
Por Inês Schinazi
No momento em que entrei naquela “caixa barulhenta”, percebi que aquela ia ser uma longa noite. Batidas elétricas pareciam cair como pesados quilos de aço, martelando contra nossas cabeças, até finalmente chegarmos a um estado misto de transe e dor de cabeça.
Música eletrônica. Como sangue jorrando. Constantemente no fundo de nossas mentes, nos despertando, colocando-nos de volta ao ritmo da vida. Longe de ser uma festa decadente, as batidas elétricas nos prendem, perseguindo-nos em nosso dia-a-dia. Fazem uma coreografia dessa frenética dança chamada “nossa vida”. Tão maleável quanto descartável, é uma constante evolução sonora. Revelando instantes fragmentados, ordenadamente cortados como vidros quebrados. Reproduzindo milhões de cliques em teclados, silenciosas telas de ‘touch screens’, invisíveis fones de ouvido, baseados em telefones celulares, aparelhos de GPS, olhos ‘injetados de sangue’ hipnotizados por brilhantes telas, siglas de textos sagrados, preenchidas com doses neon de mini-micro-macro, agraciando-nos com dois segundos de fama.
Não precisamos apertar o play. Essa é a trilha sonora da nossa vida. Dum, Dum, Dum, Dum: uma resposta pronta para nossas ultra aceleradas batidas cardíacas, tranqüilizando-nos de que mais alguém se sente da mesma forma, tornando-se uma pintura musical das nossas vidas. Ritmos contagiantes circulando livremente em suas naturezas viciantes, fixando-nos apenas com esse tipo de droga de que precisamos. E, no entanto, a música que achamos tão legal. perde sua aresta de vivacidade no amanhã. Nós ansiosamente devoramos as notas construídas por máquinas antes que o leite bom se torne um azul azedo.
Nossa geração é alimentada por gratificação instantânea, ávido escoamento e constante reinvenção. Queremos “o novo”, agora mesmo.
Acredito que a música eletrônica claramente capta essa atitude e forma de pensar. Esse ritmo representa fortemente nossos rápidos movimentos. Batidas fabricadas em máquinas refletem claramente nosso mundo digital.
A maioria do eletrônico onipresente com “data de validade” ilustra as descartáveis atitudes de nossa sociedade. Uma grande parte da música tornou-se um esboço de um particular segundo de tempo. Rapidamente esquecida, ela desaparece em segundo plano, quando a próxima “música do momento” toma o seu lugar.
É claro, é importante dizer que existem atualmente incrivelmente talentosos artistas, produzindo músicas maravilhosas, mas eles parecem ser minoria. Eu também não quero dizer que todo eletrônico é pobre de valores. Eu na verdade sou fã de alguns deles e eu acredito que alguns deles vão fazer história, já que certos artistas habilidosamente são capazes de ser vanguardas embora estejam captando o momento em que estamos vivendo. Contudo, parece que esses talentosos artistas estão longe e entre poucos.
Eu penso em como é incrível o quanto “velhas” músicas permanecem presentes e importantes. E imagino se nossa geração irá deixar música suficiente para o mundo. Ou haverá um grande buraco na história da música? Um amplo espaço em branco correspondente à nossa existência, esmagada no meio de toda a grandeza?
Na música “Chelsea Hotel No. 2” Leonard Cohen canta a brilhante frase “Nós somos feios, mas temos a música”…Então eu pergunto a Leonard (e a você) o que acontece quando a música desaparece? Bem, eu espero que nunca saibamos…





Não sei porque, mas a impressão que tenho sobre a música é que ela estimula a origem ancestral do homem, que busca um ritmo para expressar seus sentimentos e invocar seus deuses. O famoso “trance” que é o mais batido e repetitivo possível, aparece onde está alguém que não quer pensar em nada, desprender-se dos pensamentos da vida e apenas acompanhar o ritmo com a mente e o corpo, sem nenhuma apreciação meditativa da melodia ou poesia de uma música mais elaborada. A preferência e a necessidade por essa válvula de escape talvez reflita o vazio de expectativas ou a expressão de fuga da realidade que assola os vagos dias e pensamentos de muitos jovens, sem a devida estrutura familiar, social ou religiosa para viver o “hoje” mas pensando no “amanhã”.