
Por Eline Kullock
Hoje eu não venho com respostas. Eu venho aqui com perguntas.
Tenho escutado muita gente se queixando que os jovens não têm mais o mesmo respeito que as outras gerações tiveram. Nem com os pais, nem com os mais velhos, nem com os professores.
Nas gerações anteriores, sabíamos que nossos pais davam um duro danado pra possibilitar um mundo melhor aos filhos. Nossos professores (havia uns que eram malucos, eu sei) faziam de tudo para tornarem a aula mais interessante. Nossos avós (pelo menos os meus) teimavam em nos ensinar a costurar, achando que isso seria muito benéfico nas nossas vidas e, de um jeito ou de outro, a gente fugia dessas aulas, mas fugia com um certo carinho. Para não magoá-los, claro. Sabíamos que este sentimento de afeto existia, e que aquilo que eles queriam nos ensinar nós não considerávamos adequado.
No Filme “Va, Vis e Deviens” que aqui já citei, uma mãe abre mão de seu filho sabendo que não tem condições de dar-lhe vida, entregando-o para outra mãe. Este menino vai viver em Israel, mas não esquece a mãe abnegada. E, já formado, volta para buscá-la na Etiópia.
Existe gratidão, existe reconhecimento, existe carinho e amor na atitude desta mãe ao entregá-lo para que ele seja capaz de tornar-se alguém e existe este mesmo sentimento no rapaz que volta para buscar essa mãe no meio de um campo de refugiados, na dor e na solidão, a espera de seu filho. Este filme me emociona sob vários aspectos e talvez seja por isso que me refiro a ele pela segunda vez na história do site.
Mas a emoção a que me refiro neste post está na dedicação da mãe e na sua certeza de que ele voltará. Como volta, numa das cenas em que choro mesmo que assista ao filme um milhão de vezes.
Eu me pergunto se, hoje em dia, quando os jovens acham que seus pais não fazem mais do sua obrigação ao lhes dar o último modelo do computador “x”, o último modelo da TV “y”, o carro que eles mesmos não tiveram ao completar 18 anos (eu ganhei um fusca usado aos 18 anos e lambi os beiços e o carro todo!) qual o sentimento que falta nesta cena.
Quando os pais providenciam para seus filhos semanas de férias, viagens ao exterior, em hotéis que eles nunca estiveram, em lugares onde eles próprios nunca estiveram, entregando-lhes junto os dólares que guardaram, com o coração florido por conseguir essa façanha, eu me pergunto como os filhos recebem esse presente. Aliás, talvez o adequado seja dizer que eles encaram como um simples presente: “Não é mais do que sua obrigação”. E, quando voltam, os recebemos cheios de perguntas e carinhos: “Como foi a viagem?” para receber dos filhos a enorme frase que não caberia no Twitter: “Ah…normal”!, para desespero nosso, que queremos saber detalhes.
Onde foi que a história mudou e por qual motivo? Em que o reconhecimento passou a ser mercadoria escassa? O que mudou na sociedade ou na forma como educamos nossos filhos para que eles não percebam o quanto estamos tentando fazer o melhor de nós?
Tenho dois filhos. André, o mais novo, agora com 25 anos, me fez rir muito quando, aos 7, me entregou um bilhete dizendo :
“Mãe, agora você não me trata mais como ouro. Você me trata como um simples filho”.
Tenho este bilhete até hoje e guardo o papel dizendo que um dia, vou entregar essa preciosidade para os filhos dele!
Daniel, meu filho mais velho, hoje casado com a Elô e pai da minha neta, sente na pele quando o sentimento de frustração quando ele quer beijar a filha e ela diz: “Agora não, papai. Tô ocupada”.
Quero ajuda para entender onde e por qual motivo o mundo foi mudando na forma dos jovens perceberem como seus pais lhes dão amor de várias maneiras. A minha pergunta é: os pais não acham que não lhes dão o suficiente, pela culpa de estarem longe trabalhando? Não expressam seu amor como antes? A escola não discute esse assunto com seus jovens? Por qual motivo? Este vínculo de amor está mais enfraquecido, na sociedade atual? É tudo obrigação?
Se eu conseguir entender essas questões que, sei, não são de fácil explicação, então talvez possa falar com as organizações sobre a forma de lidar com este sentimento generalizado da geração Y (sempre há exceções, eu sei) de que o mundo está aí mesmo para serví-los.
E, talvez então, possamos prepará-los para um mundo em que nada é, de fato, dado de graça. Mesmo na sociedade da colaboração. Mesmo no modelo Wikinomiks. Mesmo com grandes amigos. E, na organização, por mais que isso doa nos ouvidos das áreas de Recursos Humanos, a competição é ferrenha.
Mas o sentimento de gratidão, de afeto, de amor, de poder colocar-se no lugar do outro, de sentir o sentimento do outro, é o que nos prepara para interagirmos com o mundo. Se isto não for entendido, seremos todos autistas, num mundo de 6 bilhões de pessoas sozinhas, sem a capacidade de construir alguma coisa pelo grupo, pela sociedade, pela família, pelos seus próprios filhos.





Magnífico questionamento. O cenário está ai para quem prestar a atenção. Me atrevo a especular um dos caminhos necessários:
Reconstruir as pontes de comunicação que foram destruídas pelas gerações. De um lado da “ponte” as gerações mais “clássicas”( babyboomers e X ) devem sair da postura de julgamento e reprovação e se adaptar as novas linguagens e mecanismos que assumem prioridades para os jovens, afinal, eles tem muito mais recursos, mas precisam de ajuda para ter foco em seus próprios potenciais. Do outro lado da “ponte” a Geração Y, deve abandonar a atitude arrogante diante da “lentidão” dos mais velhos e reconhecer o valor do esforço que foi feito por eles, para que os jovens tivessem todas as possibilidade e condições que experimentam hoje. Se o mundo é muito mais dinâmico, se eles são muito mais informados e capacitados, devem olhar para frente e fazer melhor para a próxima geração. A Geração Y deve FAZER POR MERECER.
Sidnei,
Excelente colocação a tua! Acho isso mesmo! O que começa a existir é um pré-conceito de cada geração, que já dificulta o relacionamento e a aceitação das diferenças. Conviver com as diferenças é bonito e, no final, ninguém é perfeito, todos podem aprender com os outros. Nenhuma das gerações deve julgar as outras, mas entender seus modelos mentais e lidar com a diferença de modelos!
Obrigada por contribuir,
Um beijo,
Eline
Gostei muito do post e apesar de ser da Gen Y, acredito que tenha um pouco de X em mim! rs
Percebo, entre as pessoas que convivo, que existe um sentimento de onipotência incrustada na Gen Y, que acham que seus pais têm que dar tudo e mais um pouco e que sempre estão, apenas, cumprindo com suas obrigações. Porém, também percebo a conivência de muitos pais com essa situação (claro que estou generalizando, e que existem excessões).
Acredito que os dois lados da história tenham suas responsabilidades, pois é na educação que construímos os alicerces que no futuro resultarão na pessoa madura.
Abraço!