. Se minha relação for com um robô, eu não terei frustrações?

Outro exemplo desse novo modelo de relação com nossas máquinas esta no filme “Her”, de Spyke Jonze. O personagem Theodore (Joaquin Phoenix) é um homem comum, recém- separado, que compra um sistema operacional e o configura de acordo com seus modelos. O sistema é inteligente, sexy, divertido, tem uma voz sensual e, por apresentar uma alternativa à solidão do mundo moderno, faz com que o protagonista apaixone por “ela”, batizada de Samantha. O filme tem uma excelente proposta e não se perde no enredo, ao contrário de outras boas idéias que já vimos. Como o personagem é um homem carente e solitário (nada diferente das pessoas reais da nossa sociedade), Theodore faz de Samantha sua parceira.

Tanto o filme “Her” quanto o livro de Sherry Turkle são duas obras modernas que abordam com maestria essa questão. Acho interessante a proposta dos dois autores porque nos fazem  abrir o debate sobre questões desse novo universo, ao qual pertencemos. Será que estamos nos tornando “solitários acompanhados”? Estamos evitando viver o “risco” que as relações humanas implicam, nos abstendo da intimidade que a relação direta proporciona? Deixamos de lado a intensidade da relação a dois e a riqueza do imponderável, do imprevisível, do mágico e da alegria que ela proporcina, ainda que possa ser descontrolada e caótica? Será que as pessoas se dão conta da diferença brutal que há entre a cyberelação e a relação face a face? Estamos colocando menos emoção nas relações, ja que elas são majoritariamente virtuais? Seremos, daqui pra frente, “Nós, sempre editados”, para mostrarmos ao mundo apenas a nossa melhor face? Se respondermos sim a algumas das questões acima, deveríamos nos perguntar se não estaremos vivendo em uma triste era de cybersolidão.

 

Cecília Meireles, poetisa brasileira fantástica que morreu em 1964, deixou uma vasta obra de literatura infantil. Quem leu quando criança sabe do que estou falando. Quem não leu, deveria fazê-lo, porque os valores incutidos em suas poesias são próprios de quem retratava o universo infantil com conhecimento de causa: Cecília foi também professora.

Entre tantas poesias lindas da autora, há uma que gosto muito tanto pela simplicidade como pela maneira com que questiona profundamente a vida. Chama-se “Isto ou aquilo” e diz assim:

 

“Ou guardo o dinheiro e não compro o doce

ou compro o doce e gasto o dinheiro”

 

Essa poesia é uma grande sacada para ensinar às crianças que, na vida – inclusive na adulta – vivemos fazendo opções. Infelizmente, não podemos ter tudo ao mesmo tempo. Ela continua assim:

 

“Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares”

 

Escrito no mesmo ano de sua morte, o texto mostra o quanto Cecília Meireles estava preocupada com a educação das crianças. E tem mais:

 

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

 

Com versos tão certeiros assim, até parece que Cecília Meireles estava prevendo a “chegada” da geração Y e da geração gamers… Esses jovens, debutantes no mercado de trabalho, passaram muito tempo jogando videogames em smarthphones, tabletes e computadores, tomando decisões nos jogos os tempo todo. Eles sabem que é preciso escolher e representam bem esse próximo verso:

 

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…

e vivo escolhendo o dia inteiro!

 

É interessante observar que, por outro lado, na vida cotidiana desta geração, não há vontade explícita de fazer opções. Os jovens estão em uma balada, mas não deixam de investigar o que está acontecendo nas outras, onde estão seus amigos. A geração Y ou Gamer está na praia curtindo, mas fica pensando no videogame que está em casa. Muitas vezes até leva o jogo para se distrair na praia! Ao mesmo tempo em que estão na piscina, querem andar de bicicleta. Parece que estão em um desasossego sem fim…

 

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranqüilo.

 

Também, pudera. Existir em uma sociedade que privilegia o presentismo é um estimulo para viver intensamente o agora, em função de uma estratégia de marketing cuja palavra de ordem preferida é: “Consuma já!”. Muitas vezes sem perceber, somos motivados a comprar o carro do momento, usar o relógio que revela “quem somos” (!) (aliás, indústria deve estar com sérios problemas porque ha tempos os jovens não usam relógio!), vestindo a marca Z que nos deixa sensuais, comendo a comida orgânica que faz bem à saúde e viajando pelo mundo com um smartphone que nos ajudar com as traduções por meio de um aplicativo.

 

Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

 

É preciso dizer também que embora não pareça, essa turma – acostumada a tomar tantas decisões – está perturbada com todas as opções que tem.

Barry Schwartz, autor do livro “O Paradoxo da Escolha”, fala sobre como é angustiante o processo de tomada de decisão quando há muitas opções viáveis.  Queremos estar em todos os lugares ao mesmo tempo e aproveitar todas as opções, já que a sociedade do consumo sussurra: “ Faça agora, depois será tarde demais”.

O mundo de muitas opções, que nos obriga a tomar decisões, que por sua vez nos angustiam ao deixarmos pra trás as opções eliminadas, é um paradoxo do nosso tempo. Hoje, as regras sociais são mais flexíveis (nos possibilitam, por exemplo, não estar casado com a mesma pessoa a vida toda) e o mundo ficou “flat” e “pequeno” (permitindo o escolha em uma gama maior de marcas). E sim, se você chegou à essa conclusão, acertou: esse modelo mental é recente, típico desta nova geração.

Contudo, alguns valores permanecem vivos e atuais. A poesia de Cecília Meireles já nos ensinava, na década de 60, que não é possível a onipresença, a ubiquidade:

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.

 

Em um mundo de tantas opções, algumas são sempre altamente recomendadas. Se ainda não temos as respostas do futuro, podemos pelo menos nos valer das experiências do passado e nisso a literatura de Cecília Meirelles pode fazer bem e ensinar muito. Com sua poesia leve, ela pode ser um bom argumento para abrir a discussão sobre a implicação da tomada de decisões. Deixar de lado algumas alternativas que são, aparentemente interessantes, algo que faz parte das nossas vidas.  Entrar em uma empresa significa abrir mão de entrar em outra.  E assim por diante. A nossa era é extremamente atrativa, com muitos caminhos possíveis. Mas é também mais angustiante, como nos explica Barry Schartz. E Cecília Meireles, lá atrás, parece que já sabia disso.

 

 

Alguns jovens começaram, na semana passada, o movimento chamado “Bermuda Sim”, que pede que os patrões flexibilizem o traje de trabalho para que assim, a população do Rio de Janeiro possa usar bermuda no escritório.

Isso acontece quase ao mesmo tempo em que, no Rio de Janeiro, uma determinação do fórum permite que os homens não usem terno e gravata durante o período de verão (até março/2014), para quem vai a audiências de primeira instância. Já é um bom começo para melhorar os dias de calor das ultimas semanas.

Embora sejam movimentos sociais parecidos, acho que há uma diferença enorme entre o movimento Bermudas Sim e a decisão do fórum. Acho lícito o desejo dos jovens de mudança, acredito que os jovens tem a vitalidade necessária para realizar grandes transformações na sociedade, mas nem tudo que é demandado por eles é, necessariamente, uma boa idéia.

A cultura de uma sociedade não muda de uma hora para outra. É um processo longo, lento, permanente, evolutivo, como um grande navio faz para desviar-se de uma rota pré-definida. Virar o leme do navio é difícil e ele não se move na velocidade que gostaríamos.

A nossa sociedade pós moderna, classificada como líquida por Bauman http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/102755_VIVEMOS+TEMPOS+LIQUIDOS

nos mostra que nesses tempos em que tudo acontece muito rapidamente, a forma como uma pessoa se apresenta para nós está muito ligada a avaliação que fazemos dela. Imagine ir a um médico e encontrá-lo vestindo uma bermuda? Será que você terá a confiança de que este médico tem conhecimento, experiência e maturidade para lidar com a sua saúde? O mesmo conceito pode ser aplicado aos advogados, aos contadores, enfim, para uma gama enorme de profissionais com os quais lidamos no nosso cotidiano. Até acredito que em empresas de TI ou em agências de propaganda essa norma possa ser implementada sem maiores consequências, mas não se aplica a todas os serviços.

Sempre fez calor no Rio de Janeiro. Sempre se usou calças compridas. A evolução da sociedade em abolir o terno e gravata já é um bom avanço. Creio que em breve, as novas gerações vão olhar para os ternos e gravatas como olhamos para as roupas da corte imperial e se perguntarão como podíamos usar uma indumentária tão fora de propósito , inadequada para o nosso clima.

A sociedade faz evoluções melhor que revoluções. Sou a favor de incorporar o traje social ao invés do terno e gravata, porque para isso a sociedade está prontíssima. Por outro lado, aconselho a deixarmos bermudas para nossos momentos de lazer, que combinam bem com nossos chinelos e sandálias, ideais para enfrentar o calor do nosso país, especialmente em cidades praianas. Porque cada cidade também tem seus “códigos” e, num Brasil continental, há diferença em como as pessoas se vestem.

 

Sei que muito já foi dito e mostrado sobre os chamados “rolezinhos”, mas gostaria de contribuir para a discussão porque acredito que esse movimento tem muito a ver com o que pesquiso e discuto aqui no blog. Acho que toda essa polêmica em torno do tema foi criada justamente por conta do vácuo de compreensão existente entre as novas gerações e as anteriores. Reparem que até a imprensa demorou para entrevistar os jovens envolvidos! Até então tudo era apenas divagação e todo mundo parecia perdido. Ninguém entendia direito o que significava aquele tumulto.

Me perguntaram se essa nova moda, que vem dando o que falar, é coisa da geração Y, e por isso eu vim até aqui responder: é, sim. E também é uma coisa muito brasileira! Também falei sobre o tema na Radio Globo, entrevista que você confere clicando aqui. Mas, para entender de cara o que está por trás desse comportamento não precisa ir muito longe; basta lembrar que o homem é um ser social. Ele tem necessidade de interagir com outras pessoas e os rolezinhos proporcionam exatamente isso: sentimento de participar e pertencer.

Pode-se dizer que a composição da sociedade também contribuiu para que esse tipo de movimento surgisse. Com famílias cada vez menores (os pais de hoje têm menos filhos que nossos avós e bisavós), desagregadas (divórcios, mães solteiras) e com nova formação (casais homossexuais) o grupo social familiar diminuiu muito e perdeu sua onipresença.

Por outro lado, também não existem mais as praças onde as pessoas interagiam, nos velhos tempos, com homens caminhando em uma direção e mulheres na outra – o famoso footing. A Igreja também já não cria este ambiente agregador. Toda essa mudança estimulou os jovens a irem “procurar sua turma” em outro lugar.

Ao mesmo tempo, estamos na era da rapidez, da tecnologia e mídias sociais, como diz Clay Shirsky no livro “Lá vem todo mundo”. Este poder das multidões é coisa da nossa era. Todo homem é fruto da sua época e os jovens da geração Y não fogem à regra. Eles se conectam muito facilmente e organizam encontros num piscar de olhos.Estão aí todos os ingredientes que, misturados à rebeldia adolescente, são propícios para criação de movimentos como esse.

O problema com comportamentos de grupo é que eles são diferentes da soma de comportamentos individuais. Todo homem tem o que se chama “ neurônios-espelho”. São aqueles que fazem a gente bocejar quando vê alguém bocejar, sabe? Assim, as pessoas assumem comportamentos que inicialmente não seriam seus a partir da visão do comportamento dos outros, especialmente se estiverem em sintonia com eles. É o problema das torcidas de futebol: gente que afirma que nunca entraria em uma briga e de fato entra quando vê os outros brigarem. Para mim, esse é o grande risco do rolezinho.

Em sua essência, o movimento promove o encontro, mas em seu desdobramento – que foge ao controle do que foi planejado, há muita gente que se infiltra para se manifestar de formas menos, digamos, cívicas. Além do risco natural de grupos políticos ou anárquicos assumirem a autoria do movimento, que nasceu, de fato, de uma demanda por espaços de convívio e de encontro.

Não acho que os shoppings que cerceiam esses encontros estão criando um “apartheid” de classes. Qualquer movimento anárquico, no qual não se possa controlar os desmembramentos, deve ser motivo de preocupação.

Por outro lado, eu você e toda a sociedade temos tudo a ver com isso, ainda que não participemos de nenhum rolezinho. E nossa função, como sociedade, promover espaços públicos de convívio e de direcionamento da energia criativa dos nossos jovens: eventos de esportes, música, discussões (fóruns) sobre os nossos problemas ambientais, sociais e outras causas.

Os jovens de hoje querem ser ouvidos, querem participar, tem voz e poder de mobilização. Então cabe a nós ajudá-los, criando os processos e locais adequados para que esta participação seja efetiva e enriquecedora. Afinal, eles tem muita força, como se viu na TV e nos jornais… É nosso papel ajudar para que eles se sintam orgulhosos de participar, de contribuir, de aprender. Esse é o papel de uma sociedade construtiva.


Sunami Chun (Foto: Arquivo Pessoal)

Sunami Chun, diretor-executivo da Aennova – empresa de soluções de aprendizado baseadas em jogos – aceitou compartilhar com os leitores do blog « Foco em Gerações » um pouco da sua experiência com a gamificação no ambiente corporativo e na educação. Confira aqui um resumo do nosso bate-papo.

Vamos começar com um desafio para você: defina para os leitores do nosso blog o que é a gamificação em uma frase.

Gamificação é o uso da mecânica de jogos (story telling, ranking, premiação etc) em processos de qualquer universo (empresas, escolas, marketing, saúde…).

No Brasil o termo é uma novidade, mas e no resto do mundo, é diferente ?

Não é diferente. O termo é pouco conhecido e pouco aplicado também. Os asiáticos, por exemplo, cultivam uma postura mais « séria », baseada na meritocracia e tem um pouco de resistência a gamificar processos. Podemos dizer o mesmo dos alemães.  No Brasil, o conceito vai pegar mais facilmente por que, ao contrário dos asiáticos e dos europeus,  somos mais lúdicos, e nossa educação é mais construtivista que a deles. E isso faz toda a diferença.

Que áreas estão gamificando mais e porquê?

Acredito que empresas e escolas, porque a quantidade de informações recebidas nesses dois universos é enorme – dobram a cada dois anos, então filtrá-la e absorvê-la está cada dia mais difícil. Talvez os formatos tradicionais não dêem conta de fazer a transmissão de conteúdos necessários e por isso a gamificação poderá ocupar um lugar importante, já que traz com ela uma nova estratégia: ela torna o aprendizado uma coisa divertida.

É facil gamificar ?

Não. O maior tabu da gamificação é pensar que apenas o fato de inserir uma mecânica de jogo em um processo é o suficiente para ter um resultado incrível.  É preciso investigar os bastidores do processo e de quem vai participar dele. No caso da empresa, é preciso ter claras as regras do negócio para entender onde e como o jogo pode ajudar. No campo das pessoas, é imprescindível estudar suas motivações. Quando não há esse mapeamento, dá errado.

Você poderia citar exemplos de casos que deram certo e errado?

Um exemplo de sucesso que todo mundo conhece é o sistema de milhagem das companhias aéreas. As empresas queriam fidelidade, então investiram na relação com o cliente, incentivando-o a viajar mais para ganhar pontos que se transformam em viagens. Um exemplo de fracasso é um jogo que foi desenvolvido para um público fumante e que exigia a utilização das duas mãos para ser jogado. Por falta de conhecer os hábitos do jogador, o jogo não pegou.

O que os jogos podem trazer como benefício para quem participa ?

Está provado que a autoconfiança adquirida durante  jogo permanece no espírito do jogador nos momentos que sucedem a prática. A pessoa fica “impregnada” daquela sensação de orgulho de si mesma (quando ganha, em especial) e pode se aproveitar disso para realizar coisas positivas. Outro efeito relevante é a resistência à frustração desenvolvida de tanto ganhar, perder, recomeçar para bater recordes e subir de níveis.

Você poderia citar cases de sucesso de gamificação no ambiente escolar?

Em Nova Iorque, uma escola envia SMS todas as manhãs com informações importantes para as aulas daquele dia. Em uma outra, a escola desenvolveu um site no qual o aluno ganha pontos quando realiza determinadas tarefas.

Qual o perfil das empresas que gamificam ?

São essencialmente as pessoas mais jovens que compram a ideia. Para eles, o ritmo com o qual a empresa realiza as coisas é lento e chato. São os jovens da geração Y, que cresceram com os games e entendem sua lógica e utilidade que o levam para o ambiente de trabalho. Eles acreditam que tornar esse universo mais divertido pode gerar benefícios para todos, desde melhorar o clima interno até aumentar o faturamento da empresa.

A gamificação pode funcionar em qualquer empresa ?          

Acho que depende muito dessa abertura, da qual falamos antes, e da cultura da empresa. Gamificar é tornar um ambiente ou tarefa mais divertidos, então é preciso que a organização tenha esse estado de espírito e, literalmente, entre no jogo.

Concedi uma entrevista sobre a geração gamer para a revista Você S/A e o resultado você confere logo abaixo.

_____________________________________________________________________________________________________

O conflito geracional é umas das maiores dificuldades que os empregadores enfrentam na hora de liderar profissionais mais jovens. Muito se falou sobre a geração Y e os seus hábitos e expectativas, entretanto, um novo grupo etário está entrando no mercado de trabalho, os milênios, e pouco se sabe sobre eles. A Você S/A conversou com Eline Kullock, presidente do Grupo Foco, consultoria de RH, sobre como lidar com os jovens milênios.

VOCÊ S/A – O que é mais diferente do ponto de vista dos jovens e dos mais velhos?

Eline – O jeito como cada um vê o tempo. Eu explico: rápido, longe, perto, devagar são conceitos carregados de modelos mentais que cada um tem. Para mim, esse conceito de velocidade, é de uma época em que as mudanças são mais lentas.

Quando eu era jovem, também queria tudo mais depressa. Os jovens de hoje esperam isso também. Mas o rápido pra eles é ultrassônico para mim. Querem reconhecimento para ontem. Eles estão acostumados com um mundo de feedback imediato.

VOCÊ S/A – Como assim?

Eline - É uma geração que cresceu jogando videogame, certo? Quando você joga, recebe a resposta na hora: ou passou de fase ou fez algo errado. Os jovens esperam isso em todos os aspectos da vida. Na escola e na faculdade, eles ainda têm esse retorno, mas no trabalho não. Eles querem saber onde estão errando e para onde devem ir.

 

VOCÊ S/A – Como as empresas devem lidar com isso?

Eline – Elas precisam acelerar os processos dentro da organização, dar mais autonomia, claro, dentro de um ambiente controlado e investir na qualificação desse jovem. A empresa também precisa cuidar da própria imagem. Elas precisam atrair os jovens porque eles são a mão de obra do futuro. Para conseguir essa atenção, muitas se vendem como algo que não são

VOCÊ S/A – Isso não pode criar frustrações para os dois lados? Para o jovem, que foi atraído por uma falsa imagem, e a empresa, que coloca nele a expectativa de renovação e salvação?

Eline – Sem dúvida. E pior ainda: o próprio jovem tem altas expectativas com relação a própria performance. Como a vida inteira ele ouviu que podia tudo, ele acredita e se decepciona com muita frequência. A nova geração também foi muito estimulada a falar tudo, dizer o que pensa.

Profissionais de qualquer idade têm as suas críticas, mas os mais velhos não verbalizam. Eles foram criados assim, para não falar sem a permissão. Isso é uma das causas para tanto conflito de geração.

VOCÊ S/A – Quais são outras razões para conflitos de geração?

Eline – Os anseios são diferentes. A geração X começou a falar de tempo. Eles queriam tempo para se divertir, para passar com os filhos. Os milênios não querem só tempo, querem recompensa. Dizem que os jovens não ficam concentrados em nada. Mas você já viu um deles jogando videogame? Eles ficam vidrados. O trabalho precisa ser tão desafiante e prazeroso quanto.

 

As vezes, a paranoia dos pais sobre o efeito dos videogames na vida dos filhos vai mesmo além da conta. Esta tirinha do blog “Complexo Geek”  ilustra essa questão com bastante humor. Vale a pena ler!

 

Compre, consuma, obtenha, troque, renove, acumule! Com palavras de ordem como essas, a sociedade do consumo apregoa por aí que é essencial se apossar da maior quantidade possível de produtos das melhores marcas que todo mundo já tem, menos você.

Assim, vai nascendo na gente aquela vontade de comprar e ter que não entendemos bem de onde vem. Afinal, quem nunca sentiu vontade de ter o último lançamento do I Phone ou tablet? Ou em outra escala, aquele carrão esportivo, melhor que o seu?

Na sociedade em que vivemos consumir é essencial e a felicidade ficou vinculada à posse de determinados produtos. A família é mais feliz usando a margarina “X”, usando os serviços do banco “Y”, usando creme dental da marca “Z”.

Sobre esse assunto, interessante comentar a teoria de Dan Gilbert. Para ele, felicidade natural é o que sentimos quando obtemos o que queremos e felicidade sintética é quando somos felizes mesmo sem obter o que gostaríamos.

Acredito que a sociedade nos faz acreditar que a felicidade sintética não é tão boa quanto a felicidade natural. Assim, nos faz acreditar que temos mais chances de sucesso se formos o feliz proprietário do carro XY, se morarmos em um apartamento de cinco quartos, se tivermos uma churrasqueira mesmo que não tenhamos onde colocá-la!

Esta é uma sociedade que não está acostumada a valorizar a felicidade intrínseca, aquela que vem de dentro, que nasce de bons momentos com amigos, ou de atividades como dançar, ler, estudar… Afinal, essas atividades tem um nível de consumo muito baixo, não é mesmo?

O happy hour, criado por esta mesma sociedade, é uma prova de como a felicidade é relativa para nós. Achamos que “momentos felizes” só podem existir em um determinado horário DEPOIS do trabalho. Já repararam que não há happy hour durante o expediente? Fica a impressão de que o trabalho não pode ser happy! Mas quem disse que só é possível ser feliz fora do trabalho? E se tentássemos ser felizes durante o trabalho? Parece que é a mesma coisa que dizer: “adoro comer legumes. Mãe, hoje eu quero muito espinafre, chuchu, berinjela, jiló e abóbora! Não rola?”

Assim, ficou decretado, nas entrelinhas: ter felicidade no trabalho é algo irreal! Na verdade, não é, mas é isso que a sociedade do consumo quer que a gente acredite. Além de tudo, essa crença nos faz sair do trabalho, encontrar os amigos e consumir mais. Nos faz beber (porque só podemos ser felizes depois do terceiro chope) e comemorar.

Onde fica a nossa capacidade de transformar o trabalho em um lugar bom, legal, divertido, happy, e fazer do “happy hour” um “happy day”? Quem disse que alegria é coisa pra depois do trabalho? E onde fica a nossa própria capacidade de sentir, de querer, de transformar, de ser feliz? Terceirizamos pra sociedade até isso. Incorporamos o happy hour nas nossas vidas e não questionamos se no trabalho somos ou podemos ser felizes. Quem manda nas nossas vidas, afinal? Quem manda na nossa capacidade de ser feliz? A mídia? O marketing das grandes marcas? Só depois da terceira bebida? Que tal experimentar fazer um happy day inteiro no trabalho? Impossível? Quem disse?

 

Older Posts »