Por Eline Kullock
Dar-te-ei uma retwittada? A mesóclise, assim como outras lições que aprendemos na aula de língua portuguesa, não se usa mais. Pelo menos não na linguagem falada pelas nova geração que, aliás, é citada por aí como uma turma que não sabe usar corretamente a gramática. E mais: dizem que o jovem vem escrevendo cada vez menos e pior, graças às abreviações e sintetizações de idéias exigidas pelo uso das redes sociais. A justificativa é que o Twitter fez com que eles não conseguissem pensar em parâmetros que ultrapassem seus 140 caracteres, que o PowerPoint reduziu o ponto de vista ou a defesa de uma tese a um título e uma imagem e, da mesma forma, que o Facebook e o Orkut não estimulam o desenvolvimento do raciocínio
Contrariando esse senso comum, me chamou a atenção uma reportagem da Wired
A matéria comenta a pesquisa da professora de Redação e Retórica da Stanford University Andrea Lunsford, cuja conclusão é que a geração Y lê e escreve tanto quanto as outras. Para provar sua tese, ela desenvolveu um estudo com 14.672 estudantes, coletando trabalhos, ensaios, textos de jornais, e-mails e blogs, entre 2001 e 2006. Para ela, apesar de estarmos no meio de uma revolução na forma de escrever, a tecnologia não está destruindo a nossa habilidade de expressão e comunicação. Ao contrário!
A primeira conclusão da professora é que a geração Y está escrevendo muito mais do que as outras gerações, justamente pela interação on-line, que exige escrever o tempo todo. Ela argumenta que, antigamente, estudantes escreviam basicamente em função de sua escola, mas nunca fora dela. Hoje, apenas 38% do que é escrito por esta geração está relacionado à escola. E no trabalho, essa funcionalidade era mais exercida por profissionais das áreas de Direito e Comunicação.
A discussão analisa ainda a retórica desta geração. Fui à Wikipédia entender retórica, que é descrita como a técnica (ou a arte, como preferem alguns) de convencer o interlocutor por meio da oratória ou outros meios de comunicação. Andrea e seu time explicam que a geração Y é completamente preparada para argumentar no momento certo, o Kairos*, em vez de uma explicação teórica.
Em resumo, a educadora conclui que a geração mais jovem está absolutamente preparada para argumentar adequadamente com seu público, no tom do seu interlocutor, graças exatamente aos chats e e-mails. Pelo fato da geração Y escrever para uma audiência específica, numa linguagem direta, faz com que seu estilo seja mais adequado para expor seus pontos de vista, procurar convencer o outro de seus pensamentos. Para os pesquisadores, boa escrita é a capacidade de persuasão, de organizar um pensamento e de debater. Então, pra quê serve a mesóclise?
Os professores de Stanford chegaram a uma outra conclusão: no passado, escrevendo especificamente para atender a uma necessidade da escola e dos professores, esta capacidade não era desenvolvida pelos estudantes.
O que Andrea argumenta é que as gerações mais velhas classificam a escrita como “boa” ou “ruim”. Mas o que a geração Y avalia é se está se comunicando adequadamente com seu público e se sua mensagem escrita consegue transmitir seu ponto de vista.
Depois de toda esta análise sobre a maneira de escrever da geração Y, eu me faço uma pergunta: para quê serve uma língua? E uma linguagem?
A partir daí, amigos, uma enorme discussão se inicia. Me perguntarão onde fica a beleza e a poesia de cada língua. Me perguntarão se os jovens saberão conjugar os verbos nos seus tempos de forma correta, se saberão coordenar as orações, empregar adjuntos adverbiais, mesóclises, ênclises, redigir ensaios e textos, empregando o rico vocabulário brasileiro, inserindo os plurais corretamente, os coletivos, os advérbios de intensidade, as preposições e tudo mais que aprendemos, nós, Baby Boomers, a duras penas, no ginásio de nossas vidas.
Não sei responder a estas perguntas. Mas me pergunto se o estudo de Stanford, feito por Andrea Lansford e sua equipe, não deve ser levado em conta. Talvez eu esteja mesmo encontrando um certo “abrigo” no estudo, que me reconforta, ao menos, para compreender que meus filhos e netos não perderão a capacidade de argumentar, de contrapor, de expor seus pontos de vista.
Meus professores se revirarão no túmulo. Provavelmente minha mãe, que me corrige ainda hoje quando não emprego a forma adequada no uso da linguagem, me chamará de traidora da língua brasileira. Fico feliz em escutar alguém argumentando que a linguagem não morreu, que não vamos nos comunicar com grunhidos, com desenhos, com emotions. Gostaria de que um professor na área de retórica, e não somente de português, pudesse analisar o estudo de Stanford. O importante, nisso tudo é que a geração Y ganha um salvo conduto pra continuar escrevendo seus blogs, seus chats, com abreviações enlouquecidas, mas ciente de que não se perdeu no mundo como dizem seus pais e professores. Afinal, são nossos filhos, e temos que dar-lhes o crédito (e não “lhes dar o crédito”, já que o “advérbio de negação” não permite que o “pronome possessivo” se use antes do verbo) de que eles serão capazes de redigir, poetizar, criar e inovar na língua brasileira!
Pra terminar, eu queria citar a frase que mais gosto dessa geração. Ela me mostra como é possível ser criativo e irreverente com a língua brasileira:
“Ó o auê aí, ô!”
Que possamos lidar com todo o “auê” que vem por aí, sem baixar a auto-estima da geração Y.
*Kairos – καιρός – é uma antiga palavra grega que significa “o momento certo” ou “oportuno”. Os gregos antigos tinham duas palavras para o tempo: chronos e kairos. Enquanto o primeiro refere-se ao tempo cronológico, ou sequencial, esse último é um momento indeterminado no tempo em que algo especial acontece)





Levando em conta que a geração Y é formada por todas as classes sociais, uma vez que todos tem acesso à internet, não seria estranho encontrar pessoas que não sabem escrever com um orkut e, por quê não, com um blog! A grande diferença da geração Y para a geração pré-computador, é que antes os analfabetos não escreviam, hoje eles o fazem, ou tentam; por isso eu sou a favor de uma carteira nacional de habilitação para acesso à internet… Viva a inclusão digital!!
Excelente discussão. Coisa pra se pensar, uma vez que a língua é algo vivo, pode mudar. por que não mudar algumas coisas pra melhor nos comunicarmos?
O professor de retórica, sem dúvida élucidará a questão. Para um paralelo: um aluno especial, numa escola que se dizia inclusiva, não quis aceitar a forma que ele encontrou de se comunicar: digitando. Psicólogas, pedagogas, assistentes sociais….. toddas inconformadas com o insulto à lingua portuguesa.
cara estamos numa outra era! A revoluçção provocada pela era digityal é muito mais profunda do que podemos imaginar.
Eu, por ser professora de design me pego muitqas vezes questionando quando uma launa insite em desenhar diretamente no computador e nós, os baby boomers, não aceitamos .
estaríamos certo? será que é preciso o exerc´cio da mão? nesse ponto acho que sim, pois desenhar desenvolve a sensibilidade e issio é condição para se desenhar ou fazer design!!
E viva as novas formas de comunicação!!