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Por Lilio A. Paoliello Jr.

Nestes tempos de gripe suína ou gripe AH1N1, uma das primeiras providências que pessoas sensatas tomaram foi deixar de distribuir “beijinhos” de cumprimento. Hoje em dia, é muito comum, principalmente entre os jovens, distribuir indiscriminados beijos na face a todos que encontram. Os paulistanos, sempre apressados, osculam apenas um; os brasileiros em geral, dois (um em cada face).

Eu sou do tempo em que o cumprimento a desconhecidos, ou até a conhecidos, era o simples aperto de mão. A primeira vez que vi uma moça dando um beijinho de cumprimento foi em meu pai, que trabalhava em televisão, um meio profissional bastante liberal, já naquela época. Eu, do alto de meus 10 anos, pensei que aquele gesto era traição à minha mãe. Depois, foram se popularizando os famosos “três pra casar”, tão comuns em minha adolescência. Dávamos três carinhosos beijinhos na face, principalmente nas meninas bonitas, nunca em senhoras respeitáveis e muito menos em desconhecidas. Daí vem a minha constatação: eu sou “Anterior aos Três Beijinhos Pra Casar” (ATPC).

Hoje é normal entre os jovens distribuir beijocas em todos que encontram, não importa o nível de intimidade, a idade, a classe social ou até mesmo o sexo – hoje garotões também distribuem beijos a seus amigos homens.Eu, um ATPC convicto, tenho dificuldades de tocar meus lábios nas faces desconhecidas, bem como dar a mão a alguém, usando o típico gesto que acho que cabe mais para cumprimentos entre rappers – batem-se as mãos e tocam-se os nós dos dedos.

Essa reflexão me levou a pensar nas diferenças entre as gerações e, em particular, sobre como essa diferença ajuda ou atrapalha a convivência entre pessoas de diversas idades no ambiente corporativo.

Além de já ter visto candidatos distribuírem o beijinho na face da entrevistadora, antes mesmo de falar seu nome. Já vi também representantes maduras do RH fazerem o mesmo nos jovens, naquela velha e eterna procura dos mais velhos em preservar sua juventude. Fico pasmo, mas não deveria. Outras diferenças mais importantes existem entre nós “mais experientes” e os mais novos.

Estava eu em uma festa de aniversário de um jovem de 25 anos. Para me enturmar com os jovens presentes, comecei a conversar sobre o mundo do trabalho. Fiquei pasmo. Eles são, em sua maioria, DE, (depois do emprego). Dos dez que conversavam comigo, apenas um estava “empregado” tal como as pessoas de minha geração viam o mercado do trabalho. Hoje está ficando rara a tal “carteira assinada”. É comum ser contratado por projeto, como começo e final definidos. Essa nova modalidade dá uma grande mobilidade aos profissionais e para os jovens, uma diversidade de experiências que deve ser valorizada.

Aqui citei duas das muitas diferenças de geração que podem influenciar a convivência nas empresas, evidentemente guardadas as devidas proporções de importância e das brincadeiras que me propus a fazer neste texto. Mas pude voltar a pensar neste assunto lendo a coluna do jornalista Gilberto Dimenstein, no jornal Folha de SP de 20 de setembro. Nela, é citada uma pesquisa sobre o comportamento dos jovens universitários, cujos resultados demonstram que a universidade é encarada, de uma forma aterrizadora por eles, quase como um centro irradiador de diversão e prazer, e não como o locus de formação e o caminho para o mundo profissional. Esta visão é muito mais preocupante do que quantos beijos vamos dar nos conhecidos e desconhecidos, ou do que a forma como será a relação trabalhista daqui para a frente.

É um ponto-de-vista crucial para a formação dos futuros profissionais que, certamente, não encontrarão nas empresas a fonte de prazer que hoje procuram na universidade. Parafraseando Lupicinio Rodrigues: moços, pobres moços, ah se soubessem o que eu sei… maduros, pobres maduros, que sabem o que eu sei, vamos juntos pensar o futuro do mundo do trabalho, dando muito beijinhos ou deixando de dar, enfrentando diversos desafios ao topar desenvolver projetos simultâneos, mas encarando com seriedade o que vier pela frente, não deixando, é claro, o prazer de lado.

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