
Por Poliana de Oliveira*
Ser criado em um país onde você e sua família são imigrantes é engraçado, principalmente nos Estados Unidos onde nós, os imigrantes de diversos países, acabamos sendo a maioria em muitas cidades. Você é criada com certos princípios que não são necessariamente aqueles do país onde você mora, e os seus pais acham um absurdo como os “americanos” criam os filhos deles. Quando você fica um pouco mais velha e tem que escolher uma profissão, os seus pais, que trabalham em sub-empregos (e olhe lá), querem que você escolha um curso no qual você pode se formar e se tornar confortável financeiramente, e além disso ser feliz para, “não sofrer do jeito que nós sofremos.” O que é natural. Os pais querem o melhor para os filhos. O problema é quando o melhor pra eles não é necessariamente o que você acha melhor para você.
Os meus pais são do interior de Minas Gerais, onde não existem muitas oportunidades de trabalho e uma pessoa bem-sucedida ou trabalha em algum cargo público, ou é “doutor.” Onde eu morava, nos EUA, não era muito diferente, mas tinha aquelas pessoas que trabalhavam em empregos em multinacionais e afins em Nova Iorque e seus salários lhes tornariam pessoas bem-sucedidas.
Ter a oportunidade de fazer uma faculdade (nos States ainda!) já era um grande passo para qualquer pessoa na minha família, já que os meus pais não tiveram a oportunidade de estudar. Mas imaginem a confusão deles quando eu disse que estava me formando em Relações Internacionais (RI). Eu sempre gostei muito de estudar culturas e sociedades e como as mesmas influenciam a política e economia de um lugar… ou seja, não sabia o que mais fazer, então esse parecia o melhor curso pelo menos pra estudar o que eu achava bacana. Os meus estágios foram em ONGs, organizações de estudos governamentais e multinacionais de médio porte. Também sempre me interessei em tecnologia e internet, trabalhando um pouco com isso nos meus estágios, mas nunca pensei em trabalhar com isso como profissão.
Mas como eu me formei em RI, e algumas circunstâncias da vida acabaram me trazendo para o Brasil depois da minha formatura, decidi que trabalhar em qualquer coisa no Brasil seria trabalhar “na minha área,” já que, afinal, eu estava trabalhando em outro país. Os meus pais, ainda confusos com a escolha do meu curso, juravam que eu ia chegar aqui e arrumar um emprego legal em alguma multinacional em comércio exterior. Certo?
Nem tanto… Primeiramente, trabalhar em minha cidade natal estava fora de cogitação. O que foi difícil. Tenho uma família enorme e nunca tive muita convivência com eles, mas queria ter. Só que pra chegar em qualquer cidade grande de lá teria que andar mais ou menos 500 km e eu, particularmente, adoro cidades grandes. Então decidi vir pra São Paulo onde tenho uma tia e, afinal, é a maior das cidades grandes no Brasil. Depois de uma série de entrevistas e networking, acabei aceitando uma vaga em SEO (Otimização de Sites para Buscas) em uma agência de publicidade online onde a pessoa mais velha da agência tem 40 anos de idade. Nada a ver, né?
Nada e tudo. Acabei me apaixonando pela área, e percebi que sou nerd tenho uma paixão pela tecnologia, comunicação e a internet. Mas, ao mesmo tempo, acabo tendo dificuldades com minha família por causa dessa escolha de profissão. Primeiramente, não tenho o melhor dos salários. Afinal, não entendia nada de SEO quando comecei. Justo, não? Mas por causa disso, em um telefonema qualquer com os meus pais, que apesar de estarem aprendendo, não têm muito contato com a internet, pelo menos uma vez por mês (mas tem diminuido!), me perguntam o que é que eu faço mesmo e perguntam se eu não estou muito acomodada, e se eu não deveria procurar alguma coisa, “na minha área,” e que seja melhor remunerada. Vamos concordar que esse negócio de trabalhar, “na área,” é muito coisa de brasileiro, não é?!
Depois eu vou pro interior de Minas visitar a minha família e tenho que explicar o que eu faço pra todo mundo (eu já disse que a minha família é gigante, né?). Mostrar o artigo que eu tinha acabado de publicar sobre SEO foi uma luta – eles não sabiam se era pra estarem orgulhosos ou não porque não entendia bulhufas do que estava escrito lá além do meu nome. Após uma explicação toda sobre a minha profissão, muitos tios meus acabam simplesmente falando, “Porque você não presta um concurso público? Pra conseguir um trabalho com mais estabilidade?” Respirando fundo, eu digo que estou contente com o meu trabalho e a área está crescendo muito ainda. “Mas veremos.” Essa resposta geralmente é aceita, e como avó quer é falar pros outros sobre os netos, falo pra elas simplesmente dizer que eu trabalho em publicidade.
Lidar com diferenças entre gerações em termos de carreira é difícil sim. Se adicionar cultura à equação, a dificuldade cresce mais ainda! Mas, pra mim, que sempre tive que lidar com a questão cultural, a profissional já é fichinha. E outra, pense positivamente: se a sua família não entende nada do que você faz, pelo menos não tem espaço pra ficar dando palpite em como você deve fazer seu trabalho!
*Polyana de Oliveira é brasileira radicada em Connecticut, USA. Depois de 19 anos e graduada no Providence College em Relações Internacionais, voltou ao Brasil para “se encontrar” em São Paulo. Trabalha atualmente como SMO e dá aulas de inglês para colegas de trabalho. Nas horas vagas, ela se diverte em viagens para a praia, escreve seus blogs (Disseram que Eu Voltei Americanizada e São Paulo City), sai para dançar com amigos e explora a gastronomia de São Paulo. Você pode encontrá-la no Twitter (@_polyana)





Polyana, ainda hoje, nós da Geração X nos defrontamos com as mesmas idéias antigas de muitos Baby Boomers, que acreditam na segurança dos empregos públicos e concursados, e também estabelecem padrões de sucesso que não coincidem com os valores e objetivos dos membros da nossa geração. Isso são resquícios traumáticos dos tempos de insegurança no trabalho, de quando o Lula ainda era peão de fábrica e sindicalista. Os mais atualizados são fortemente influenciados pela mídia especializada, como a revista VOCÊ S/A, para onde já escrevi carta questionando por quê os profissionais bem sucedidos citados são sempre formados na FGV, Poli ou ITA (fora as instituições internacionais). Bons profissionais de outras faculdades não se destacam no mercado? Estamos na era onde ser respeitado é ter titulação, igual quando existiam os Condes, Duques, e também os Coronéis, mas que hoje são representados pelas insígnias das instituições de ensino que melhor desenvolveram suas marcas diante da opinião pública. Pessoas de sucesso, segundo a concepção de muitos, são aqueles bem titulados, bem remunerados e que vivem pelo emprego. Eu trabalho o suficiente, vivo para mim e minha família, não tenho tantos bens para me considerar arrogante, e nem tão poucos para sentir falta de algo. E somos felizes e respeitados, mesmo que para alguns isso não pareça ser sucesso… Abraços!!