Por Eline Kullock
Quando eu era pequena, costumávamos fazer nossas refeições todos juntos, em volta da mesa, em família. As pessoas hoje podem dizer:
- Ai, que saudosista! Hoje cada um tem seu horário, tem seus cursos e, além disso, os pais chegam tarde, não há mais tempo útil.
- E temos o forno de microondas, que facilita a vida!
- Ah, mas quando eu estou com meu filho, é uma relação muito intensa.
Eu sei, eu sei, mas o jantar em família tinha outros significados.
Nem sempre era legal. Eu, por exemplo, odiava comer legumes! E era ruim especialmente quando as notas do boletim eram ruins. Hoje as notas saem pela Internet e os (poucos) pais que ainda brigam quando as notas de seus filhos são baixas raramente o fazem à mesa. É que dá muito trabalho brigar. Melhor manter esse pouco tempo com nossos filhos pra curtir… Bom não é bem assim.
Jantávamos quando papai chegava em casa. Isso nunca acontecia tão tarde quanto hoje. O horário de trabalho era razoável. Meu pai nunca chegava muito depois das 19hs. O que hoje ficou mais difícil, eu concordo.
O “Jornal das oito” era mesmo às 20h, porque já havíamos jantado.
Havia os lugares definidos na mesa. Que incrível, não é?
Minha mãe estava sempre à sua direita. Meu irmão mais velho, sempre à esquerda. E eu tinha que me contentar em ficar mais longe. Quando meu primo veio estudar no Rio (sim, sou carioca) e morou lá em casa, o lugar dele era do lado de minha mãe.
Mas este desenho à mesa nos ensinava prioridades. Nos transmitia valores.
Havia muitas discussões políticas à mesa. O Brasil passava por enormes problemas com a ditadura e os movimentos contra este contexto eram sempre calorosos. A gente aprendia muito. A partir da discussão, embora eu fosse pequena, a gente discutia posicionamentos, formas de ação com o que não concordávamos. Política, economia, mundo cotidiano, arte. Acho que era o melhor jornal da noite, porque o que não compreendíamos era traduzido pra nossa linguagem.
Há um estudo que mostra a importância do jantar de família na obtenção de resultados melhores na escola.
http://www.tribunadoplanalto.com.br/modules.php?name=News&file=article&sid=5886 .
Mas além, das notas boas, o jantar em família servia pra alguma coisa? Sim. Tangibilizava a noção de família, tão perdida nos dias de hoje.
A mesa era um objeto que nos conectava, pais e filhos, numa sensação prazerosa e agradável.
Era um ritual de convivência que embora maçante, nos fazia compreender o sentido de família. Acho que alimentávamos a alma também naquela hora, a nossa intimidade, o sentido de pertencer.
A cada prato servido, serviam-se carinhos, orgulhos, indignações, noção de equipe, de grupo, amor. Cada guardanapo não enxugava só as nossas bocas, mas nossos desejos mais íntimos de grandes lambanças, de excessos não permitidos pelo meu pai. A autoridade estava presente. Mas era aberta ao diálogo.
Cada sobremesa adoçava as conversas, os olhares que a gente se trocava em cumplicidade. Era o momento de digerir as informações do encontro, em silêncio, língua lambendo os lábios e olhinhos revirando.
Havia o tempo de comer, o tempo de falar, de escutar, o tempo de saborear, o tempo certo de nos afastar de novo para as atividades cotidianas.
Hoje, quando digo que minha neta é a sobremesa da vida, penso nesses jantares e na forma como encerrávamos, na maioria das vezes (também não era sempre, oras!) o momento de diálogo, de troca, de união. A memória é de que os doces eram sempre bem saboreados, embora pudesse haver desavenças, discordâncias, brigas.
Era doce, e fica na memória como a coroação de um momento bem vivido.
E vocês, hoje? Jantam em família? Este momento é valorizado?





Eline, essa recordação que nos trouxe é sublime… mas não é uma questão temporal, e sim cultural. Cresci numa família tradicional, que até hoje, com todos os filhos casados, quando nos reunimos ninguém começa o almoço sem que todos estejam juntos na mesa de meus pais. O mesmo não acontece com a família de minha esposa, e por mais que eu tente não consigo manter esse costume em minha casa, pois a sala de TV é mais forte do que eu… Acho que a pausa para a refeição, sem TV, é o momento onde se fala de coisas de interesse de todos os presentes. É onde a família interage e se fortalece como instituição na sua essência. Porém, quem não teve esse hábito desde a sua infância tem muita resistência em experimentar e não consegue desfrutar de seu valor intrínseco, como você muito bem narrou. Eu sinto falta desse momento em minha casa, com minha esposa e minha filha. Gostaria de poder estabelecer esse hábito tão importante, principalmente para o desenvolvimento e valorização familiar de minha filha de 3 anos. Sorte de quem pode… Abraços!
Adriano,
Sei que é complicado falar “no meu tempo era melhor”, porque na verdade não são variáveis de uma equação. As mudanças vieram pra ficar. Mas acho, como você, que estes momentos em família são determinantes para que as pessoas ( e nao só as crianças) sintam que “pertencem” a um grupo. Este sentimento de pertinência, torna tudo mais fácil na vida.
A gente aprende, troca, supreende e se surpreende.
E depois, sente falta.
Me pergunto se a Geração Y sente falta desse contato próximo com as suas famílias!
Beijo,
Eline
Eline e Adriano, concordo plenamente com vocês sobre a importância desta reunião de família, e o sagrado momento de comer, onde alguém ficou horas preparando desde as compras até o preparo da mesa e da comida. Eu tenho esposa e três filhos (15, 7 e 7 anos), a maneira que encontro é com “pulso forte” de segurar todos a mesa aos finais de semana, sem TV na sala de jantar. Lógico que não faço isso todos os dias da semana porque nem sempre almoçamos todos em casa, e os horários dos meninos não combinam, mas a regra é comer sentados na mesa da cozinha que tem uma pequena TV de 14″ e sem refrigerantes de segunda a quinta. Ninguém come em quartos ou na sala segurando prato. Enfim, quero neste exemplo dizer que “pulso forte” ou melhor definir e exigir o cumprimento de regras, na minha opinião, tem que ser nossa tarefa de pais, seja para crianças de 7 ou para os de 15 que já se acham prontos para a vida. Por mais que alguns psicólogos da era moderna dizem que não podemos contrariar nossas crianças e devemos fazê-los entender, nem sempre a técnica de conversa sozinha resolve e eu preciso apelar para autoridade. Bem, esta é minha opinião e minha maneira de agir. Até este momento está funcionando, temos nossas refeições juntos, conversamos, as crianças provocam umas as outras (coisas de meninos), e eventualmente ouço que me amam, mesmo eles sendo meninos e eu com estas regras da casa. Espero ter ajudado com o meu exemplo, um abraço.