
Por Eline Kullock
Fico me perguntando por que o Harry Potter é tão comentado e admirado pelas crianças e pela geração Y.
Falta de ídolos? Saudosismo? Um pouco, talvez.
Mas porque este “herói” é mais significativo que o homem-aranha ou o super-homem para esta geração? Com qual valor do bruxinho se identificam os jovens de hoje?
Porque todos vão concordar comigo que há uma harrypotermania acontecendo…
Fala-se no conceito Peter Pan dos jovens que não querem crescer.
O Peter Pan de cada um existe em todas as gerações.
Ter responsabilidades não é lá a coisa mais agradável do mundo. Todos querem se manter jovens. Todos querem poder voar. Não é uma questão de geração. É do ser humano.
Mas eu volto ao Harry Potter e faço uma associação dos elementos da história de vida dele com a história dos jovens hoje. Ele é um ídolo órfão. Seus pais foram mortos por um bruxo. E quem é o bruxo que mata os pais desses jovens da geração Y? Todos os jovens se sentem órfãos de alguma maneira. Os pais saíram de casa pra trabalhar, certo? Viveram menos em função de suas famílias preocupados consigo mesmos. Era legítima essa preocupação. A separação era permitida, a pílula liberou as mulheres, elas tomaram conta do mercado de trabalho e exigiram ser felizes. Volta tarde da noite para o “lar doce lar”.
Os filhos dos baby boomers encontraram muitas vezes a casa mais vazia. E eu acredito que o Harry Potter veio explicitar esse sentimento. Os pais adotivos de Harry não são magos. São seres humanos normais, bons, mas distantes da realidade dele. E é assim que os jovens se sentem. Seus pais desconhecem a magia de que são capazes com a tecnologia. Eles não aprendem mais com seus pais. Aprendem entre si. Com seus amigos. Seus pais não sabem mais “os truques” da vida.
O inimigo de Harry é o assassino de seus pais, Voldemort, que quer conquistar a imortalidade. Novamente o conceito de vida eterna, tão buscada pelos homens, aparece aqui, mostrando o quanto pode ser perigosa e negativa essa conquista.
Também é interessante notar que a história do Harry Potter é vivida numa escola, não numa casa, rua ou cidade. Estes conceitos estão cada vez menos viáveis, nas perigosas esquinas da vida. Talvez a escola seja, ainda, o ambiente mais seguro (o único real?) para estar com amigos.
A história se passa onde Harry e amigos se dispõem a enfrentar perigos. Juntos. Não há mais um homem-aranha, uma mulher-gato. Há um grupo real que vai encontrando, junto, soluções para os perigos e problemas que vão aparecendo. É assim que a geração Y quer ser percebida: como uma equipe. Não há discriminação de homens e mulheres. A heroína da história, (Hermione Granger) é brilhante, amiga, está sempre pronta para desafios, assim como seus amigos.
A outra coisa que me chama a atenção nesta trama é que realidade e fantasia se misturam, exatamente como na vida dos jovens da geração Y. Assim como eles passam grande parte do seu tempo em jogos virtuais, o filme mistura uma realidade vivida por Harry e seus amigos com jogos e desafios próprios do mundo virtual. Essa associação representa a vida do jovem de hoje, onde, por vezes, é difícil separar um (realidade) do outro (fantasia).
Enfim, acho que os filmes e livros do Harry Potter tem uma simbiose impressionante com a realidade dos jovens. Eles se identificam com a trama e por isso, talvez, essa mania do bruxo que assola o mundo todo. Talvez seja um recado, indireto, para pensarmos na geração que estamos criando, nas conseqüências do nosso modo de vida sobre as atitudes deles. É sempre bom fazer uma analise e ver em que futuro vamos viver. E mudar o curso para melhor se for possível, por que não? Tanto na fantasia do bruxo quando na nossa vida real, tudo é possível.





Excelente comparação entre Harry e nós da geração Y, Eline! Acredito que, além de tudo isso, o bruxo simbolize o espírito aventureiro que todos queremos ter e ainda demonstre coragem em suas tomadas de decisões, nem sempre fáceis.
Contudo, faço uma ressalva: na vida real, não há uma varinha mágica que seja capaz de tirar os espinhos do caminho. Tampouco há uma capa que nos torne invisíveis diante dos problemas da vida. Por isso, ficam duas saídas: ou enfrentamos as batalhas da vida de cara limpa, com os pés no chão e com a sabedoria que a formação educacional nos dá, assim como Hermione, ou então teremos de encontrar um tutor feito Dumbledore que nos guia por esses caminhos repletos de Voldemort!