Por Rachel Glickhouse
Eline Kullock me achou através de um site de mídia social e pediu para eu escrever um post. Já que ela é uma pessoa muito simpática, interessante e super trabalhadora (é presidente da Grupo Foco em São Paulo), topei, e aqui está. As pessoas gostam de falar sobre a distância entre as gerações (generation gap), ou seja, as diferenças culturais entre as gerações: a Geração Baby Boomer (nascidos depois da Segunda Guerra Mundial e antes de 1960), a Geração X (nascidos entre 1960 e 1982, a Geração Y (nascidos entre 1982 e 1996) e a Geração Z (nascidos 1996). A questão é: diferente esse gap no Brasil e nos Estados Unidos? Ao meu ver, é o seguinte. Tecnologia Nos Estados Unidos, considerando-se o tamanho das classes média e alta e a acessibilidade e preços relativamente baixos da tecnologia, todas as gerações conseguiram entrar na modernidade tecnológica rapidamente. Já que a tecnologia é também parte da moda, todo mundo quer ter a coisa mais chique, mais avançada, mais procurada (pense no i.Phone, W.ii, e TiVo, por exemplo). A maioria da população, da Geração BB ate a Geração Z, é tecnologicamente alfabetizada, com acesso regular ao computador e/ou a Internet. A revolução da tecnologia é recente e muda muito rápido, o que obriga as pessoas a aprender constantemente a usar novas ferramentas e novos produtos. No Brasil, a historia é um pouco diferente. Só nos últimos 5 anos a classe média cresceu consideravelmente, dando acesso à tecnologia que anteriormente não podia alcançar, como máquina de lavar, DVD e computador próprio. Antes, a alta tecnologia foi limitada a um pequeno grupo da população. Agora, com salários mais altos, programas sociais e políticas públicas de inclusão, a maioria têm acesso à tecnologia, principalmente à Internet. Porém, da nova classe média, os maiores beneficiários dessa mudança são das Gerações Y e Z, deixando as Gerações BB e X para atrás. Como antes, todas as gerações das velhas classes média e alta têm acesso e são tecnologicamente alfabetizadas, mas são os adultos da nova classe média que ainda estão no processo de aprender a utilizar a tecnologia, particularmente a Internet e programas de computador. A Orkut tem sido uma ferramenta muito útil para esses novos usários a entender como usar a Internet, fotos digitais e vídeos. Mercado de trabalho Eu vejo um processo contrário acontecendo nos dois países. Nos EUA, estamos na pior crise econômica desde a Grande Depressão, apesar de ter uma das maiores economias e ser um dos maiores poderes militares no mundo. O impacto não e só financeiro, senão emocional também. Nossa auto-estima está extremamente baixa e não temos um clima muito otimista no país (depois da lua-de-mel da eleição presidencial). Todas as gerações estão sofrendo no mercado de trabalho, especialmente com cortes de pessoal em todo setor, mas a geração que mais está sofrendo é a Geração Y, já que muitos acabaram de entrar ou estão entrando no mercado de trabalho em um momento muito difícil. Desde os anos 60 até a crise, houve uma mudança no mercado que permitiu às pessoas entrar em novas carreiras (especialmente as mulheres), e a revolução da tecnologia criou muitos empregos completamente novos (IT, por exemplo). Assim, as pessoas puderam fazer algo diferente das carreiras tradicionais, como dentista ou contador. Como resultado, os jovens da Geração Y estão sendo obrigados a se diferenciar dos demais, tentando criar um perfil único com um conjunto de habilidades. Mas já que tem mais pessoas procurando trabalho do que vaga, neste momento é mais seguro entrar em uma carreira “tradicional” como medicina ou engenharia, onde se precisa de pessoas com conhecimento muito específico, ou voltar a estudar, fazendo programas de mestrado ou doutorado. No Brasil, não é assim. As gerações BB e X sofreram com instabilidade econômica, ditadura militar, e hiperinflação, resultando (como a Eline me disse), em uma auto-estima muito baixa. Até recentemente, com a estabilidade econômica e crescimento da economia, a taxa de desemprego era alta e tornava-se mais difícil entrar no mercado de trabalho. Na faculdade, as pessoas fizeram carreiras práticas, como as carreiras tradicionais que mencionei, para ter uma maior chance de conseguir emprego. Não teve muito espaço para desejo pessoal ou criatividade, a menos que se tivesse muito dinheiro. Mas agora isso mudou. A Geração Y e também parte da Geração X têm acesso a um mercado de trabalho maior, mais fluido e mais aberto. Essas gerações têm muito mais flexibilidade sobre que carreira querem escolher e mais liberdade para mudar o caminho profissional. Esses trabalhos inovadores que vieram da revolução da tecnologia chegaram pouco a pouco, e agora têm uma presença importante no país, entre eles as mídias sociais e sites na Web. A auto-estima da Geração Y está bem mais alta do que estava para as Gerações BB e X quando eles tinham a nossa idade, e isso dá uma vantagem muito importante em um clima de esperança e crescimento. Valores culturais Nos Estados Unidos, temos uma história coletiva meio esquizofrênica, ou seja, nossa memória histórica é bastante limitada. Tendemos a viver o momento, enfocando o presente, em vez de pensar e lembrar das lições do passado. É assim que vivemos três guerras desastrosas e fracassadas. Uma consequência é que, apesar de cada geração preservar os momentos mais importantes da história, o mais valorizado é o agora. Há uma pressão sutil em valorizar o presente e deixar o passado “onde pertence” nos livros da história e nos vídeos em preto e branco. Outra consequência é que as Gerações BB e X têm um desejo de formar parte da Geração Y, de firmar os acontecimentos atuais como os deles e aceitar os novos valores. A mudança em valores culturais é compartilhada entre todas as gerações, em vez de ser transmitida só à Geração Y. Por exemplo, agora a maioria de americanos quer banir cigarro de lugares públicos, achando que fumar é ruim para a saúde e para a sociedade, apesar de a Geração BB não ter pensando assim quando era criança ou jovem. Muitas mais pessoas agora acham que os homossexuais merecem direitos iguais do que na época jovem dos BB. No Brasil, a história coletiva é muito mais forte. Não é só o fato dos jovens lembrarem da Copa de 50 ou gostarem das músicas antigas de Gilberto Gil, senão também lembrar da ditadura, o legado do Vargas, e o colonialismo. A sociedade brasileira é muito mais como uma família, e por essa e outras razões, a história é mais valorizada. Mas também vejo mudanças mais lentas entre os valores culturais de cada geração. A Geração Y é a mais “progressista,” mas os valores mudam mais devagar do que nos EUA, provavelmente porque tem um respeito muito maior e mais reverenciado para os pais e avós do que nos EUA. Nos EUA, é mais aceitável e até preferível rejeitar os valores dos pais; no Brasil, é mais aceitável concordar com os valores dos pais. Por exemplo, apesar das mudanças na tecnologia, como email e SMS, ainda é preferido comunicar por telefone ou cara a cara. Mesmo que tenha comida rápida e muitas pressões no trabalho, a hora do almoço ainda tem peso, e muitos trabalhadores saem juntos para comer. Agora, com certeza, a Geração Y do Brasil tem muitos valores culturais compartilhados com a Geração Y dos EUA, mas os valores tradicionais também são importantes e sagrados. Visite: Aventuras de uma Gringa





Muito bom post. Só não concordo com a última parte: a família no Brasil está cada vez mais desestruturada com composições cada vez mais múltiplas. Os valores tradicionais estão sendo paulatinamente abandonados, a exemplo do que tem ocorrido há tempos nos EUA.