Nos dias de hoje, nossos filhos adiam a saída de casa e percebo que isso traz sentimentos contraditórios aos pais.
De um lado, gostaríamos que nossos filhos estivessem com a maturidade necessária para poder viver sós ou com seus companheiros; por outro, como “helicopter parents”, queremos que eles fiquem perto de nós. Pra sempre.
Confesso que faço a mesma coisa. Quando meus filhos quiseram viver sem as asas da mãe, milagrosamente encontrei um apartamento no prédio ao lado do apartamento deles. Essa dicotomia – deles e nossa – gera conseqüências, porque pode perpetuar a infância, se não soubermos definir limites e conviver como adultos dentro da mesma casa.
Na medida em que os filhos começam a trabalhar e ainda estão na casa dos pais, sou completamente a favor de que eles se inteirem das despesas da casa em todos os detalhes e possam contribuir com uma conta qualquer, de gás ou luz. É necessário para compreenderem que vivem num espaço no qual se compartilha relativos à sua sobrevivência e bem-estar. Desta maneira, estaremos preparando nossos filhos para compreender como seriam as despesas de sua própria casa. Só assim eles poderão avaliar se eles estão preparados para assumir essa responsabilidade.
Também acredito que, com isso, estaremos estabelecendo uma relação mais madura com eles, podendo conversar como adultos e avaliando opiniões. O que não podemos é agir como se eles já fossem adultos, dividindo despesas, ou conversando sobre os custos de moradia, e ao mesmo tempo considerando-os crianças, que não podem chegar tarde ou trazer amigos para seu quarto.
Como sempre, proponho olharmos para a forma como nos relacionamos com nossos filhos adolescentes ou nossos sobrinhos e fazer uma correlação com a vida Organizacional.
Por que queremos discutir os assuntos pertinentes aos projetos com nossos funcionários da Geração Y, mas não acreditamos que eles tenham condições de serem promovidos? Podemos atuar como coachers desses jovens, mas eles precisam crescer. Escutei uma vez que confiar é assumir riscos. É dedicar-se. É perigoso, sabemos, se levado ao excesso. O ideal está no equilíbrio.
Mas precisamos olhar esses dois mundos, a casa e o trabalho, onde atuamos freqüentemente de forma tão diferente.
Nas minhas palestras me refiro a estes dois mundos, que nesta hora fazemos questão de separar, para que não tenhamos motivo de dar o “empowerment com accountability” que damos em casa e negar esta possibilidade na empresa.
A outra importante questão é que pais devem ser bons, mas não superproteger. Quem dizia que pais devem ser “good enough”, referindo-se a não ultrapassar limites? Se queremos que nossos filhos cresçam, também devemos estimulá-los a voar.
O filme françês Va, vis e Deviens traduzido para o português como “Um herói do nosso tempo”, tem no seu título aquilo que eu acredito que nossos filhos e subordinados devem obter de nós: a coragem de dizer “vão, vivam e se transformem (se tornem)”. Mas em primeiro lugar está o “vão”, tão difícil de dizer, em casa ou no trabalho, porque a liberdade é mais do que dada, encorajada, e estimulada.
Como um desafio.
Que também é nosso.
Aceitando que eles cresceram.





Eline,
Como todos os pais, vivi esse dilema. O grau de liberdade e a natureza da relação que os jovens de hoje têm com seus pais, posterga a decisão de sair de casa. O que eles têm que abrir mão é relativamente pouco vis-a-vis a vantagem de manter o padrão de vida e de não ter que se preocupar com a gestão da casa; diria que atualmente, eles tendem a ficar com o “melhor dos dois mundos”.
No mercado de trabalho, não me parece simples decidir o momento das promoções. Por um lado, os jovens são bem informados por outro, estão pouco preparados para gerir pessoas e avaliar riscos. De qualquer forma, ambos (casa e trabalho) deveriam ser vistos sob um novo ângulo, nada a ver com o que tivemos ou fomos no passado (e meio, caso a caso).
beijo e parabéns pelo artigo,
Pois é, Dora, todos os Baby boomers viveram esta questão e ainda estão vivendo. Assim como os jovens da Geração Y estão vivendo este dilema.
O importante, para nós, pais, é dar-lhes asas para voar e abrir-lhes o caminho da vida. Nós também queremos o melhor dos dois mundos. Da mesma forma que nas organizações.
E clarificar esta questão com eles. Nas empresas e com suas famílias!
Beijo,
Eline
A dicotomia é parte dos momentos de transição como este em que vivemos agora.
Se de fato se confirmar que em meados deste século os seres humanos estarão vivendo cerca de 120 anos, então aos 60 as pessoas estarão na metade da vida. Logo aos trinta serão pouco mais do pós adolescentes. Tudo, absolutamente tudo terá que ser revisto em função deste novo timing de vida. Desde a hora certa de deixar o “ninho familiar” até a hora de se aposentar.
Quando penso que aos 21 anos eu já trabalhava a cinco, que me aposentei aos 45, estou com 60 e continuo trabalhando, sinto que a mudança já me pegou em cheio. Aí penso no meu filho que aos 21 anos, está mais preocupado com a sua formação e que um bom posto de trabalho depende desta boa formação, entendo que esta onda de mudança de fato está se fazendo sentir desde já. Meu filho, provavelmente só deixará a minha casa em torno dos 30 anos. Eu já tinha minha própria casa aos 25 anos!
Ruth
[...] assim, com a alma de ET, conseguiremos nos [...]
Lá em casa a coisa foi bem inusitada. Primeiro que nosso helicóptero caiu no primeiro voo (rs). Os três filhos só tiveram a presença de um de nós nas famigeradas reuniões com professores umas três vezes. As duas mais velhas vivem em outra cidade desde 25 e 22, com carteira profissional antes dos 18 … Nossa união é fantástica (sem me gabar) mas apesar dos lamúrios da mãe – hoje reconhecemos que isso foi e está sendo vital pra elas. Estão prontas para o futuro – se consigo expressar adequadamente o ‘prontas’ – que não quer dizer defensivas mas sim pró ativas.
Essa característica nessa geração precisa ser levado a sério – e fomentado pelos pais em primeiro lugar. O foco (oooops) em última instância tem a ver com o ‘se tornar’ pessoas singulares e plenas.
É verdade, Volney. Winnicott já dizia que a mãe deve ser somente “good enough”, lhe permitindo o desenvolvimento do self, conduzindo-o à independência. Mas muitas mães funcionam ainda ( talvez pela culpa ) como mães ( e pais) helicópteros. Já tivemos mães angustiadas porque seus filhos não poderiam comparecer no horário marcado para dinâmicas de grupo em processos seletivos e pedindo encarecidamente para que a Foco trocasse o horário das dinâmicas de grupo para que seus filhos pudessem participar. É o máximo, não é?
Beijo,
Eline