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Imagem 1: Áreas do cérebro ativadas na leitura de um livro
Imagem 2: Áreas do cérebro ativadas numa pesquisa no Google

Por Ines Schinazi

A tecnologia está claramente modificando o modo como falamos, nos comunicamos, interagimos e nos relacionamos uns com os outros. Mas será que ela também está mudando nossos cérebros? É o que pensa o Dr. Gary Small. É lógico que a extrema plasticidade do cérebro não é novidade. Mas a expansão da influência tecnológica em quase todos os aspectos de nossas vidas é sim algo novo.

Dr. Small é um ilustre expert mundial em memória, envelhecimento e cérebro. Ele é atualmente diretor do Centro de Estudos da Memória & da Idade no Instituto Semel de Neurociências e Comportamento Humano, da Universidade da Califórnia, LA (UCLA). Seu livro mais recente é inteligentemente intitulado como “iBrain”.

A tecnologia contribuiu enormemente para tornar possível a pesquisa do Dr. Gary Small. De muitas formas, ela despertou seu pensamento.

Ele explica. “Foi realmente em minha vida pessoal, observando aquelas tecnologias, que senti que desejava entender isso melhor. Fiquei espantado pelo fato de haver tão poucos estudos focados na função cerebral, enquanto nossos cérebros estão usando essas novas tecnologias.”

Enquanto a tecnologia nos leva adiante, permitindo a alguém como o Dr. Small explorar essas questões, ela paradoxalmente nos retém.

Por meio de sua pesquisa, Dr. Small também revela o grande “gap cerebral” que ocorre entre os “digitais nativos” e os “digitais imigrantes”, afetando assim a família, o ambiente de trabalho, e a sociedade em escala maior.

Sua pesquisa, extremamente inovadora, esteve nas primeiras linhas dos jornais “The New York Times,” “The Wall Street Journal,” e “USA today”, entre outras publicações. A revista “Scientific American” o nomeou como um dos maiores inovadores do mundo em Ciência e Tecnologia.

Seu recente estudo na UCLA intitulado “Seu cérebro no Google” nos faz questionar se nossos próprios cérebros estão sob a influência do Google. Em uma entrevista exclusiva, Dr. Small compartilha alguns de seus pensamentos.

ScreenShot019Ines: Você pode contar um pouco sobre o estudo “Seu cérebro no Google” que fez na UCLA?
Dr. Small: Nós queríamos verificar como era a aparência do cérebro na primeira vez em que realiza uma busca online. Para isso, precisávamos encontrar pessoas (mais velhas) que fossem “nativas” na Internet. Aquela era provavelmente a parte mais difícil do estudo. Então, encontramos essas pessoas, e as conectamos com outras que tinham experiência em buscas pela Internet.

Nós as colocamos num scanner funcional MRI, no qual podemos medir a função cerebral de momento a momento.

Simulamos uma busca pela internet e a leitura de um livro no scanner. Descobrimos que, quando as pessoas buscavam online, havia um aumento em mais de duas vezes na ativação do cérebro. Concluímos que aquilo tinha a ver com as redes neurais percebendo como buscar online e mostrando uma melhor ativação.

Também descobrimos, e apresentaremos os resultados no próximo mês, que se você pegasse aquelas pessoas nativas em Internet e deixasse que fizessem buscas online por apenas uma hora por dia durante uma semana ou duas, seus cérebros se pareceriam idênticos aos de alguém que realizou essa tarefa durante anos. Isso nos demonstra que um cérebro mais velho realmente pode se adaptar muito rápido.

Ines: Você é considerado um dos maiores experts do mundo em memória, idade e cérebro. Especificamente, como você começou a explorar a conexão entre a tecnologia digital e o cérebro? O que despertou o interesse?
Dr. Small: Meu trabalho se baseou primeiramente na doença de Alzheimer, na memória, e em como o cérebro age. Passei grande parte da minha carreira desenvolvendo tecnologias para mensurar o cérebro, como as técnicas em solução PET, e assim por diante.

E isso me levou a pensar, nos últimos anos, que toda a tecnologia que estávamos desenvolvendo, e que melhora nossas vidas, poderia também causar efeitos no cérebro. Foi realmente na minha vida pessoal, observando aquelas tecnologias, que senti que desejava entender isso melhor.

Foi por isso que escrevi o livro “iBrain.” Durante o percurso de escrita, fizemos um estudo na UCLA denominado “Seu cérebro no Google”. Porque eu fiquei espantado pelo fato de haver tão poucos estudos focados na função cerebral, enquanto nossos cérebros estão usando essas novas tecnologias.

Ines: Sua pesquisa revela a grande disparidade entre os digitais nativos e os digitais imigrantes, o que você chama de “Gap Cerebral”. Como você percebe que esse gap entre cérebros está afetando a família?

Dr. Small: Eu penso que isso afeta definitivamente a família. Eu vejo na minha própria família. Os mais jovens, os adolescentes, estão usando mais a tecnologia, eles são melhores nisso, mas não estão passando tempo face a face com o contato humano.

Temos uma regra em nossa casa que proíbe o uso de tecnologia na hora do jantar. Mas é uma situação estranha. Outro dia, eu disse ao meu filho, “Pare de jogar esse videogame e venha assistir à televisão comigo!”

Isso traduz a minha preocupação sobre o uso repetitivo de tecnologia, e a falta de socialização. É um assunto que está passando por mudanças. É um tema complexo, e eu não tenho todas as respostas. Escrevendo “iBrain” eu esperava gerar certa discussão, criar algumas questões e levar as pessoas a estudarem isso um pouco mais.

Ines: Como esse gap afeta o ambiente de trabalho? Os digitais nativos e os imigrantes precisam agora colaborar para realizar as mesmas tarefas?
Dr. Small: No ambiente de trabalho, em que as pessoas precisam se adaptar, elas se adaptam. Um exemplo é meu pai, que já estava em seus 80 anos, e ainda trabalhando. Ele não usaria um computador de forma alguma. Mas quando eles mudaram para um sistema de arquivamento eletrônico no escritório, ele foi forçado a usar o computador, e se adaptou prontamente.

Eu acho que algumas pessoas mais velhas terão vantagens por causa da habilidade no “contato face a face”. Mas os mais jovens terão vantagens por causa de suas habilidades tecnológicas no ambiente de trabalho. As pessoas que se destacarão ao máximo serão aquelas que conseguirem unir ambas as habilidades.

Ines: Quais são os passos que podemos seguir para minimizar o “gap cerebral” no ambiente de trabalho e na família?
Dr. Small: Eu penso que eles precisam primeiro estar cientes dos assuntos, e ter discussões. Acredito que o jeito de suprir o gap seja expandir as habilidades tecnológicas das gerações mais velhas, e auxiliar os mais jovens em suas habilidades de contato humano face a face.

Ines: Há sempre um bom campo de discussão sobre o lado esquerdo e direito do cérebro, que determina as aptidões naturais das pessoas. Você acha que o uso da tecnologia é comparável a outras habilidades como Artes, Matemática e Literatura? Algumas pessoas têm mais aptidões naturais ou talentos? Ou as habilidades tecnológicas das pessoas são diretamente proporcionais à sua exposição à tecnologia?
Dr. Small: Essa é uma questão complexa. Não estudamos isso diretamente. Minha opinião é que alguns de nós são melhores de forma inata. Mas também é algo que pode ser aprendido. Então não é apenas um ou outro. O cérebro é plástico e responde muito bem a esses tipos de exposição. Percebemos em nosso estudo “Seu cérebro no Google” que um cérebro mais velho realmente se adapta muito rápido.

Ines: Você diz que os nativos digitais geralmente não possuem “habilidades pessoais” básicas para lidar com pessoas, como ler expressões faciais ou sentir empatia. No futuro, os nativos digitais correm o risco de perder suas “habilidades pessoais” completamente?
Dr. Small: Sim. Este é um tema importante. As pessoas vêem isso como piada o tempo todo. Os mais jovens não mostram contato visual quando estão tendo uma conversa. Eles realmente não conseguem ler os gestos não-verbais enquanto conversam. Então eu penso que é um risco, e uma razão pela qual tento ampliar a atenção das pessoas para isso.

Ines: Vivemos no mundo do iPod, do iPhone, do iMac, e agora do “iBrain”. Como você chegou a esse título criativo para seu último livro?
Dr. Small: Eu devo o crédito à nossa editora, Mary-Ellen O’Neill. Foi uma idéia muito boa. É um título magnífico. O livro é a respeito do cérebro, e sobre o efeito da nova tecnologia no cérebro.

Então, você estava brincando com as palavras quando disse “iBrain, iPhone, etc.” Por causa do significado do “I” você podia dizer que tem a ver com “inteligente” ou “interativo”. É interessante porque no estudo “Seu cérebro no Google” percebemos que o lobo frontal estava particularmente ativado, e essa é a parte interativa do cérebro. Então pesquisar online é algo interativo. Você está tomando diversas decisões. Você está indo adiante e voltando. Isso realmente ativa os circuitos neurais no lobo frontal do cérebro.

Ines: Sua pesquisa insiste nos aspectos positivos do uso da Internet. Você pensa que a Internet ajuda a desenvolver habilidades importantes como multi-tarefas, raciocínio complexo e tomada de decisões, tanto nos jovens quanto nos mais velhos. Isso nos traz a idéia de que os efeitos somente são positivos se as pessoas usam a tecnologia com responsabilidade, sem transformar isso num vício.

Sabemos que o vício pela Internet é um problema crescente em todo o mundo, então há uma série de centros de reabilitação sendo recentemente abertos para tratar esse problema. Os cérebros dos que apresentam o vício têm conexões diferentes?

Dr. Small: Sabemos que algumas pessoas possuem predisposição para o vício. Então, suas conexões cerebrais podem ser um pouco diferentes, e pode haver uma determinação genética para isso.

Mas eu acredito que todos nós temos a capacidade de nos tornar viciados às coisas. Depende do montante de exposições, da situação e de diferentes fatores. Eu penso que em qualquer condição, há uma combinação da genética com os fatores ambientais.

Você percebe que as pessoas que se viciam em tecnologia são geralmente as mesmas que possuem uma tendência a se tornarem viciadas em álcool, às drogas e à comida. É o mesmo sistema recompensador de dopamina. O sistema primitivo do cérebro dirige esses vícios. Falamos sobre isso de certa forma no “iBrain”.

Ines: Quais são as suas sugestões para evitar o problema de vício na sociedade?
Dr. Small: Eu acho que há muitas controvérsias sobre isso. Nem tanto na Ásia, e em alguns outros países. Mas, nos EUA, a Associação Americana de Psiquiatria ainda não decidiu o que fazer. Eu penso que há muito o que fazer, e que devemos levar isso seriamente e tentar ajudar as pessoas.

Ines: Quais sua opinião sobre as redes populares de relacionamento via web, como o Facebook e o Twitter? Eles são bons para o cérebro?

Dr. Small: Eu penso que qualquer coisa pode ser boa. Mas quando se passa do limite, tudo pode ser negativo. Eu falei com muitas escolas, e com muitas crianças que estão passando muito tempo no Facebook.

Um ponto negativo é que eles estão perdendo suas habilidades de comunicação face a face. Mas eles estão se tornando bons em suas habilidades “de Facebook para Facebook”.

Você sabe, é maravilhoso ter diversos relacionamentos com isso. Mas eu acredito que precisamos usar com moderação e não passar dos limites. Eu sempre recomendo um balanço, que você passe tempo offline, para balancear o tempo online.

Ines: E esses sites de redes sociais parecem particularmente viciantes…
Dr. Small: Sim, todo mundo que se envolveu com os sites de relacionamento social realmente entende o quadro. Para mim, não é o Facebook, mas eu tenho muitos negócios de trabalho no e-mail que é difícil sair dele. Ajuda. Mas muito de uma coisa boa pode se tornar algo ruim. Eu penso que você precisa ter um balanço e saber quando usar a comunicação eletrônica e quando usar a comunicação à moda antiga.

Ines: Muito de sua pesquisa se direciona a ajudar os mais velhos a se tornar o mais jovem possível. Vejo que sua pesquisa é um esforço para reconciliar a boa saúde com a idade avançada. Porém, você acredita que um pouco da enorme atração para esse tipo de pesquisa vem do medo generalizado de nossa sociedade em envelhecer?
Dr. Small: Sim. Nós queremos nos manter jovens. Queremos estar saudáveis. Há certamente uma ênfase na juventude. O que estamos aprendendo por meio da ciência é que temos mais controle do que imaginamos. A genética apenas dá conta de parte do que determina quão bem e quanto tempo nós viveremos. Então estamos tentando ajudar as pessoas a entenderem isso, e descobrirem o que podem fazer hoje para viver mais e melhor.

Ines: Nós sabemos que, com o uso excessivo da tecnologia, os indivíduos estão desenvolvendo mais “laços virtuais” e “relacionamentos virtuais” que os da “vida real”. A tendência aos relacionamentos virtuais é também um produto da mudança cerebral? Ou isso diz mais sobre a sociedade e a socialização em geral?
Dr. Small: Eu acho que isso fala do quão tentadoras essas coisas são. Eu amo a tecnologia. Ela é realmente fantástica. Penso que é algo que realmente pode melhorar nossas vidas, e melhora. Mas acredito também que isso nos fez progredir tão rápido que não pensamos nos pontos positivos e negativos. É sobre isso que o “iBrain” trata. Sobre tentar equilibrar isso, e pensar de forma inteligente para agregar em nossas vidas, controlar a tecnologia e tornar as coisas melhores.

Ines: Um estudo afirma que as mulheres são naturalmente melhores em fazer múltiplas tarefas porque, desde os tempos antigos, enquanto seus maridos estavam fora, caçando, elas sustentavam a família e desenvolviam diversas atividades ao mesmo tempo. Esse mesmo contexto histórico também fez com que o homem se desempenhasse melhor quando focado em uma tarefa de cada vez. Em sua opinião, como a era digital, com suas constantes multi-tarefas, irá impactar nas futuras gerações e seus papéis de acordo com o gênero?
Dr. Small: Eu acredito que há um tipo de “redução” da divisão de gênero como um resultado disso. Curiosamente os homens parecem entrar na tecnologia mais cedo, mas agora não há uma grande barreira nisso. Mas há algumas diferenças em termos de “testes padrão”, voltando ao desenvolvimento evolutivo, definindo os papéis do homem e da mulher, onde os homens caçavam e as mulheres procriavam. Isso é interessante, o pensamento das multi-tarefas e as mulheres sendo melhores nesse papel. Eu acho que há certa verdade nisso. Eu posso me focar em uma única tarefa, considerando que minha esposa leva menos tempo fazendo isso, e observará outras coisas acontecendo. Eu penso que todas as apostas estão fechadas com a tecnologia de hoje. Estamos vendo menos diferenças entre homens e mulheres.

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