
Quando a gente é criança, o medo é absolutamente permitido. É até engraçadinho a gente ver um pequeno com medo das coisas mais bobas e nos sentimos úteis quando conseguimos acalmá-los e fazê-los dormir tranqüilos.
Mas e quando a gente cresce? Quem nos ajuda a superar nossos medos “adultos”? Continua sendo engraçado? Pra quem?
Na última terça-feira participei do Programa de televisão “Sem Censura”, da TV Brasil, com a Leda Nagle, numa mesa redonda que falava justamente deste tema, o medo.
Éramos cinco convidados: Claudia Naylor, diretora do INCA (Instituto Nacional do Cancer), que falou sobre o medo da morte, a psicóloga Cecília Bellina, que falou sobre o medo de dirigir, o Comandante Luiz Bassani, falando sobre medo de voar de avião, o pequisador criminal Jorge Lordello, que falava sobre o medo da violência e eu, falando sobre o medo de perder o emprego.
E a Leda, sempre muito espirituosa, com interferências pontuais muito boas, ajudando a esclarecer, trazendo as perguntas das pessoas que nos assistiam, nos estimulando a exemplificar, esclarecer, aprofundar.
Comentei sobre um artigo que trazia a seguinte informação: depois dos analgésicos, os ansiolíticos são os medicamentos mais vendidos no Brasil. É surpreendente. Todos estão mais tensos, mais inseguros, com mais medo de qualquer coisa.
Procurei explicar como devemos lidar com o medo da perda do emprego, que era a parte que me cabia na discussão. Claro que, diante de todos os medos ali em debate, provavelmente este fosse o último da lista. Mas é um medo real, do cotidiano de muita gente. Especialmente num momento de crise.
O que eu tentei dizer no programa é que ninguém está sozinho neste medo. Todos estão na mesma situação, embora cada um de nós lide de forma diferente quando estamos frente a uma situação de pressão. Depois, comentei o cuidado que as organizações devem ter no momento de corte de pessoal, para que os valores organizacionais não se deteriorem. É difícil nesta hora manter um clima saudável. A área de Recursos Humanos e os gestores de forma geral precisam cuidar para que cada um não comece a “puxar o tapete” do outro, numa espécie de “salve-se quem puder”.
Tem uma piadinha que eu uso nesta hora que é a de dois amigos que iam caçar. Eles viram um tigre que ameaçava atacá-los. Um dos dois sentou-se e começou a colocar o tênis. O outro disse:
- “Mas você não vai conseguir correr mais do que o tigre”.
Ao que o primeiro retrucou:
- “Eu não preciso correr mais do que o tigre. Só preciso correr mais do que você”!
Este é o típico processo de deterioração organizacional, em que a não observação dos valores e a não comunicação interna explicando os motivos de corte de pessoal ou mostrando o que está acontecendo no mercado pode interferir no sucesso ou fracasso da empresa.
Costumo dizer que o papel de RH neste momento é fundamental. Cabe a ele colocar um termômetro na empresa, avaliar que “remédios” ela precisa “tomar”. Manter-se profissional na avaliação das equipes, lidar com os que vão ser demitidos na tentativa de ajudá-los, mostrando que a organização, embora em crise, se preocupa com seus funcionários e vai auxiliá-los na medida do possível.
Falando sobre o que cada individuo pode fazer para ir além do simples medo da demissão num momento de crise, eu diria que deve mostrar que é importante para a empresa. Com isso, será possível manter o equilíbrio entre o medo do mercado e o enfrentamento, para alcançar os melhores resultados possíveis para a empresa. Todos trabalham mais nesse momento. Todos estão tensos, mas como as equipes estarão reduzidas, é mais importante ainda mostrar o comprometimento de cada um para ultrapassar estes momentos. Não se deixar abater, não desmotivar, não deixar que a sua equipe se desmotive são atitudes essenciais nesta hora.
Acho que, nesta hora, deve-se pedir mais feedback do que nunca!
Eu só dou feedback a quem pede. Acho que, se um funcionário não pede, ele não reagirá bem ao ouvir sobre áreas onde ele precisa melhorar.
Neste momento de crise, de medo de perder o emprego, recomendo a todos que peçam a seus chefes, pares e mesmo subordinados, por um feedback honesto, amigo, sincero. Ao receber este feedback, o fundamental é ouvir. Simplesmente. Como se fosse fácil. A reação de cada um é começar imediatamente com a frase: “Não, mas eu…”. Neste momento, não devemos nos justificar. Apenas ouvir e digerir. Aquele momento é de aprendizado e o fundamental para cada um é absorver o que os outros estão lhe dizendo. É refletir e verificar se estes feedbacks foram produtivos no processo de aperfeiçoamento individual ou não. Sempre há o que se aprender neste momento, embora ele não seja fácil.
Neste ponto quero falar sobre a dificuldade que acredito que a Geração Y terá de ouvir feedback. Esta tropa foi criada com todos os estímulos possíveis. Eu digo que, quando eu era pequena, quando tirava uma nota como 9 em alguma matéria na escola, meus pais me perguntavam porque eu não tinha atingido um resultado melhor. Hoje em dia, se nossos filhos aparecerem com uma nota que permita que ele passe na escola, nós nos daremos por satisfeitos.
Esta nova geração ouviu poucas críticas, de forma geral. Foram super protegidos e receberam incentivos muito positivos de seus pais, os Baby Boomers, cansados da educação severa que tiveram. Ouvimos todas as teorias de psicologia que estimulam a criança no seu desenvolvimento na tentativa honesta de lhes dar uma autoestima maior e com o objetivo de não castrá-los no seu processo de realizar sua criatividade e reforçando seu bom desempenho.
Assim, não é de se estranhar que essa geração tenha mais dificuldades na hora de críticas. Cabe a cada um fazer esta reflexão sobre sua abertura para ouvir e crescer com estes feedbacks.
Quem souber ouvir e mudar seu comportamento, a partir da capacidade de compreendera crítica como elemento construtivo, e sistematizar essas respostas de forma a mudar seu comportamento, vai ter mais chance de sobreviver na Organização. Claro que nada garante o emprego de alguém. Nem esta variável isolada de capacidade de escutar e mudar um comportamento serão, de per si, motivos suficientes para sua continuidade na empresa.
Alerto apenas que este comportamento é fundamental nesta hora (e sempre). E alerto que a Geração Y pode ter mais dificuldade com este tema.
Enfim, a participação no Programa Sem Censura é sempre gratificante. Poder escutar gente inteligente, com um conteúdo pertinente é sempre um aprendizado fantástico. Esta é a terceira vez que participo e cada vez é uma experiência enriquecedora e prazerosa.




