
Por Manuela Noronha e Tatiana Kielberman
Os jovens brasileiros de hoje são alienados, apartidários, não possuem senso crítico e a imprensa é uma das grandes culpadas, bem como o processo educacional atual. A opinião é do jornalista Paulo Henrique Amorim* que, contundente, acredita ser a internet uma saída para a mediocridade da imprensa e da falta de discussão política na sociedade. Confira entrevista concedida com exclusividade ao Foco em Gerações:
O senhor discute e critica a política brasileira, bem como os líderes em destaque na mídia. Em sua opinião, quais as principais tendências políticas da nova geração? O que se pode esperar da formação política de nossos jovens em um mundo no qual as opiniões se modificam o tempo todo?
Em primeiro lugar, eu acho que existe uma generalizada alienação política na juventude brasileira. Os jovens não acompanham e não gostam de política. É claro que isso é uma generalização perigosa, mas é preciso fazer uma distinção entre os tipos de jovens: os de classe média e alta ou média e baixa. O jovem de classe média/alta, quando tem interesse político, tende a acompanhar a posição de seus pais, conservadora. A estração dos jovens de classe média baixa também acompanha os pais, porém com uma posição trabalhista, que acham que se o dinheiro ficar nas mãos dos ricos, os pobres morrerão de fome e não terão educação. Essas são as divisões básicas que existem no mundo e que se reproduzem hoje no Brasil.
A que o senhor atribui essa alienação?
Um fator importante foi a crescente despolitização no Brasil durante o tempo de regime militar, que despartidarizou o país e fez com que não surgissem novos líderes. O regime não incorporou a juventude no processo político.
Em segundo, vem o processo educacional brasileiro, com uma predominância do ensino particular, que é também um processo alienante e que nos leva hoje a uma ignorância muito grande dos fatos políticos centrais.
Contribui para isso o fato do Brasil ter uma imprensa ruim, medíocre e partidária. Se comparada à argentina ou à chilena, também conservadoras, a imprensa brasileira tem má qualidade técnica, pois hoje ela trabalha apenas com o objetivo de derrubar o governo trabalhista de Lula e impedir que ele faça um sucessor. A imprensa, principalmente escrita, não tem mais o objetivo de informar. A televisão brasileira também é culpada, pois com o predomínio da Globo durante muito tempo, não discutiu políticas públicas.
Mas o que poderia ter sido feito de forma diferente?
Não há no Brasil, assim como em outros países educados, debates, programas de TV que discutam programas públicos, e que incluam os jovens. Não houve, por exemplo, um programa para discutir o pré-sal, ele foi combatido pela imprensa e levado ao congresso. Assim como não se discute a gripe suína, que se tornou uma questão político-partidária.
Com essa cobertura partidária, fica difícil ao jovem participar do processo político, pois ou ele adere essa visão das coisas, ou vai fazer outras atividades, ir pra balada, estudar engenharia, trabalhar cedo, deixando a política de lado e consolidando um preconceito nocivo de que a política é um negócio sujo.
A política não é suja, ela é central numa sociedade democrática. Sem política as sociedades não se organizam. Ela é a arte de permitir a convivência entre cidadãos de uma república. E lamentavelmente hoje, no Brasil, a política se transformou numa reunião dos quarenta ladrões do Ali Babá.
Como a imprensa poderia modificar seu posicionamento, corrigindo esses erros que o senhor menciona?
Eu acho que a imprensa brasileira é irrecuperável. Ela não tem mais jeito. Está condenada a morrer, se tornar irrelevante e naufragar na sua própria mediocridade.
A alternativa a essa imprensa é a internet que, com seu mecanismo de democratização da informação, pouco a pouco vai substituir essa imprensa parcial.
Muito se discute sobre a ética jornalística na publicação de notícias. Como o senhor avalia a ética hoje na internet, em que existe certa liberdade de expressão e todos podem tornar públicas suas opiniões, principalmente os jovens?
A ética deve prevalecer na internet, na imprensa escrita, na televisão. Ela é um imperativo moral, categórico, como dizia Immanuel Kant. Ela se pauta por princípios universais e quem trabalha na internet deve ter o mesmo princípio ético do que na escrita. E a internet, agora falando de posições políticas, é um instrumento apropriado para se ter uma diversidade de opiniões.
Hoje temos colunistas de diversas inclinações, como os neofascistas que se abrigam no site da revista Veja. Mas você só vai lá se quiser. A internet oferece muitas opções, você acredita no que quiser.
O que não dá é para freqüentar sites que se dizem imparciais quando, na realidade, não são. É preciso ter consciência do que se lê. No PIG brasileiro, que chamo de Partido da Imprensa Golpista, composto por Estadão, Folha, Globo e seus sucedâneos, até a previsão do tempo é parcial. A previsão diz agora que vai ter um apagão no Brasil. Assim como o resultado do futebol. Não se pode acreditar em tudo.
E os jovens têm esse espírito crítico para selecionar o que lêem?
Não. Não têm nenhum espírito crítico e isso é uma tragédia que só o tempo corrigirá. Se corrigir.
O senhor enxerga um modelo que traga os jovens a esse mundo?
Acho que a salvação para resolver esse problema da alienação dos jovens é fazer com que leiam as obras e romances de maturidade do Machado de Assis. Primeiro, pelo culto à língua portuguesa. Os jovens de hoje não só são apolíticos, apartidários, mas não sabem fazer uso de uma das línguas mais lindas do mundo, como já demonstrou Luis de Camões, Fernando Pessoa e Manuel Bandeira.
Eles não sabem usar os instrumentos que a língua portuguesa oferece para expressar sentimentos e razão, a leitura é um ótimo caminho para isso e que poderá facilitar essa comunicação da nova geração.
*Paulo Henrique Amorim é jornalista, formado em Sociologia





É extremamente complicado deduzir que o comportamento político dos jovens é semelhante aos dos pais ou direcionado de acordo com sua classe social. É jogar no lixo toda a globalização da nova sociedade da informação na qual vivemos hoje.
Mais absurdo que isso é indicar um modelo de mídia conspiracionista que só serve para tentar derrubar o “governo trabalhista”. Parece que o impeachment do Governo Lula e as “Diretas Já” foram disseminados unicamente pelo boca a boca.
Ainda assim, o ponto em que mais discordo do entrevistado é um terceiro: se refere à opção ideológica dos jovens. Ora essa, a não manifestação – diferente do que é indicado como alienação – é um posicionamento político.
Quando apenas reclamamos e dizemos que não gostamos de política, nem queremos que ela afete nossas vidas, estamos dando um claro sinal de que não queremos que o Estado/Governo interfira nas nossas vidas. Queremos liberdade econômica e de expressão. Estamos dizendo não para o intervencionismo estatal e toda a supremacia pregada pelos partidos da esquerda brasileira.
E se isso não é posicionamento político, nada mais será.
A opção por uma “não intervençõ estatal” que João Vitor defende como posicinamento politico, parece ser para os interersses dos que visam lucro e os benefiocios individuias do capitalismo. Este seria um posicionmento político se houvesse conciência disso. Contudo os jovens não tem concincia desse posicionamento que esta defendendo.
Parabéns pela escolha… e pela entrevista também!
Não ha como esconder que nosso interesse político tem sido quase nulo. Nós, a maioria. Confesso isso e tamb;em admiro aqueles que aidna enxergam esperança na Politica como forma de democracia legitima. Entretanto, ainda que o foco de qualquer ser nao seja este, é seu dever, como cidadão, entender o que se passa no cenario de seu país. Isso nos dá base para as outras formas de desenvolvimento social e também na carreira. Acredito que o egoísmo/preguiça em doar um pouco de tempo para entender, que seja a falha de muitos. Nao é preciso fazer campanha para fazer política, isto pode começar com voce.
Po, unico post que eu li alguem relacionando a geração Y com a política, ainda sim tenho muitas dúvidas.
Mas valeeeu! Tudo certo.
Apesar de nao concordar com alguma coisas do jornalista Paulo Henrique Amorim!
Sou um jovem brasileiro que cresce vendo as mudanças decorrentes do meios sociais, da mídia televisiva e impressa, da internet e do tema tratado: da política.
Penso que por causa das atualizações e mudanças que acontecem no dias de hoje, afastou a mentalidade jovem de assuntos que no passado eram tratado como mais seriedade e ousadia – muitos encaravam sem medos o regime militar -, tal como a política.
Alguns anos via toda a política como uma “coisa nojenta”, por causa das politicagens larápias de alguns políticos. Mas depois de ter direito ao voto, e que meu voto pode influenciar socialmente minha cidade, o meu estado e país; percebi que ela é de grande fundamento para que várias situações pudessem mudar. Busco com mais consciência, crítica e discernimento os ideias políticos que hoje apoio.
Fico impressionado com tamanho poder que hoje o jovem e outros cidadões têm com o uso da internet. Posso fazer crítica contra tal mídia televisiva, “aquela” pessoa pode protestar em relação a tal político – vimos isso o ano passado com a situação política no Irã, onde muitas pessoas comentavam sobre a reeleição do seu presidente pelo Twitter. Vejo que por causa de várias meios – celular, jogos, TV’s, estudos, própria internet e outros -, sendo algumas décadas atrás isso era impensável levar ao público.
Essa geração X e Y ou XY que estão no “agora” mostram-se quase em totalidade apolíticos como mencionado pelo entrevistado? Qual será o futuro em relação a política dos filhos dessas gerações? Acho que eles terão mais consenso, crítica e discernimento sobre a política, ainda mais com a massividade e expansão da internet – com ajuda das redes socias, messageiros instâtaneos, web sites , weblogs e outras colaborações em massa.
Excelente entrevista!
Bacana entender a visão de um jornalista tão conceituado a respeito dos jovens de hoje.
Parabéns!
Gostei muito da matéria. Acho o Paulo Amorim um grande jornalista, e mais, o admiro pela coragem de se opor aos nossos grandes carteis da imprensa.
Infelizmente o cenário não é favorável aos jovens que se interessam por política, digo isso,por ser um deles.
Porém, acredito que o entendimento e a busca pelo conhecimento são caminhos muito mais libertadores do que as soluções hedionistas que nos apresentam.
Achei perfeito o primeiro enfoque “o jovem não se interesse por política”, mas discordo da opinião de que isso seja fruto da imprensa.
A culpa não é da imprensa, mas primeiro da política em si. A nossa política é medíocre e oportunista, cria partidos por conveniência, falta clareza de objetivos e metas, além de que tudo o que se fala na pré-eleição não se pratica com integridade após a eleição.
Antigamente haviam poucas frentes. Ou você era isso ou era aquilo. Hoje não existe mais identidade política, uma ideologia a se seguir, uma fidelidade partidária. Nem os políticos por profissão seguem na íntegra sua ideologia (se é que possuem isso) e trocam PMDB por PT ou por PSDB como quem troca de camisa para conseguir uma candidatura ou um apoio.
Uma coisa a geração Y não perde: seu tempo. Eles não perdem tempo com bobagem, são imediatistas e lutam pelo que querem, sem depender disso ou daquilo. Não esperam que o governo mantenha as universidades públicas e nem um SUS decente, mas lutam para pagar sua faculdade e um plano de saúde. Não reclamam do transporte público, mas buscam comprar uma Honda Biz ou um Uno usado para se locomover. Preocupar com política para quê?
Em resumo, a juventude atual brasileira despreza a política e não dá bola para as mazelas de Brasília, pois nada que se faça no momento do voto muda o caráter do brasileiro de fazer mau uso do dinheiro que não lhe pertence, seja na políticia, em clubes, associações e até condomínios. Infelizmente nossa cultura é de sambistas, cervejeiros, trabalhadores… e aproveitadores oportunistas. Mas há excessões.
Abraços!
Adriano
Excelente entrevista, sou professora de história encontrei a entrevista buscando dados sobre a participação do jovem na política.
Acho que o sistema educacional deveria se preucupar com essa questão, para promover mudanças em relação a essa situação.