
Por Eline Kullock
Venho acompanhando a acalorado processo de seleção de trainees e estagiários neste ano e a diferente postura que os candidatos têm adotado na aceitação (ou não) da forma como os processos são conduzidos. Há uma clara mudança de comportamento, o que só ratifica o que tanto falamos sobre geração Y.
O Grupo Foco faz seleção de estagiários e trainees e, nessa experiência, vem percebendo uma mudança significativa no comportamento da geração Y no mercado.
Esses jovens são mais questionadores, querem um feedback mais rápido por parte das organizações, sentem-se fortalecidos pelo processo de crowdsourcing que, a meu ver, vai mudar completamente o mundo como percebemos hoje e o conceito de forças de mudança. Acompanhar este desenrolar de comportamentos tem sido fascinante pra mim.
As diversas empresas que trabalham conosco ou outras que conhecemos, definem competências específicas para a seleção de seus futuros líderes. E estas competências são diferentes, de acordo com a cultura organizacional e também pelo momento que a empresa vive. Uma empresa, no momento de seu start-up, precisa de competências diferentes de uma outra que está já voando em velocidade “de cruzeiro”.
Em função do mundo atual, não podemos deixar de atentar para algumas competências, pensando nos futuros líderes de uma empresa:
1- Comprometimento
2- Generosidade – a verdadeira liderança é generosa!
3- Pensamento Estratégico / Visão de Futuro
4- Capacidade de comunicação
5- Autoconhecimento
6- Paixão
7- Visão global / de conjunto
8- Senso de Urgência
9- Intuição, Curiosidade.
O conhecimento do business ou conhecimentos específicos, claro, serão desenvolvidos no decorrer do período de formação desses líderes.
Minha grande preocupação, no momento, é que alguns membros da geração Y simplesmente não entendem o significado de algumas dessas competências.
Em primeiro lugar, sabemos que o comprometimento, hoje em dia, é algo muito mais questionado pelos jovens. Sabemos que eles querem experimentar e, se a organização não corresponder aos seus anseios e expectativas, ele vai procurar outra organização que preencha suas expectativas, pelo menos num primeiro momento, até entender que a realidade organizacional não é exatamente comparável à situação de sua família que sempre procurou atender a todas as suas demandas.
Em relação à generosidade, encontro poucos jovens generosos. Generoso é o que compartilha, o que se coloca no lugar do outro, é o que sabe atingir o outro pela sua linguagem, é o que sabe pedir, é o que sabe aplaudir, dá os créditos de trabalhos realizados a quem de direito e que, pelo exemplo, contagia os outros, o que dissemina valores, o que transmite respeito e dissemina ética. Também me preocupo com esse conceito nos jovens da geração Y. Sabemos que os Y são mais auto-centrados, mais egoístas também porque nós, Baby Boomers, demos a eles o empowerment sem controle, na medida em que fomos dizendo: vocês podem tudo!
Esta visão de futuro tão importante para as organizações também corre um sério risco de ser mal interpretada quando falamos na geração Y. Os jovens valorizam o presente. Já disse em posts anteriores que, às vezes, tenho a sensação de que nós matamos o passado deles ao dizer: “no meu tempo a gente brincava na rua, a violência não era a mesma…” Da mesma maneira, parece que transmitimos a eles que não há futuro ou de que o futuro é tão imprevisível que não adianta despender tempo e dinheiro pensando nele. Numa palestra da qual participei, promovida pela revista Results On, falei de como os jovens são mais arredios ao planejamento estratégico e obtive dos jovens presentes, como resposta, que é isso mesmo, o planejamento não pode ocupar tempo e espaço do trabalho rápido e eficaz.
Também me traz receio a capacidade de comunicação dos jovens, com a paixão necessária para que, como diz Ron Charam, alguém entre num prédio em chamas por acreditar em você. Os jovens já não tem muita paciência para explicar as coisas. Tem uma comunicação mais curta, mais rápida e eventualmente – ao menos para mim – mais enigmática. A frase que gosto mais para explicar essa situação é do meu filho, que disse, um dia, quando a turma fazia muito barulho: “Ó o auê aí, ô!”.
Sabemos que as regras gramaticais não são mais importantes para a geração Y. O que importa é a retórica, a arte de argumentar e expor seus pontos de vista. Mesmo assim, me preocupo (e acredito que todas as organizações se preocupem) com essa capacidade de comunicação clara, inspiradora e apaixonante.
A quinta competência que cito aqui é o autoconhecimento. Acredito que esta geração atual é a “Geração dos Troféus”. Há 2 livros muito interessantes que falam sobre isso: The Trophy Kids Grow Up: How the Millennial Generation is Shaking Up the Workplace de Ron Alsop (2008) e Not Everyone Gets A Trophy: How to Manage Generation Y, de Bruce Tulgan (2009). Como se vê, os dois livros são recentes e falam de uma geração que foi criada com Troféus mesmo que, em qualquer competição, tirassem o último lugar. Não queríamos que nossos filhos tivessem uma baixa auto-estima como nós, Baby Boomers, criados pela geração dos Veteranos, um tanto o quanto castradora. Acredito que não conseguimos criar uma geração com um bom nível de autoconhecimento. Essa geração se superestima e acredita que tem pouco a aprender, já que passou a vida ensinando seus próprios pais a mexer com a tecnologia, e se ressente de uma educação mais adequada ao seu nível de conhecimento.
Assim, essas cinco competências fundamentais na busca e desenvolvimento de nossos próximos líderes, devem ser bem discutidas e avaliadas, ao longo do processo seletivo.
O que me conforta é saber que nossos jovens são criativos, intuitivos, têm senso de urgência – muitas vezes maior do que as pessoas que estão, hoje, nas Organizações – podem ser movidos pela paixão (eu disse – podem) e, certamente, pela habilidade em lidar com vários temas ao mesmo tempo, pelo aprendizado dos jogos (vide livro Got Game) e, portanto, já nascem com algumas das competências essenciais para o desenvolvimento de lideranças positivas.
Há uma frase muito interessante que gosto de citar: “Estamos preparando nossos jovens para problemas que ainda não existem e para a utilização de ferramentas que ainda não foram desenvolvidas”. Por isso, temos que refletir muito nas organizações se estas competências serão suficientes para lidar neste fantástico mundo novo.
Como estamos selecionando e preparando os nossos jovens para este futuro?





Olá!
Gostei muito do texto e vejo que estou no caminho certo. Algumas pessoas já me disseram que minha paixão por cursos de auto-conhecimento é apenas bobagem e que não deveria perder meu tempo com isso. Mas sinto que cada curso me dá oportunidade de expansão da consciência em relação a meu papel em relação ao outro.
Um abraço e um bom dia.
Vinicius Todeschi
Ótima visão, parabéns!
Tenho uma dúvida: nasci em 1983, sou de que geração? Boomers, X ou Y? Acredito ter uma outra classificação Geração XYBommers.
Abraço
Anderson Almeida
Anderson,
Desculpe pela demora na resposta. Teoricamente, vc é um Y. Os que nasceram entre 1943 e 1960 são Baby Boomers. Quem nasceu entre 1961 e 1980 é um “X”. e quem nasceu entre 1981 e 2000 é um “Y”. E isto é definido por situações específicas que viveram, com cortes profundos nas experiências que tiveram. E sempre digo que uma história determina uma cultura que determina um comportamento. E, na maioria dos casos, essas geraçòes ppassaram pelas mesmas experiências. Mas isso é didático, claro. qualquer um pode ter características de outras gerações. Você pode se sentir Baby boomer, X ,Y e o que mais você quiser! E o bom da vida, mesmo, é ter um pouco de cada uma das características! Então, aproveite!
Puxa Eline, que post inspirador. Você me fez pensar muito. Li este post no sábado e continuo pensando nele agora, segunda-feira. Meus filhos estão vivendo o dilema do primeiro emprego, e isto tem desafiado muito pois o conceito de emprego da minha geração é bem diferente da geração de meus filhos. Na minha época, emprego vinha associado com longo prazo, estabilidade, carreira estruturada e futuro. Hoje, a geração Y trata emprego como algo a curto prazo, “que seja enterno enquanto dure” e “qualquer coisa a gente muda”. Enfim, esses conceitos tão conflitantes as vezes dão nó na minha cabeça. Acho que vou escrever um post sobre isso. Afinal, emprego para mim não é a mesma coisa para o meu filho. Aproveito o comentário para dar um ENOOOORME PARABÉNS pelo blog. Está sensacional. É imperdível. Beijos. Mauro Segura.
Super obrigada, Mauro. Vindo de você, que eu admiro muito, é um super elogio pra fechar ( com chave de ouro) o feriado!
Acho que é super importante para as Empresas e para a Ger Y este questionamento sobre quais são as competências necessárias nesse admirável mundo novo!
Se as empresas estão procurando as competências de ontem ou de amanhã e, ao mesmo tempo, se os jovens e dispostos a “se dar” a uma empresa, mesmo que por pouco tempo.
Como numa relação afetiva. As empresas estão esperando gente que, ao menos, “namore”. Os jovens estão na onda do “ficar”e talvez não entendam essa necessidade da velha e boa Organização.
Como lidar com a diferença de expectativas?
Um beijo!
Eline
Texto fantasticamente lúcido e fiel aos desafios atuais. Parabéns!!! Esse site está cada dia mais interessante. Super recomendado!
Olá Eline
Tive o prazer de assistir a sua paletra sobre a Geração “Y” em Cuibá.
A Palestra foi ótima…
Vc tem algum material sobre quais benefício seria interessante para satisfazer a geração “Y”?
Se sim, por me envie.
abraço