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“O mundo que deixaremos para nossos filhos depende dos filhos que deixaremos para o nosso mundo”

Cortella 4

Por Manuela Noronha
Imagem: Celso P. Menezes

“Não nascemos prontos”. A frase, que dá título ao livro e serve de base para o discurso do educador Mario Sérgio Cortella (diga-se de passagem, com muita propriedade) parece ser o contraponto ao momento de pressa generalizada que vivemos hoje. Em especial no que diz respeito ao comportamento das gerações mais novas.

Em entrevista concedida ao Blog Foco em Gerações, o professor aborda a diferença entre as gerações, indica possíveis cenários para um futuro com líderes da geração Y e como essa questão deverá interferir na dinâmica de organizações e da sociedade como um todo.

Ex-secretário municipal de Educação de São Paulo e professor da PUC-SP, Cortella fala sobre como a ausência ou a presença dos pais pode ser decisiva na formação da personalidade dos filhos e critica a inversão de papéis entre família e escola, além de questionar a visão de futuro de grande parte dos jovens criados na “era tecnológica”.

Confira na entrevista.

Por que os jovens da geração Y são diferentes de outras gerações? Em que são diferentes?
Temos hoje dois grandes blocos que convivem no mesmo território: os nativos digitais, que têm menos de vinte anos de idade, e os imigrantes digitais. Eles não têm a mesma percepção sobre o tempo e sua vivência. Pelo fato de terem sido criados imersos numa tecnologia que fez o mundo espontâneo e simultâneo, os nativos têm uma noção acelerada de processos e a percepção, aprendizado e modo de agir, que difere dos mais velhos. Essa é a razão de, vez ou outra, esses territórios entrarem em conflito.

O senhor diz que as famílias não se juntam mais na sala, cada um vive no seu quarto, não havendo mais convivência familiar. Como isso impacta no desenvolvimento da personalidade das crianças?
Devido à competitividade, à necessidade da inserção da mulher no mercado, das distâncias entre moradia e trabalho nas grandes cidades, houve na sociedade ocidental uma diminuição significativa no tempo de convivência entre crianças e adultos, que não compartilham mais uma série de valores antes trabalhados.

O fato dos pais se ausentarem, seja por necessidade, seja por não darem prioridade a essa relação, faz com que adiem ainda mais a ida para casa e argumentem que precisam ficar mais no trabalho, evitando assim um encontro e o dispêndio de energia que terá de ser feito. O que mais prejudica é que, quando encontram seus filhos, os pais querem compensar a ausência com o atendimento de seus desejos, acarretando no jovem a distorção entre desejo e direito. Eles não criam um processo de conquista, já que recebem coisas instantaneamente.

Esta geração também não acredita que a escola possa ensinar coisas importantes a serem utilizadas no mundo que chamam de “real”. Por que isso acontece?
Essa geração adora a escola, pois é um local de encontro e uma experiência sócio-cultural insubstituível. Uma parte do conteúdo escolar é que parece ultrapassada ou extremamente datada para esses jovens, ao contrário de antigamente, quando a escola era quase que fonte exclusiva para acesso ao conhecimento letrado. Hoje há uma multiplicação de fontes de informação tornando-a apenas mais uma. Por outro lado, ela também é o lugar adulto que costuma dar ordens e, como uma parte dos jovens não fica mais com a família no dia a dia, a escola será quase que o único espaço para a convivência com adultos. Aí será de fato um confronto, já que em casa, na maioria das vezes, os pais não conseguem dar uma constância de presença, tornando isso papel da escola.

Os professores estão perdendo a auto-estima e não sabem como lidar com essa realidade. Isto pode ser revertido? Como?
Houve um debate com pais e filhos na escola, e um dos pais perguntou: “Professor, como podemos ajudar a escola na criação de nossos filhos?” Há um equívoco nisso. Não são os pais que têm que ajudar na educação dos filhos, é a escola que colabora com as famílias nesse processo. A escola não faz educação, faz escolarização, e isso não deve ser confundido. A convivência rarefeita na relação familiar leva que o território escolar seja palco de conflitos que não têm a sua causa exclusivamente dentro dele. Por isso é necessário parceria entre escola e família para cuidarmos dessa geração, pois como sempre digo, eles não nasceram prontos.

Se a família não pode mais ensinar (principalmente tecnologia) o jovem não tem mais o mesmo respeito pelos pais como no passado. A escola também não faz mais esse papel, nem a religião. O que vai impactar na forma como o jovem vê o mundo?
Uma parte dos jovens hoje tem uma visão extremamente limitada ao cotidiano, e isso é um perigo, pois pode se transformar numa obsessão por viver exclusivamente o hoje, aproveitar cada dia como se fosse o último, fazendo com que esse jovem perca a visão de futuro, a perspectiva de planejamento. Tanto a família quanto poder público, assim como a religião, a escola e os meios de comunicação devem produzir situações educativas nas quais se trabalhe a necessidade de pensar, de planejar. A família deve criar situações para que eles possam ter noção de processos, como cozinhar juntos e jogar, por exemplo. Aliás, o melhor ponto de partida para um diálogo com o jovem é pedir auxílio no uso de tecnologias; eles adoram ensinar e inclusive se disponibilizam a aprender com os pais.

No vídeo “Did You Know”, vemos que o conteúdo para um jovem em idade escolar muda a cada dois anos, em função das descobertas, da tecnologia, etc. O papel da escola é ainda ensinar um conteúdo ou ensinar a buscar respostas?
Buscar as respostas é uma tarefa do próprio jovem, afinal a tarefa da educação é a construção da autonomia dos indivíduos. Por outro lado, uma escola hoje precisa oferecer três grandes contribuições: sólida base científica, formação crítica de cidadania e uma concepção de solidariedade social. E desse ponto de vista é preciso não confundir informação com conhecimento. As tecnologias oferecem informação, mas cabe à escola ensinar o jovem a ter critério de seleção para transformar informação em conhecimento.

Você disse em uma de suas palestras que o tempo de atenção concentrada de um aluno mudou de 50 minutos para sete minutos. Como é possível ensinar nesse pequeno espaço de tempo?
A questão não é ensinar em sete minutos e sim criar mecanismos de fixação de atenção que driblem a distração. O jovem, quando joga um game, assiste a um show, fica horas e horas concentrado. É preciso criar portas de entrada para o campo de interesse deles; estabelecer pontes com esse mundo que o jovem vive.

Como será a empresa do futuro baseando-se nessas premissas de que o tempo de atenção concentrada é menor, de que o conhecimento se renova rapidamente, sabendo que estes jovens estarão chefiando equipes e dirigindo países com esta formação, num mundo mais acelerado ainda?
A empresa que tem inteligência estratégica é a que consegue formar as pessoas mostrando a elas que pressa não é sinônimo de velocidade. É preciso estruturar com o jovem que vai atuar na empresa a noção de ritmo, de senso de urgência, de competência, que se constrói também com tempo. A liderança bem sucedida será aquela que imprimir um ritmo de conseguir o melhor, num menor tempo e com custo mais baixo.

Como a organização que está contratando trainees pode lidar com essa realidade? Como deve prepará-los para o mundo real?
Prestando atenção em tudo o que dialogamos até agora, caso contrário ela não conhecerá com quem ela vai atuar. Prestar atenção nessa diferença de gerações, tendo isso como ponto de partida.

Sabemos que essa geração é mais autoconfiante, impaciente, tem baixa lealdade à organização, tende a ter baixa resistência à frustração e dificuldade em receber feedback negativo, já que não o recebem de seus pais. Como as organizações devem lidar com isso?
Tanto adultos quanto crianças precisam se acostumar a receber feedback negativo. Por esse motivo as empresas, quando vão organizar estrutura de avaliação, devem preparar as pessoas de mais idade. Nós, humanos, não admitimos ser corrigidos. Desse ponto de vista não é algo só do jovem. No entanto, essa geração, exatamente pela ausência de adultos para orientá-la acaba tendo uma reação exacerbada a isso, e o melhor meio é trabalhar a humildade e mostrar que nenhum de nós sabe tudo. O único modo de fazer isso com o jovem é mostrar a ele que tanto a competência quanto a incompetência vêm à tona. Formar pessoas é ser capaz de prepará-las para ouvir também o que não desejam

Como o senhor acha que esta geração vai educar seus filhos?
Se não prestarem atenção nessas mudanças, essa geração que agora educa e aquela que está sendo educada terão uma ausência de futuro alegre e digno. É preciso que essa geração compreenda que o mundo que deixaremos para nossos filhos depende dos filhos que deixaremos para ele, isso vale para todos. O jovem que perde a referência dos pais precisa construí-la em outros locais, por isso lê mais sobre isso, se comunica sobre isso nos blogs, faz isso no Orkut, Twitter, ou seja, cria uma comunidade de auto-apoio para não ficar perdido no futuro.

No seu livro “Não nascemos prontos”, você fala do processo de formação da criança, que se dá aos poucos, o que, aliás, é papel dos adultos. Depois, no livro “Qual a sua obra” você volta às inquietações sobre o mundo moderno. Mas com a realidade de tempo e pressão do cotidiano das pessoas, estes pais podem estar pouco tempo com seus filhos. Quais os caminhos, então?
Prioridade. Pais e mães precisam ter esse tempo de convivência e formação como prioridade. Quando eu digo que não tenho tempo de conversar com você, estou dizendo que você não é minha prioridade. O meu dia tem 24 horas e continuará tendo, o tempo não vai se perder, por isso pais e mães precisam fazer um esforço adicional para isso, senão terão que despender futuramente um tempo muito maior para recuperar aquilo que descuidou. A mesma coisa deve acontecer do lado do jovem.

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One Response to “Entrevista com Mário Sérgio Cortella”

  1. Joäo e Odete disse:

    Otimo!!!!!

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