
Por Eline Kullock
Todas as diferenças entre as gerações vão impactar no relacionamento entre elas, mas algumas vão impactar diretamente no ambiente de trabalho. Várias me preocupam e uma, em especial, me intriga: é o sentimento de vergonha.
Na minha época, tirar nota baixa, repetir o ano na escola, ser levado à diretoria por ficar conversando na sala de aula, ser suspenso por fazer bagunça, muitas vezes ingênua, nos trazia uma enorme vergonha. Cair num buraco, tropeçar, falar errado, tudo isso nos trazia um sentimento de sermos ridículos, fracos, incapazes.
Me lembro de minha mãe repetindo a frase: “Você não tem vergonha do que fez?” E este sentimento foi sendo introjetado por toda uma geração.
A vergonha estava ligada à dignidade. À honra. À superioridade (ou inferioridade)
“A vergonha era tema recorrente na minha geração. Virou até nome de flor…”
MARIA-SEM-VERGONHA = O termo, tipicamente brasileiro, foi utilizado para designar esta espécie por causa de sua facilidade de proliferação. As sementes ficam guardadas em cápsulas que, sob pequenos estímulos, explodem e se espalham para logo germinar e gerar novos exemplares. Em latim, tal característica rendeu-lhe o apelido de impatiens (impaciente), denominação de seu gênero no meio científico.
Fonte: http://mulherverde.blogspot.com/2008/07/origem-de-alguns-nomes-de-flores.html
Qualquer exposição da nossa vida pessoal podia ser uma vergonha. Exemplo: a filha da vizinha foi vista beijando o namorado no jardim. Pronto, bastava. Ela seria à fofoca e à toda sorte de bisbilhotice de todos. “Coitada! Perdeu a dignidade”, se ouviria. Outra: o João ficou bêbado na festa da Maria. Falou muita besteira e todo mundo riu! Nossa, que mico!
Li, uma vez, que a vergonha existe para nos impor limites (Facing Shame, de Fossum e Mason). A sociedade tinha o papel de inibir um comportamento considerado socialmente inadequado, assim como a igreja e a família.
Acho que até os amigos tinham este papel, isolando do grupo aquele que fugia às regras estabelecidas. E não há dor maior do que a de ser exilado do seu grupo, de sua família, de seu círculo social.
Aliás, este era o pior castigo que algumas tribos impunham àqueles que descumpriam a “lei”. Era como o se cidadão em questão ficasse invisível, e ninguém respondia ou conversava com ele. Freqüentemente pessoas nessa situação morriam de tristeza e depressão.
No meu ponto de vista, este papel de criticar e castigar o “diferente” não é mais exercido pela sociedade, nem pela igreja. Num mundo onde a corrupção e os interesses pessoais imperam abertamente (sobretudo no Brasil), como falar de vergonha?
Talvez, numa sociedade que permita a existência de tantos amigos virtuais, num mundo onde a palavra privacidade está sumindo dos nossos dicionários, não caiba mais o sentido de crítica a comportamentos fora dos padrões, já que todos estão expostos até em vídeo a situações que seriam constrangedoras em outras épocas.
Vejo ídolos como a Amy Whinehouse, que vive bêbada, cantando e se expondo em situações por mim consideradas ridículas. Com tudo isso, Amy é considerada um ídolo, com comportamentos diferentes sim, mas aceitáveis e pequenos diante da sua genialidade. Vejo vídeos de rapazes e garotas de boas famílias em festas animadas, se drogando e fazendo sexo com várias pessoas. Comportamentos antes vergonhosos são agora considerados até engraçados.
Se nada é vergonhoso, se este valor não é mais importante, de que forma isso vai afetar a trajetória da geração Y nas Organizações?
Errar não será um problema? Dar prejuízo não será vergonhoso? Falar o que se pensa sem alguma censura, sem superego… Afinal, o que será considerado, internamente, pelo gestor, como perda da honra e dignidade?
Temos hoje exemplos de presidentes de organizações que vão de jatinho pedir empréstimos ao governo americano. E isso não considerado um comportamento vergonhoso. O que será, então, tomado como inadequado?





Quem tem Jesus sabe o que é decente e o que não é. Mas para quem não tem tudo PODE ser normal.
Triste que um post tao bom tenha como único comentario um tão escroto.