Por Eline Kullock
No meu ponto de vista, o RH das Organizações deve estar muito atento à questão do planejamento. Acredito que esta geração tem menos intimidade com a arte de planejar. E vai ter mais resistência a formular planejamento. Mas por que esta atitude?
Em primeiro lugar, o brasileiro já não tem uma grande experiência no assunto.
- O Brasil não participou de grandes guerras – e a guerra nos ensina a planejar. Desde o planejamento dos ataques quanto ao planejamento do deslocamento das tropas. Não foi um grande aprendizado brasileiro. Quem se lembra de alguma guerra na qual o Brasil participou? Não entrou no que chamamos de inconsciente coletivo;
- Nosso país é uma terra onde em que se plantando tudo dá. Não há necessidade de planejar grandes investimentos para suprir a subsistência;
- O Brasil não tem um inverno que nos exija um planejamento de como sobreviver numa situação de “escassez”;
Quando eu ingressei na Stanton Chase (empresa multinacional de executive search), como sócia, em 1996, e o board falava em definir datas de reuniões para 2 anos subseqüentes, eu não conseguia entender este conceito!
Os Baby Boomers, pais da Geração Y, não estavam acostumados com planejamento.
- O Brasil abriu-se muito recentemente ao chamado “mundo plano”, acostumando-se ainda pouco a ele, onde é necessário, para competir, ter um plano bem traçado, com metas e indicadores. Até pouco tempo o governo era o maior investidor no mercado, a gente vivia nua ditadura e as empresas eram, na sua maioria, nacionais, pequenas e com pouca competição.
- O Brasil passou por situações de hiper-inflação, onde o essencial era sobreviver. Como planejar, se a inflação era de 82% ao mês? As organizações precisavam pensar no dia-a-dia das empresas.
- O Brasil passou por vários planos econômicos, com mudanças de moeda e legislação muito diferente num curto período de tempo. O básico, nessa situação, era entender como lidar com, por exemplo, o confisco do dinheiro de todos, da noite para o dia.
- Os Baby Boomers não conseguiram reunir dinheiro suficiente para viver uma aposentadoria razoavelmente tranqüila. Só recentemente surgiram os planos de aposentadoria privados, com o fim da hiperinflação (1994!).
Quando eu trabalhava em varejo, como Diretora de Planejamento Estratégico, Organização e Recursos Humanos da Mesbla, sentíamos na pele as mudanças da moeda ou confiscação do dinheiro das pessoas. Trabalhando diretamente com o varejo deveríamos saber como abrir as portas da loja no dia subseqüente a mais um plano mágico e nos víamos em situações inusitadas diariamente.
Os Baby Boomers, por não terem esta vivência, não ensinaram seus filhos a planejar.
- Os Baby Boomers colocaram seus filhos em várias atividades, como cursos de idiomas, esportes, aulas de música para prepará-los melhor para a vida profissional, criando uma agenda de atividades pouco questionada por eles.
Eu mesma criei, para meus filhos, agendas super rigorosas, para que eles estivessem mais aptos a lidar com o mundo do futuro. De inglês a violão, de fonoaudiólogo a judô, de espanhol a futebol, de terapia a aulas de teatro.
As estratégias de remuneração das organizações não valorizam o longo prazo.
- Com os sistemas de remuneração mais agressivos, o mercado (não só o brasileiro) estimula o lucro no curto prazo, mesmo que seja em detrimento do longo prazo, para o recebimento de bônus, participação nos lucros e reconhecimento.
Em nossa vivência, os planos de remuneração criaram aberrações de pensamento em curto prazo que, na minha avaliação, ajudaram a deformar valores pessoais, a afastar pessoas na luta desenfreada por promoções e a provocar processos de deterioração organizacional, só percebidas muito mais tarde ou nunca percebidas em organizações com capital aberto.
A crise obrigou as pessoas a definir estratégias de curto prazo
- A partir do ano passado, quando a crise mostrou sua face mais negra, a ordem do dia era sobreviver. Inovar, jogar fora os conhecimentos adquiridos para poder absorver uma nova realidade, muito distinta da vivência anterior. Não existia mais o conceito de espelho retrovisor, que nos permite ver de onde viemos, para ajudar a definir para onde vamos.
A vivência com jogos da internet ensina os jovens a não ler manual. Não se tiram as dúvidas a priori. Vamos jogando e tentando entender como a vida funciona na base da tentativa e erro. E se não der certo, reset and restart! E a vitória é facilmente conquistada!
E é neste contexto que os jovens ingressam no mercado de trabalho, com força e determinação para realizar mudanças, injetar pensamento e visão nova nas grandes organizações. É nesse momento que as organizações tendem a super valorizar o “atrevimento, a autoconfiança e a audácia” da geração Y, em detrimento de outras gerações, experientes e mais cautelosas.
Somos BRIC.
Somos do país cujo presidente Obama classificou como “THE man!”
Somos o presente, porque até agora éramos o país do futuro!
Esta turma quer é sair às ruas e vender, quer bater metas altas estabelecidas pela própria organização (muitas vezes inexeqüíveis), quer mostrar que sabe e pode alcançar resultados. Quer mostrar que tem esta audácia que lhes é conferida, que alcança resultado sem grandes esforços.
E na medida em que esta realidade não se concretiza, o único caminho conhecido por eles é seguir com mais força destruindo inimigos, passando de “fases” nos jogos, já que não podem “resetar” a vida, sempre com o suporte incondicional dos pais, que repetem incessantemente que estes jovens podem tudo!
Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor
Eu fui na Penha, fui pedir ao Padroeiro para me ajudar
Salve o Morro do Vintém, pendura a saia eu quero ver
Eu quero ver o tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar
O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato
Vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará
Na Casa Branca já dançou a batucada de ioiô, iaiá
Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros que nós queremos sambar
Há quem sambe diferente noutras terras, noutra gente
Num batuque de matar
Batucada, batucada, reunir nossos valores
Pastorinhas e cantores
Expressão que não tem par, ó meu Brasil
Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros que nós queremos sambar
Ô, ô, sambar, iêiê, sambar…
(Brasil Pandeiro – Novos Baianos)
Neste contexto, para quê planejar? E os jovens, contundentes na forma de colocar suas opiniões, questionam planejamentos de cinco anos, eventualmente de um ano. O que dizer de planejamentos de dez anos?
Será que eles estão certos? Será que o planejamento acabou? Será que vamos adotando estratégias diferentes de acordo com a evolução do mercado, agora mais amplo, mais volátil, com consumidores mais duvidosos, menos apegados a marcas, mais críticos, diferentes?
Certamente não será sem planejamento que vamos entender os caminhos a seguir.
Certamente o planejamento vai precisar ser revisto com maior freqüência do que são hoje em dia. Na vida pessoal e profissional.
E você, tem resposta pra estas questões?





Olá!
Gostaria de ter uma resposta, mas encontrei uma resposta para minha pergunta há anos!
- Pq somos cobrados a ter planejamentos exequíveis se quem nos cobram não tem e quando tem não cumpre!?
Evidências de que devemos ter um planejamento, principalmente estratégico são demonstradas a todo tempo, mas não adianta saber se não sentir a necessidade de realizá-lo! Sou uma Y, trabalho em RH, e a cada dia fica mais forte de que se eu não sentir, não tenho o motivo para fazer!
Esse comportamento, deverá vir de dentro para fora, e na maioria das vezes acontece o contrário. Somos obrigados a planejar até os segundos de nossas vidas, o que na maioria das vezes torna uma tarefa impossível de ser executada. A certeza que temos é justamente a certeza da imprevisibilidade! Tudo pode acontecer!
Na minha opinião, é fundamental termos um planejamento pessoal e profissional, costumo dizer, um ensaio do que queremos fazer! Mas acima de tudo, o mais importante é termos a espiritualidade para acompanhar as mudanças que acontecem a todo tempo e o planejamento dependerá sempre de metas e indicadores claros!
Afinal, atualmente presenciamos um mercado que muda a cada 8 horas!!! Como fica um planejamento nessa hora!
Abraços!
Que bom que vc escreveu, Camila,
Esta é exatamente a minha questão. Num mundo que muda a cada semana, o planejamento deve ser repensado.
Mas acho que viver sem planejar também não é a solução. Eu sei que, para a geração Y, não é fácil planejar.
Mas planejar e preciso.
Beijo,
Eline
Eline, esse texto está irrepreensível, e até difícil de comentar pela complexidade e plenitude como você abordou o tema. O Brasileiro realmente não planeja, e como profissional da área de varejo e marketing, muitas vezes erro em minhas previsões quando penso que as vendas vão cair, e na verdade permanecem iguais, graças à falta de planejamento e de prudência do brasileiro. Crise, que crise?! Se não pode comprar à vista, compra em 10 vezes, mas não deixa de comprar. Depois vem a resposta com as inadimplências… pois sem considerar um possível desemprego, o povo compra mesmo e deixa ver “no quê vai dar”. A massa não se preocupa em “sujar o nome”. Depois limpa quando der, e bola pra frente. A providência imediatista é a grande marca do brasileiro, que somada à grande capacidade de “dar um jeito”, vai levando a vida numa boa, curtindo o presente e ignorando o futuro. Será que o melhor não é admitir essa característica e trabalhar com ela na pauta das ações? É uma forma de planejar considerando a falta de planejamento dos demais. Pirei…
Eline,
Tenha certeza que seu texto não irá envelhecer…guarde-o com carinho e deixo-o como herança.
Beijos