Eu já falei aqui sobre o despreparo dos nossos professores para ensinar. Contudo, não falei do despreparo dos nossos filhos para aprender.
Lendo a Revista ISTO É , de Junho de 2009, me deparo com o artigo “Profissão de risco: professor”.
Vários afirmam que já sofreram agressões dos alunos, e 26% dos professores já foram até ameaçados pelos estudantes, diz pesquisa da Secretaria de Educação do Distrito Federal. Não acredito que este número seja muito diferente em outras cidades.
Por que razão isto acontece? Não é, certamente um fator isolado. Nunca é.
Primeiro que a forma de ensino nas escolas evoluiu pouco. Ainda há carteiras, os alunos devem ficar sentados enquanto o professor fala sem parar. No máximo, um trabalho de grupo, uma pesquisa. Esses estudantes vivem sua vida (fora da escola) sem capacidade de atenção concentrada, com diversos estímulos, fazendo várias coisas ao mesmo tempo. Assisti a uma palestra que dizia, há muito tempo atrás, que as aulas foram definidas com 50 minutos de duração como conseqüência de um estudo que mostrava que a capacidade de atenção concentrada de uma criança era de 50 minutos. Refizeram este estudo hoje e sabe qual é o tempo de atenção concentrada de uma criança? Sete minutos. É por isso que a MTV e canais infantis tem sua grade de programação com mudanças muito rápidas. Se demorarem demais, perdem o consumidor!
Imagine 7 minutos de atenção concentrada ! Qual o professor que vai conseguir reter a atenção dessas crianças?
Mas, além disso, há outros fatores. Nossos filhos (falo sempre sobre a classe A ) têm empregadas em casa e, eventualmente, motoristas. Eles são funcionários da casa e com freqüência são chamados à atenção. Há alunos que se sentem no mesmo direito quando chegam à escola. Já ouvi professores me dizendo que não poderiam reprovar alunos porque eles lhe dizem : “Sou eu que pago o seu salário”.
Os problemas a que me refiro não são de fácil solução. Se , em casa, os adolescentes e pré-adolescentes podem questionar tudo, porque não podem questionar na escola o método de ensino, o preparo do professor? Por que ao podem se revoltar quando não é permitido usar o celular dentro da sala de aula? Se eles podem se concentrar em várias coisas, porque não podem usar também o celular e passar mensagens de texto, como fazem em outros locais, como sua própria casa?
Deveríamos discutir novas metodologias de ensino para nossas crianças. E olhar sob o ponto de vista deles.
Eu sempre me refiro ao filme E.T., que todos assistiram. O menino e o ET se entenderam bem, embora fossem de mundos completamente diferentes. Os outros queriam apenas dissecar o ET. Entre o ET e o menino, surgiu a curiosidade e a aceitação das diferenças. Por que não podemos rediscutir o ensino com a alma de E.T.?
Da mesma maneira, por que não olhamos o mundo novo da Organização com a alma de ET?
Eu gosto de estudar o futuro porque é lá que vou passar o resto da minha vida!





Ótima abordagem Eline! Vejo sua clara preocupação em alertar quanto ao futuro do aprendizado em um mundo cada vez mais tecnológico e dinâmico, com jovens em grande acessibilidade a novos conteúdos formando conceitos de forma totalmente “pré-matura” sem uma base fortalecida. Particularmente vejo de forma clara que teremos cada vez mais profissionais “sabedores de tudo que não sabem sobre nada”… Abs! Fábio Melo
Eline, vejo claramente um caminho que não tende a melhorar a esse respeito. Como pai de uma menina de 3 anos, procuro muita literatura que me ajude a desenvolver essa criança à moda antiga, onde ela não seja vítima da necessidade de projeção social da maioria dos pais atuais. Ela não tem culpa se pai e mãe trabalham, se o trânsito é caótico, se é preciso fazer hora extra, se é preciso trabalhar aos sábados, se é preciso comparecer aos eventos sociais nas noites, etc. A ausência dos pais no desenvolvimento das crianças criará uma geração autodidata, ou melhor, criada pela babá, pela tia do transporte escolar, pela professora da escola, pela professora do inglês, da natação, e o que é pior: pelos programas de TV. Quantos são os pais que estão conduzindo seus filhos para o amadurecimento como pessoa, regado, antes de mais nada, de amor? A sociedade do futuro está se desenvolvendo pelo instinto, emoldurando-se de acordo com suas necessidades, ditando as próprias regras. Crianças sabem o que é melhor para o seu futuro? Não. Precisam dos pais para lhes conduzir, e é essa ausência que está comprometendo o aprendizado. Esse assunto é digno de grande preocupação, e deveria ser mais debatido pela sociedade.
Adriano,
Concordo inteiramente contigo. A forma como fomos criados não é a mesma forma que esta geração vive de educação. Sinal dos tempos. Mas o importante é que sejamos capazes de passar os valores essenciais para essa tropinha! Eu tenho uma neta de 2 anos e, assim como você, com sua filha, fico preocupada em entender em que mundo ela vai viver. Que nós não deixemos esta geração ser criada pelo instinto. Que a gente esteja unido na busca de uma solução, de diálogo e compreensão mútuas.
Obrigada pela contribuição,
Eline
Esse debate precisa ficar mais intenso e alcançar o grande público.
Em alguns momentos sou radical a ponto de achar que não será metodologia, mas sim toda uma nova linguagem a ser aprendida – mais que fazer a diferença – será a única forma de se ensinar e de se comunicar.
E olha só, eu também usei a ilustração do filme do ET – mas para falar de Rapport – aqui: http://onovoaprendiz.blogspot.com/2009/05/contato-e-identificacao.html
Esse sentido de Rapport creio ser o maior problema a curto prazo – uma total falta de sintonia entre as gerações …
Volney.
Eu não conhecia teu blog. Parabéns! Ele é excelente e já sou sua seguidora de blog também. Acho que nossas abordagens são complementares. Você fala em Rapport etre as gerações, da memsa forma que eu falo em como as gerações viveram situações diferentes e por isso pensam e agem de forma diferente.
E como podemos fazer para que este gap não seja tão complicado!
Escreve pro meu blog também! Vai ser uma honra!
Beijo,
Eline
Estamos de acordo em muitos pontos, Eline. Na verdade, como comunicador tenho estudado muito a questão. Cresci num mundo em mudança, na Igreja Católica, e não me custa aceitar os novos tempos. Você tem razão acerca dos 7 minutos de concentração. Tenho uma experiência de missa das crianças onde elas é que conduzem a missa: todos somos atores, o padre pouco fala e a reflexão do evangelho – antigamente chamada pregação ou homilia – é simplesmente uma historinha infantil – um valor tirado do evangelho – preparado pela equipe de historinha. Cada fim de semana uma história: são cinco contadores de história. A criançada vibra, interrompe as peças e cobra atitude dos pais. Como vantagem temos a colaboração dos pais para trabalhar os valores, limites, disciplina, renúncia, sacrifício, colaboração… Músicas adaptadas, gestos e movimentos… Só fazendo a experiência para sentir o aproveitamento do aprendizado que já é vivência.
Luiz Carlos F. Magalhães, padre e jornalista