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Por Tatiana Kielberman

Outro dia, li um poema do Luiz Fernando Veríssimo que quase pude confundir como espelho diante dos meus olhos. Costumo receber muitos textos falando sobre os conflitos entre gerações, mas poucos vão direto ao ponto e exprimem de forma tão notável a verdadeira transição pela qual estamos passando.

O título “E tudo mudou…”, mais do que apropriado para dar prenúncio ao tema, prepara nossa mente para pensar no ciclo contínuo de idéias, no qual as pessoas e objetos vivenciam mudanças o tempo todo, simultaneamente facilitando o acesso à tecnologia e abrindo caminho para as tendências que não param de surgir.

Há, na criação de Veríssimo, uma explicação bem humorada sobre como as coisas mudaram de nome desde o tempo de nossos avós. E não foi só o nome, mas o sentido também se modificou. Há uma diferença entre o que minha mãe, parte da geração X, queria expressar ao dizer que estava vivendo uma crise de nervos na adolescência, em relação ao que eu, Y, me refiro ao pronunciar a palavra “estresse”. O momento é outro, as preocupações não se comparam nem um pouco com aquelas dos tempos de nossos pais – não se pode esquecer de que eles trabalharam muito para que estivéssemos aqui hoje, assim como por todas as outras coisas. Para nós, genuínos Y´s, a era do microondas impera e só queremos saber do que podemos ter agora, já, neste exato minuto.

Penso que o significado que atribuímos hoje aos fatos é notavelmente intenso e vivaz, tendendo quase ao infinito. Não nos contentamos em sentir tristeza, passamos logo para a depressão. Não queremos a peruca, e sim o aplique definitivo, que se confunda eternamente em meio aos nossos cabelos. Não desejamos uma música suave na vitrola, mas sim um milhão de músicas, de preferência todas tocando ao mesmo tempo.

Não nascemos para sermos invisíveis, muito menos para querer pouco, nem desejar mais do mesmo. Viemos ao mundo, sim, para marcar presença e descobrir, momento a momento, tudo aquilo que faz parte de nós, e temos a certeza de que podemos fazer com prazer. Se algo der errado no meio do caminho, o que continua valendo é que nunca paramos de tentar.

Um dos meus únicos medos é que o poema se encerra de maneira um pouco triste. O bom humor é substituído por valores que se fazem muito presentes no meu dia a dia, mas que às vezes tento fingir que não existem. A indiferença em relação ao outro, a guerra entre irmãos e a inabilidade de algumas pessoas certamente diminuem a minha esperança, mas não me deixam desistir de lutar por aquilo em que acredito.

Como uma verdadeira Y, penso que posso expandir a visibilidade por parte dos seres humanos em direção àquilo que é mesmo fundamental para se compartilhar entre as gerações. Não é só porque as coisas mudam que precisamos nos desfazer dos valores que, um dia, foram atribuídos a elas, nem que tenham sido significativos apenas para uma única pessoa.

Nosso intuito é mudar, mas a evolução só pode ser válida se, junto a ela, houver uma imensa possibilidade de resgatar o passado e aprender com ele. Nós, os Y´s, temos sede de vida – uma vida possível graças ao trabalho de muitas outras gerações, que usavam brilho em vez de gloss, rouge ao invés de blush – mas passaram uma autenticidade que formou muito do que somos hoje.

Nós, Y´s, temos uma grande tendência a sermos firmes em nossas crenças, mas não podemos esquecer da abertura necessária para sempre viver a diferença.

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8 Responses to “Como a geração Y enfrenta as mudanças sem abandonar seus valores”

  1. Fernanda disse:

    Prefiro pensar no poema do Veríssimo que na música de Elis, “Como nossos pais”, pois sei que há muitos jovens ainda idolatrando os mesmos ícones e vivendo da mesma forma que os pais (ainda mais na tão presente moda retrô, de customização e atitude); mas também há os que reformularam estes desejos para que atendam às suas necessidades.
    Prefiro pensar que a herança maior são realmente os valores, e não a cópia, pois se fosse, teríamos um mundo cheio de reformas e não de originalidades. Não podemos pensar também que o Y é apenas um X reformado, sem a perninha, nem masculinizá-lo, apesar de pensar (feministicamente, neologisando, claro) que a criatividade e a multiplicidade estão no X feminino.
    Apenas discordo da diferenciação do estresse de nossos pais e o de agora, creio que agora ele só tem validade para aqueles que sabem para onde vão e o que estão fazendo, e os perdidos sofrem apenas de “falta do que pensar”. A institucionalização do estresse também preocupa deveras, uma vez que é um status de quem se mata de trabalhar para ser melhor na vida, e quer aparentar melhor que o outro.

  2. Karla Coelho disse:

    Parabéns pelo texto! É interessante ler sobre a Geração Y e ver um texto tão bem feito e envolvente!

  3. Anna Gorski disse:

    Parabéns por propiciar uma leitura tão enriquecedora quanto esclarecedora!
    Me senti olhando num espelho.

  4. Tatiana Kielberman disse:

    Karla e Anna,
    Muito obrigada pelo prestígio! É sempre bom saber que nossas idéias refletem, de certa forma, a opinião pública!
    Continuem acessando o blog sempre que possível, pois é a participação de vocês que o torna cada vez mais significativo!
    Um abraço,
    Tatiana

  5. Tatiana Kielberman disse:

    Olá Fernanda,
    Acho muito válida a sua opinião! Realmente estamos em época de reavaliar nossos líderes, afinal, se agirmos sempre da mesma maneira, continuaremos obtendo os mesmos resultados.
    Ao falar sobre a diferença entre as crises de nervos do tempo de nossos pais e o estresse que vivemos hoje, quis ressaltar o fato de que as preocupações são diferentes entre si.
    As exigências giram em torno de focos distintos, portanto não podemos agir de acordo com o mesmo modelo mental de antigamente. A evolução está aí para ser vivida, e precisamos lidar com ela o tempo todo, procurando driblar os empecilhos.
    Obrigada por sua contribuição!
    Um abraço,
    Tatiana

  6. Hum… realmente é isso mesmo. O grande entrave nisso tudo é que muitos querem mudar o mundo e não começam nem se mudando. O querem que os outros mudem. Por isso ficamos parados diante de muitas coisas.
    Talvez seja fruto de que sempre tivemos pais que fossem sempre a resposta para todos os problemas. E resolviam muita coisa. Não que isso seja negativo, pelo contrário, deve ser contemplativo para que então possamos nos mexer. Acordar para a vida e fazer nossa parte.
    Super abraço,
    Vinicius Todeschi Bandeira

  7. Tatiana Kielberman disse:

    Vinicius,
    É essa a idéia que eu desejei passar por meio do post.
    A geração Y deve estar consciente e ativa em direção às mudanças!
    Agradeço por sua opinião!
    Tatiana

  8. Letícia Ferreira disse:

    Boa tarde Tatiana….
    Buscando novos conteúdos para meu projeto de pesquisa, achei muito interessante e colaborativo sua colocação sobre as gerações. Importante resaltar isso, pois a cada dia temos novos produtos lançados e deixamos de lados os antigos, não percebemos muitas vezes a colaboração que estes nos deixaram. Inovar é preciso, sempre, porém, como você mesma coloca, “não podemos deixar de lado nossas raizes”.
    Abraços…

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