
Por Eline Kullock
Apesar de não ser tão comum entre os Baby Boomers, geração da qual faço parte, me considero uma heavy user de mídias sociais. Esse perfil me possibilita fazer uma avaliação de como os jovens utilizam essas ferramentas e posso dizer que vejo muita gente mantendo participações em grupos, no mínimo, bizarros (no sentido original da palavra). Falei justamente sobre isso no Estadão de domingo, pra quem quiser conferir…
Para não ser absolutamente grosseira, me recuso a citar o nome de algumas comunidades que existem no Orkut com muitos participantes.
Mas posso mencionar algumas como “Odeio admitir que estava errado”, “eu odeio que mandem em mim”, eu adoro mentir”, “eu odeio estudar”, “eu já fui para o trabalho bêbado”, “pra que eu vou aprender isto”, “odeio esperar”, fora as já conhecidas como “eu odeio segunda-feira”, ou “eu odeio o meu chefe”, “eu odeio trabalhar”.
Em sã consciência, um consultor de Recursos Humanos que acesse a ficha do Orkut de um candidato participante dessas comunidades não vai chamá-lo para uma entrevista. Mas não vai chamá-lo porque ele participa das comunidades? Alguém poderia perguntar. Eu acredito que a área de RH não deve chamá-lo porque não identifica nele a maturidade para trabalhar numa organização.
Ao entrar numa organização não seria melhor deixar de lado certos hábitos da vida de adolescente? Migrar para um mundo mais corporativo, onde a imagem que você passa de você mesmo conta muito? E como se alcança a maturidade mínima necessária para interagir nesse mundo do trabalho?
Primeiro acho que é importante lembrar que parte desta meninada que está no Orkut nunca trabalhou. E tenho a nítida sensação que, por isso mesmo, esses jovens se sentem perdidos sobre que postura devem adotar.
Mais antigamente, as sociedades utilizavam certos “ritos de passagem” para marcar momentos de transição de postura, como no caso da vida adolescente para a vida adulta.
Alguns ainda mantemos. Quando a gente se gradua, por exemplo, não tem lá aquela cerimônia chata de formatura, cada vez menos valorizada (o que vale mesmo é o baile!), onde a gente recebe o canudo e nos dizem que a gente agora é adulto e precisa agir como tal? A garotada acha isso chato e sem sentido. Pois é: isto é um rito de passagem que conservamos.
Os mais novos não sabem disso, mas antigamente, os meninos usavam calça curta. Não era bermuda, não! Era calça curta. E não estou falando de tanto tempo atrás. Meu marido nasceu em Além Paraíba, Minas Gerais, e odiava usar “calça curta”. Calça comprida era coisa de homem. Quando Dona Orcélia, minha sogra, deixou que ele usasse calça comprida, o sentimento de já ser um homem lhe dava um orgulho danado. Dona Orcélia diz que quem usava calça curta era moleque. A vizinhança comentava quando um moleque deixava de ser criança para tornar-se um homem!
Da mesma maneira, na religião judaica, há o Bar-Mitzváh. Quando o rapaz completa 13 anos, realiza-se uma cerimônia para marcar este momento. Mas o que isto significa é que ele, a partir de então, é considerado um homem e pode até ler a Toráh, o livro sagrado dos judeus. Mas 13 anos não é cedo para ser um homem? Sim, mas é bom lembrar que este rito data de uma época em que o expectativa de vida era menor.
O próprio casamento é um rito. Não é só uma festa. Porque as mães (principalmente) choram tanto? Porque seu “bebê” agora vai ter uma nova casa, criou asas e começa o seu vôo com uma parceira. Na verdade o rito de passagem é para toda a família. Para os pais, é o momento de se dar conta de que seus filhos definitivamente não são seus: são do mundo e é para o mundo que os criam!
Mesmo nas tribos de índios (nos Ianomanis por exemplo) quando a indiazinha ficava menstruada, ela deveria ficar reclusa até a próxima lua e quando saía, estava pronta para casar.
Todas as culturas têm ritos de passagem. Cada religião tem seus ritos.
A Wikipedia define ritos de passagem como celebrações que marcam mudanças de status de uma pessoa no seio de sua comunidade. Os ritos de passagem podem ter caráter religioso ou ser pontos de desprendimento.
Nesses novos tempos, os ritos foram perdendo o seu significado primário, passando a representar meramente um evento social.
Mas o rito é importante! Ele ratifica os valores e princípios de uma sociedade, te faz “pertencer”a uma comunidade, a ser reconhecido dentro dela. Reafirma, portanto, sua identidade como indivíduo dentro de uma comunidade.
E o que que isso tudo tem a ver com os jovens participando dessas comunidades?
Tem tudo a ver.
Nossos jovens já não passam das “calças curtas” para as calças compridas. Começam a estagiar/trabalhar sem nenhum rito que lhes tenha transmitido, passando-lhes a noção de que são adultos. Assim, ainda fazem uma grande mistura entre a vida adolescente e a vida adulta. Como querem, de fato, viver ao máximo essa adolescencia que lhes dá tanta satisfação, não tem nenhum interesse nessa conscientização do rito vivido.
Acredito que tenhamos, como pais e educadores, um papel fundamental na educação deles, mostrando esses momentos de passagem, não com uma festa, mas com a seriedade que isso requer.
Caso contrário, a empresa terá que fazê-lo.
Mas, lembrem-se: é muito mais fácil, quando há um grande número de candidatos para uma posição na organização, admitir pessoas que já viveram o rito de passagem, e percebem-se adultos.
Aqueles que continuarem a agir como adolescentes, têm uma chance muito menor na árdua batalha por um lugar ao sol nas organizações.





Eline,
Amei o texto! Realmente acho que faltam esses ritos de passagem, que dão noção de crescimento e principalmente de RESPONSABILIDADE para os mais jovens.
Às vezes acho que sou uma Y pela metade porque acho esses ritos, ditos ultrapassados, fantásticos. Acho não só bonito como importante aquelas “bobagens” de festa de 15 anos, formatura, casamento e o reconhecimento pela conquista de um emprego ou por uma meta ou sonho alcançado.
E como vc mesma disse, a família é o principal pilar para manter essas tradições e passar o valor que elas têm.
Bjs!!!
Concordo contigo, Lili. Todos somos responsáveis pela manutenção dos ritos. De comemorar, de refletir nesses momentos de mudança ( e de curtir as festas também) que devem ser respeitados pelos Baby Boomers, pelos pais, pela escola, pelas comunidades às quais pertencemos. E nenhum desses ritos é bobo ou inadequado. Nada do que a gente pensa ou faz podem ser bobos, porque nós não somos bobos.
Acho que estamos esquecendo de comemorar, num momento talvez complicado, de tanto desafio para arrumar emprego, para manter uma empresa lucrativa, para lidar com parentes desempregados, com doenças e pandemias.
Vamos fazer a campanha pró-ritos!
Se cada um de nós fizer a sua parte, aos pouquinhos, podemos criar adultos mais responsáveis, mais maduros e tão felizes quanto já eram!
Um beijo,
Eline
Concordo!… mas qual será o motivo de que não gostamos ou não damos tanta importância aos ritos de passagem? O que gerou isso na minha mentalidade? QUem o ou o que é o culpado? Acho curioso o fato de eu querer sim me tornar um adulto e estar me casando em breve, e me sentir estranho quando percebo que ao mesmo tempo que tenho prazer na leitura de livros acadêmicos, tenho prazer em jogar meu video-game! Mas eu quero sim me tornar um adulto!
Eline, esse texto foi incrível! O pior é que me pôs a meditar, e quando começo a pensar, dou a escrever mais que o próprio autor, rsrsrs. Então vamos lá…
Tenho a impressão que de uns tempos para cá a geração Y e as mais novas estão sofrendo com uma distorção entre o tempo do desenvolvimento corporal e do comportamental. Não sou muito antigo, tenho 35 anos, mas parece-me que a própria disciplina imposta, o gerenciamento da nossa mesada (que quando passei a receber, me senti um passo mais responsável), o tempo certo para se inscrever no Tiro de Guerra e poder dirigir um carro (hoje dirige-se facilmente mais cedo do que o permitido pela lei), o menor acesso a uma namoradinha (conquistar um beijo na boca já era coisa de adolecente conquistando o status de “jovem”), e outras etapas que iam nos mostrando sinais de avanço como pessoa.
Hoje as coisas acontecem num tempo muito mais curto e diferente. E mais uma vez vou atribuir isso ao menor contato com os pais com menos tabus e disciplinas impostas. Veja alguns aspectos da sociedade moderna: o acesso e a conquista do sexo ocorre muito prematuramente; a conquista de um cartão de crédito com direito a gastos sem prestação de contas já é uma realidade; o acesso prematuro e deliberado à bebida alcoólica já é uma condição para fazer parte da roda de amigos; outras libertinagens disponíveis muito facilmente através da facilidade para ir e vir sem o acompanhamento de um adulto; e até o novo perfil pedagógico que prega coibir a repressão das crianças (que no meu tempo se chamava “disciplina”), que os transformou em verdadeiros “donos da verdade” nas escolas, colocando o professor numa condição desconfortável de quem não tem mais o comando sobre esse bando de “falsos independentes”.
Diante disso, a cultura e a sociedade podem ter aumentado a velocidade de acesso à condição aparente de “maturidade” das crianças, coisa que em suas mentes e no seu desenvolvimento corporal não é fato. Com isso, mesmo parecendo mais maduros, ainda apresentam alguns traço infantis relacionados à sua idade mental, que não percebeu em qual momento ocorreu a sua passagem para o próximo estágio. Daí aparecem os adultos participando de comunidades infames e agindo de forma infantil para uma pessoa dessa idade. Pessoas com baixo nível de comprometimento conjugal e familiar, que não medem consequências a médio e longo prazo (por isso muitos que se casam não estão preparados para o compromisso, e aumentam muito cedo a lista dos separados, o que gerou uma emenda de lei criando uma nova categoria menos burocrática e de fácil dissolvição: os que vivem “maritalmente”). Ocupam responsabilidades de adulto mas suas mentes ainda agem (em certos momentos) como crianças, como consequência de uma idade não vivida na íntegra, e de uma maturidade adiantada devido as facilidades proporcionadas pela nova sociedade. Daí vem a frase poética de que para ser feliz devemos ser “eternamente crianças”, confrontando com a parábola bíblica que diz “há tempo para toas coisas; tempo de agir como criança e tempo de deixar de agir como criança”. O Stress, um dos maiores males da sociedade moderna, nada mais é do que a imaturidade, o despreparo emocional para se administrar os conflitos da vida adulta. E a geração Y é sua maior vítima, não por coincidência…
Em resumo Eline, concordo com absolutamente tudo o que escreveu, e veria com satisfação uma revisão dos valores da sociedade e dos ritos de passagem para cada estágio da vida. Grande abraço!!
Adriano,
Adorei a frase “Há um tempo para todas as coisas! Tempo de agir como criança e tempo para deixar de agir como criança”.
Para ser responsável, vestir a calça comprida, sentir-se adulto, sem perder a leveza dos momentos de criança, que devemos preservar.
Há um tempo para semear e um para colher. E somos em grande parte responsáveis por não prepararmos a família para cada fase da vida, por culpa ou por desconhecimento das consequências do exagero na liberdade. E todo exagero não é bom!
Acho até que a vida da sociedade é um pêndulo e vamos encontrar um “meio do caminho” . Vejo a garotada querendo casar, nos padrões tradicionais, por valorizar o rito de passagem da noiva, agora mulher de verdade do seu companheiro. tomara que seja assim Tomara que possamos retomar certos ritos!
Obrigada por contribuir! suas contribuições são sempre ótimas!
Um beijo,
Eline
Concordo, mas em parte.
Os ritos de passagem são importantes, mas não só eles determinam o crescimento de alguém. O crescimento é progressivo e constante, sendo ilustrado em um rito de passagem.
Já em outro sentido, discordo totalmente do RWong. Creio que um adulto pode e deve gostar de video-games. Isso não o torna menos adulto. A diferença agora é que o video-game não é mais sua prioridade.
Pra mim, ser adulto é ter consciência do mundo como ele é, não agir de acordo com o que é esperado.
Isso é uma coisa que os Xs e BabyBommers devem aprender: video-game não é coisa de criança só pq nós Ys jogávamos quando crianças. O video-game é o cinema do futuro, e todos os Xs e BBs vão ao cinema.
Achei o tema, no mínimo, interessante… vale um post no meu blog.
Marcelo,
Que bom que vc escreveu! Tenho olhado seu blog! Ele é muito bom!
Concordo contigo que video game é jogo para todas as idades. O problema não é o jogo em si, mas o tempo dispendido em cada atividade, certo?
Não acho que ele seja o futuro do cinema, mas pode haver uma interconexão entre cinema e video-game no futuro.
E não se esqueça de que o rádio não sumiu ou se fundiu com a TV, que a TV não eliminou o teatro, nem o cinema. As coisas convivem.
O que todos precisamos entender é que temos muito a aprender com cada arte, assim como temos a aprender com cada artista, com qualquer geração. Todos vão ensinar a todos. E todos têm dificuldade e encarar o fato de que não sabem tudo!
Mas escreva o post sobre o cinema no futuro. Tô doida pra ler!
Beijo,
Eline
Eline, muito importante essa reflexão que você levanta. Adorei ler esse texto e digo que concordo que os “ritos de passagens” são importantes e ajudam a cristalizar mudanças subjetivas nas nossas vidas, sejam crianças ou adultos.
Um abraço,
Angelina
Oi, Angelina,
Que bom que você gostou da visão sobre os ritos de passagem!
Eu os acho essenciais, embora algumas pessoas os considerem bobos
Eles nos clarificam e tangibilizam o nosso crescimento!!!
E os nosso jovens precisam disso. Aliás, todos precisam!
Beijo,
Eline