
Por Eline Kullock
Assisti a uma palestra do Mario Sergio Cortella, filósofo e educador de quem gosto muito. Ele fala umas verdades que doem, mas que pedem ação em relação ao mundo que queremos deixar para nossos filhos.
Eu já fiz um post sobre o conceito de velocidade, que é diferente para as diferentes gerações. Quando conto pra eles que eu, quando morava em Londres, na minha adolescência, quando o custo de uma ligação era muito alto e eu tinha que apelar para a comunicação via carta, isso já é motivo pra risadas. Quando conto que, se quisesse saber uma notícia do Brasil eu tinha que escrever uma carta que demoraria cerca de 20 dias para chegar ao seu destino e mais 20 dias, em média, para retornar, a situação parece absurda. Imaginem se eu quisesse saber se uma festa foi boa? Perguntaria isso numa carta e quarenta dias depois, teria alguma notícia sobre a tal festa, que a esta altura, já não era mais importante. Quando explico isso nas palestras que faço, a geração Y não consegue entender como vivíamos naquela “era”.
Também falo sempre que, quando numa organização comentamos: “Precisamos resolver isso rapidamente”, esta frase é interpretada de acordo com o modelo mental de cada um. E, para os jovens, velocidade é outra coisa. Como perto e longe, alto e baixo são adjetivos que interpretamos de acordo com nossas vivências.
Mas na palestra do Cortella uma coisa mais me chamou a atenção.
Ele falou, a partir de sua experiência de um homem nascido no interior do Paraná, do processo das famílias que se reuniam para a preparação da tradicional pamonha.
Muita gente viveu este processo de organizar a família em torno da atividade “preparar pamonha” e todos os que conversei depois disso, me explicaram a vivência de algo confuso, que envolvia a família toda e que demorava praticamente o dia inteiro. Mas a memória afetiva dessa atividade me pareceu ser sempre boa. Como nasci e fui criada no Rio de Janeiro, não tive essa experiência enriquecedora.
Mas o que me chamou a atenção na fala de Cortella é que a geração Y não conhece mais esse processo. Não compreende o que é fazer comida nem qualquer outro processo. Comida se compra no drive-thru ou na pizzaria, e chega em, no máximo, 10 minutos. E está tudo resolvido.
A carrocinha da pamonha passa e oferece pamonhas prontas. E a pamonha, também entrou no drive-thru!
Cortella falava de uma sobrinha que veio morar em São Paulo e disse pra ele:
- “Tio, já sei cozinhar”.
- “Puxa, que bom! O que você já sabe fazer?”
- “Miojo!”
Para os jovens, em nosso processo de tornar o mundo mais rápido, tudo se resolve em poucos minutos. Explicar pra eles que a terra precisa ser germinada, arada, cultivada, com um razoável período de espera para que aquilo que desejamos talvez frutifique cria uma certa angústia.
Isto me lembra quando um parente que veio da Alemanha almoçou na minha casa e adorou o purê de batata. Ele imediatamente perguntou:
- “Qual a marca do purê?
- “Não entendi a pergunta”, respondi.
- “É uma pergunta simples: quando você vai ao supermercado, como escolhe a marca do purê?”
Ah… só aí eu entendi. E pra convencê-lo de que o purê era feito amassando a batata e peneirando a massa algumas vezes, levou um tempo. Meu convidado estava incrédulo. Esse era um processo. Não dava pra comprar no supermercado. Bom, isso foi há alguns anos. Hoje já se pode comprar purê de batata em pó. Mais uma vez, estamos fazendo com que os jovens não compreendam o processo.
Tudo é instantâneo, tudo é super rápido. Tudo é drive-thru.
Como vamos explicar a eles que produzir um remédio leva tempo, que entrar com um produto novo no mercado leva tempo, dinheiro e muita angústia?
Já ouvi, numa palestra, um jovem que queria sair de uma empresa porque ela estava engavetando seus projetos. Perguntei durante quanto tempo o projeto estava sendo engavetado, para escutar:
- “Três meses”.
Pra se construir uma família, um time, uma empresa, um prédio, leva-se tempo. Os jovens da geração Y estão sendo preparados, nas organizações e na vida, para o significado real desse conceito antigo chamado “tempo”?
Espero que, depois das decisões tomadas como num drive-thru, não me venham com a frase do Millor Fernandes: “Chama-se de decisão rápida nossa capacidade de fazer besteira rapidamente.”





Eline, bom dia!
Primeiramente gostaria de parabeniza-la pelo Blog. Sou um jovem da Geração Y, recém-formado, e já passei por esse dilema sobre o tempo algumas vezes, principalmente no trabalho. Realmente fomos criados em uma atmosfera onde tudo acontece rapidamente, e ficamos frustrados quando não vemos o resultado aparecer. O auto-conhecimento é a melhor forma de trabalhar essas nossas “dificuldades”, pois só assim seremos capazes de entender o motivo de tanta ansiedade e vontade de “mudar o mundo” da noite pro dia.
Um abraço,
Lineu,
Excelente colocação! “Speed” pra mim parece uma palavra que transmite mais do que velocidade. O auto-conhecimento não é fácil. As pessoas ainda tem dificuldade de “serem normais”e aceitarem suas próprias dificuldades. Assisti uma palestra em Porto Alegre de um professor Canadense ( Prof. LaPierre) onde ele falava sobre a aceitação dos “LÍDERES” ( portanto, teoricamente, mais amadurecidas) como pessoas que tem deficiencias pessoais. Isso é normal, mas as pessoas, de uma maneira geral, tem muita dificuldade de aceitar suas incompletudes. Acho que os jovens, ainda criados por seus pais com tantos “elogios”, com tanto reforço sobre o “yes, we can”, vão ter ainda um pouco mais de dificuldade em aceitar que são normais, tem pontos a aperfeiçoar e pontos muito fortes. Não precisamos ser perfeitos. Nunca seremos. Essa idéia ainda é uma idealização “infantilizada” que todos temos. Todos temos altos e baixos, não achamos respostas e caminhos, de vez em quando.
Quando isso for mais fácil de entender, os jovens vão se aceitar melhor.
Mas estou completamente de acordo com o que você disse: auto-conhecimento! Conversas, reflexões, ver o elefante por todos os ângulos. Essencial!!!
Obrigada por ajudar!
Beijo,
Eline