
Por Cíntia Reinaux
Há um texto de Rubem Alves* de que gosto muito, em que ele faz uma metáfora para explicar porque os pais devem ser mais rígidos com os filhos. Para ele, os pais de hoje não suportariam ver Michelangelo “furiosamente atacando o mármore a martelo e cinzel”. Eles indagariam: “Afinal, que Michelangelo tem contra o mármore?”.
“Sim” – é a resposta do escritor – “ele tem muito contra o mármore. Porque dentro dele está guardada a Pietà [...] Onde estaria a Pietà se Michelangelo tivesse sido complacente com o mármore?”.
E conclui: “Educação é arte. E não existe nada mais contrário à arte que deixar a matéria-prima do jeito como está. Só fazem isso aqueles que não sonham. Mas, desgraçadamente, os sentimentos de culpa paternos e maternos transformam-se em gelatina. A pedra continua pedra. É preciso que se saiba que o amor é duro”.
Muito se discute sobre a “geração de troféus”. Sobre como cada vez mais os jovens são premiados mesmo quando não o fizeram por merecer. Aliás, nesse ponto, a jornalista Eliane Brum** acerta em cheio: estamos diante da geração do “eu mereço”. Segundo ela, “O fazer por merecer foi eliminado da equação. [...] É estarrecedor verificar como as gerações que estão aí – e as que estão vindo – parecem não perceber que a vida é dura e dá trabalho conquistar o que se deseja. E, mesmo que se esforcem muito, haverá sempre o que não foi possível alcançar”.
Ocorre que, de modo ainda mais preocupante, as novas gerações parecem aprender, desde a infância, a sistematicamente culpar os outros pelos seus insucessos. Se as notas estão baixas, é porque o método de ensino da escola não é bom ou, ainda, porque “o professor pega no meu pé”. No futuro, esse mesmo jovem irá apontar o chefe e outros fatores externos como razões para a sua carreira não “decolar”. E como poderia ser de outro jeito? Foi esse o exemplo que ele teve.
A geração Y é talvez uma das mais promissoras dos últimos tempos: “indivíduos multitarefas”, que vivem antenados com as novas tecnologias, detentores de uma enorme capacidade cognitiva. Esses mesmos “potenciais” são também por muitas vezes considerados superficiais, imaturos, egoístas, impacientes e ansiosos.
É como se todo esse potencial não tivesse sido propriamente trabalhado. Não que fosse de se esperar que esses jovens chegassem prontos ao mercado de trabalho. Por outro lado, não seria de todo o mal se já fosse possível ver nessas “pedras” um esboço do que poderão vir a se tornar no futuro. Mas como eles poderão trazer à tona a sua Pietà se nunca aprenderam a usar o martelo e o cinzel?
E, assim, a pedra continua pedra. Mas não acho que seja tarde demais. Com um pouco de esforço, disciplina e ajuda dos mais velhos, logos eles aprenderão a usá-los.
*Rubem Alves é um psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro. O trecho em questão foi retirado do livro “Sobre o Tempo e a EternaIdade”, Ed. Papirus, 1995, págs. 37 e 38.
**Eliane Brum é jornalista e colunista da Revista Época. Ela descreve a geração do “eu mereço” no texto “A era dos adultos infantilizados” , publicado no dia 16 de novembro de 2009.
Cíntia Reinaux tem 25 anos e um orgulho danado de ser pernambucana. Irmã coruja, tem sua paciência constantemente testada por um adolescente da geração Z. Administradora apaixonada por RH, nas horas vagas adora contar histórias sobre suas aventuras no Canadá, de onde voltou recentemente, no blog http://reinaux.wordpress.com.





Excelente reflexão! Vez por outra me deparo com jovens que “nasceram para mandar”. Não querem trilhar o caminho, ter o aprendizado. Querem ter o mundo a seus pés, seus desejos atendidos na hora, de preferência, e não toleram a frustração. Típicas crianças mimadas.
Claro que estamos falando de uma minoria que está nas classes mais abastadas da sociedade mas que, em alguma medida, farão parte do futuro do país, convivendo com as desigualdades e falta de oportunidades iguais para todos.
Cabe aos pais, principalmente, evitar esse egocentrismo desmedido educando com disciplina e preparando para viver em sociedade e não jogar a responsabilidade nas costas de terceiros como babás e escolas que são apenas parte do processo.