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Por Ines Schinazi
À medida que a tecnologia evolui, a arte segue.

Algumas vezes a arte arranca na mesma direção da tecnologia. Freqüentemente, ela fica atrás de propósito, se deleitando no conforto do minimalismo brutal e da simplicidade crua. A exposição de arte Sophie Calle “Prenez Soin de Vous” (“Cuide de você”) combina arte e tecnologia, que se tornam naturalmente indistinguíveis. Eu tive que prender minha respiração algumas vezes. Eu nunca tinha visto nada igual. Penso que Calle consegue verdadeiramente identificar o momento que estamos vivendo. Este momento de “partilhar a vida”, em que a maior parte da interação social tem lugar no espaço cibernético e que escorrega entre nós mesmos e nossas máquinas.

Calle criou uma exposição de arte uma exposição baseada na “ruptura de romances via e-mail” (sim, algumas pessoas terminam seus relacionamentos assim hoje em dia), que ela mesma recebeu de um homem chamado Gregoire.

A mostra consiste na rigorosa e exaustiva análise de um email de Gregoire por mulheres de diversas profissões, que procuram compreender Gregoire pela ótica de sua área de especialização. O e-mail é analisado por uma psicoterapeuta, uma caricaturista, uma digitadora de SMS, uma garota de 11 anos, uma cantor, uma dançarina, uma headhunter, uma mãe, uma advogada, uma estilista, uma atriz, uma professora do ensino fundamental, uma editora e outras profissões que você pode imaginar. A análise dessas mulheres foi, então, transformada em peças de arte.

Tenho que admitir que fiquei um pouco deprimida com a idéia de alguém terminar um relacionamento via e-mail. Me fez pensar naquele episódio de “Sex and the City” em que Berger rompe com Carrie por meio de “post-it”. Pelo menos o “post-it” era manuscrito e tinha um toque de pessoal, o que um e-mail nunca poderia proporcionar.

Romper por e-mail é como se fosse a última gota, um sinal claro de que nos degeneramos em uma espécie de “cyber inferno”. Penso também que esta técnica de terminar por e-mail permite um intenso nível de autoproteção, o que um contato cara-a-cara nunca possibilita.

Quanto de nossa tecnologia (e-mails, textos, Facebook, conversas por celular, etc), também não são uma tentativa de autodefesa?

Porque ter uma conversa dolorosa quando você pode apenas disparar um SMS ou e-mail? Por que ter que olhar no olho do outro quando você pode evitar o “olhar”? Você pode, literalmente, não ver a dor.

Será que estamos todos cada vez mais covardes como Gregoire? Essas “máquinas” estão se tornando nossos escudos no amor e na vida cotidiana?

A mostra nos apresenta uma abundância de contradições em tecnologia. A Internet nos dá a impressão de intensa fluidez e maleabilidade. Mas, por outro lado, as coisas são muito mais “permanentes”. Ao contrário de uma conversa, onde muitas vezes é impossível retomar coisas.

É muito mais fácil “perder” (ou queimar) uma carta de amor (ou carta de término) manuscrita do que destruir um e-mail para sempre.

Além disso, ao contrário da interação cara-a-cara, que fica presa em um instante, um e-mail é para sempre. Um e-mail pode ser facilmente relido, revivido, reagido, cantado, dançado, interpretado, mais e mais e mais vezes, em um infinito número de formas, tal como comprovado por Calle da exposição.

Curiosamente, esta tecnologia, que parece tão aberta e livre, pode realmente ser extremamente vinculativa.

Fiquei também intrigada com o fato de que a análise da Calle focou apenas o olhar feminino, e concentrou em si mesma as linhas das profissões.

Talvez em um mundo caracterizado por esse frio anonimato, as pessoas agarram às suas profissões mais do que nunca, como um marcador de identidade e de auto-afirmação.

Além disso, talvez nunca tenha havido um exemplo tão claro da falta de privacidade no mundo de hoje. Esse e-mail tão pessoal tem sido difundido na esfera pública. Essa dissecação aleatória por estranhos que, no entanto, são “outsiders”, quando se trata dos assuntos particulares de Gregoire e Sophie’s, está aí para que todos vejam.

Calle borra as linhas entre arte e tecnologia, entre público e privado, entre identidade profissional e identidade pessoal, e entre amor e ódio. Mas uma coisa permanece constantemente em foco: a tecnologia está definitivamente ao lado de Calle.

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2 Responses to “Você terminaria um relacionamento por email? SMS? Twitter?”

  1. Luiz Gabriel Vieira disse:

    Um termo que tenho visto muito na Web é o Oversharing. As pessoas hoje em dia estão se expondo mais e dividindo experiências, sentimentos e até imagens de suas vidas privadas a deriva na internet. Percebo isso muito no mundo coorporativo e no dia a dia de navegação nas redes sociais. As vezes me controlo e percebo esse tipo de comportamento presente em mim. Seria o Oversharing um vício da nova geração ? Será que por termos mais meios em nossas mãos, precisamos expor mais informações e sentimentos ?

  2. gabriel tosi disse:

    Eu pedi minha esposa em casamento pelo MSN. Parabéns pela matéria!

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