
Por Manuela Mesquita
Sempre considerei minha mãe uma baby boomer fora dos padrões. Foi ela quem me apresentou o e-mail (sou geração Y, mas ainda me lembro disso) e criou um MSN antes mesmo de mim! Como entende muito de computador, eu vivia ligando para ela para tirar umas dúvidas. Além disso, ela baixa músicas para o celular, sempre faz updates nos programas do PC e sim, está no Orkut!
Acompanha minha vida de pertinho, me manda atualizar as fotos, faz comentários. Ainda não tem blog, mas não me admiraria se ela aparecesse com um.
Mas esses dias eu tive a prova concreta de que algumas coisas vão além de estar ou não conectado ao mundo virtual. Trata-se de uma cultura, da forma como as pessoas foram educadas, que acaba por criar um abismo entre um baby boomer e um geração Y.
Aconteceu que uma amiga minha perdeu um ente querido e o velório seria em outra cidade. Eu não poderia estar presente no momento e fiquei na dúvida de como agir.
Mãe é a primeira pessoa que lembramos nessas horas e eu não pensei duas vezes: liguei pedindo ajuda.
A resposta foi bombástica!
- “Filha, nessas horas mandamos um telegrama expressando sentimentos”.
- “Desculpe, tele o quê?”, perguntei.
Sabe aquele negócio que era usado na época da I Guerra Mundial, quando as pessoas tinham que, em poucas linhas, mandar um recado, e pagava-se (caríssimo, por sinal) por cada letra telegrafada? É, era exatamente a isso que ela se referia.
Não caí na risada porque o momento era delicado, mas a ideia de que isso se tratava de um item da idade da pedra passou como um raio na minha mente e expressei isso de forma até um pouco incisiva demais. E então ela rebateu dizendo que mandar esse tipo de mensagem pela internet seria de extrema indelicadeza.
Decidi por mandar uma flor, com cartão, no local do velório.
Mas aquilo não me satisfez. Como eu teria a certeza se a pessoa recebeu ou não as flores? Se saberia o quanto eu queria demonstrar meu sentimento e minha solidariedade? Quanto tempo isso levaria? Entrei no Orkut, diversos recados. Sou contra, acho impessoal e até meio mórbido. Mas não me aguentei, enviei um e-mail no dia seguinte, falando dos meus sentimentos e perguntando do recebimento das flores. Em menos de 5 minutos obtive a resposta de agradecimento da minha amiga, enviada pelo Blackberry. E finalmente fiquei tranqüila porque meu recado chegou ao destinatário.
É, mãe, definitivamente, as formas de comunicação são outras. Se é impessoal ou não, educado ou não, o importante é que chegou à pessoa da forma desejada e foi recebida muito bem, já que ela disse ter ficado feliz com a mensagem.O que deduzo de tudo isso é que, para nós, da geração Y, o importante é que a informação circule, chegue a tempo, de forma visível e no nosso tempo.
Não que deixamos de nos importar com bom senso ou educação. Mas acho que o pensamento é: “essa mensagem, amanhã, de nada valerá”.
E o que me garantiria que ela receberia o tal telegrama? E para que mandaria por papel, com a possibilidade de se perder, se temos a tecnologia?
Indelicado, para nós, é não se comunicar, com tantas formas disponíveis para isso ao nosso dispor!
Até entendi o ponto de vista da minha mãe e continuo achando ela bem moderna para a sua geração. Porém, cultura é cultura e isso, nem a internet, nem as mídias sociais modificam. Pelo menos não tão rapidamente assim.





Olá Manuela, gostei do seu texto. É realmente, o mundo se modernizou, mas o telegrama também. Você sabia que é possível enviá-lo pela internet e pagar com cartão de crédito? Aliás, a cobrança hoje é por página, é possível inserir imagens, agendar a entrega, entre outros benefícios.
Entendo a sua mãe, provavelmente sou da mesma geração porque tenho 40 aninhos. E apesar das novas mídias (dou graças por elas, acredite) eu ainda vejo o telegrama como sinônimo de agilidade na entrega da mensagem, claro que com outra conotação que não é a do e-mail, sms, etc.
Certa ocasião fiz um evento e enviei os convites por telegrama, foi um sucesso! Sabe porque? A importância e urgência da mensagem estão implícitas na mídia utilizada, no caso o telegrama.
Abraços de uma quase velhinha, rs,rs.
pesquisando textos atuais sobre geracoes vim parar aqui e gostei muito! estou nesta linha de interesse e pretendo visitar este blog mais vezes!
Prezada Manuela,
Seu texto é muito pertinente considerando a fase de transformações que estamos passando em função dos constantes avanços tecnológicos.
Apenas uma ressalva, o telegrama foi, e talvez ainda seja, por muito tempo o protocolo para este tipo de situação, embora o e-mail e redes sociais, e com eles uma abordagem menos formal, estejam conquistado seu espaço a cada dia.
Um cuidado que acho que devemos tomar é na identificação do nosso interlocutor. Se o destinatário da mensagem for alguém da geração de sua mãe, por exemplo, ele poderá se sentir ofendido em receber um e-mail e não um telegrama.
Portanto, em função da delicadeza da situação, julgo ser melhor pecar pelo excesso e manter, ainda, a formalidade inerente a um telegrama.
Um abraço e parabéns pelo blog,
Flávio