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Uma entrevista com a professora de história Monica Rankin, da Universidade do Texas em Dallas, que conta os resultados de usar o Twitter em sala de aula

Por Inês Schinazi

Talvez o que torne tão diferente a experiência educacional na geração Y em relação às gerações passadas seja a presença abundante da tecnologia na sala de aula, e todas as implicações que isso traz. Ainda que os celulares e laptops sejam geralmente considerados vilões que prejudicam a concentração na escola, eles também podem ser poderosas ferramentas de aprendizagem, conforme demonstrou a professora Monica Rankin que utilizou o Twitter com seus alunos, o que batizou de “Twitter Experience”.

Rankin explica que observou uma oportunidade para utilizar “a tecnologia e o equipamento que os alunos já usavam de forma confortável e incorporar isso ao que fazíamos na sala de aula, oferecendo a eles uma alternativa e um novo modo de aprender.”

O “Twitter Experience”, cujos detalhes ela conta nesta entrevista, nos faz pensar no quanto a tecnologia está nivelando as fronteiras da educação. O Twitter modifica a dinâmica tradicional das aulas, estimulando um maior diálogo, permitindo ao mesmo tempo que as informações sejam transmitidas a um público global. A professora descreve que sua experiência universitária consistiu, em sua maior parte, no cenário contendo “uma pessoa falando para um grande grupo de alunos na frente da classe, e estes tentando absorver passivamente toda aquela informação”. Ela diz, “havia pouca interação entre o professor e os alunos.”

Ainda que obviamente existissem muitos problemas advindos do uso do Twitter na sala de aula, a troca entre professores e alunos aumenta, assim como a comunicação entre as duas partes é facilitada, estimulando um diálogo ao invés de uma aula sem interrupções. Como demonstra a professora Rankin, o Twitter permite que ela atinja um nível de participação na aula que seria impossível ser alcançada de outra forma em uma classe tão grande.

O nivelamento das fronteiras da educação transcende as paredes da sala de aula, reinando também na sociedade como um todo, fazendo com que as informações discutidas na aula de Rankin estejam disponíveis para qualquer um que puder acessar o Twitter. Assim como Cameron Quitugua, uma de suas alunas explica, “estamos colocando na Internet assuntos pelos quais os alunos da Universidade estão pagando para aprender, e também aqueles temas que os estudantes estão pesquisando para que outras pessoas também tenham acesso. Eu tenho realmente um grande nome na Wikipédia e você tem a possibilidade de encontrar o que precisa saber na Internet. Para nós, disponibilizar história e conhecimento lá, por meio de uma discussão inteligente, é muito legal.”

Em uma entrevista exclusiva, Rankin conta sobre suas experiências ao conduzir a “Twitter Experience”, bem como a respeito de seus pensamentos sobre a crescente intersecção entre educação e tecnologia.

monica_rankin Foto: Professora Monica Rankin

Ines: No vídeo “Twitter Experience” há a afirmação de que, antes da experiência, você mesma não possuía grande familiaridade com o Twitter. Então, o que exatamente a levou a incorporar o Twitter em suas aulas?
Rankin: É verdade. Eu nunca havia usado o Twitter. Tinha escutado sobre isso, mas não sabia muito a respeito da ferramenta. O que eu sabia é que as pessoas podiam mandar suas atualizações via computador ou por mensagens de texto em seus celulares. Eu estava dando aula em uma classe que possuía tecnologia limitada disponível aos estudantes. Muitos alunos trariam um laptop para a classe, mas não todos, e todo mundo leva o celular para a aula. Alguns professores ficam bravos por causa disso, e tentam banir os celulares, já que o vêem como uma distração. Mas eu estava pensando se havia uma forma de integrar a tecnologia e o equipamento que os alunos estejam usando já de forma confortável, e incorporar isso ao que estamos fazendo na sala de aula, oferecendo a eles uma alternativa e um novo modo de aprender.

Ines: Claramente o Twitter encoraja a participação dos alunos de forma bem sucedida. De acordo com sua experiência, por que acha que isso acontece?
Rankin: Eu penso que isso acontece por uma série de coisas. Para ser muito prática, os alunos acharam isso interessante. Era diferente e eu acho que atraiu a atenção deles para dar o “start”. É algo que muitos de nós jamais tínhamos visto antes em uma sala de aula, certamente não em uma classe desse tamanho, com noventa alunos. Então eu acho que uma aproximação ligeiramente diferente gera automaticamente um pouco mais de interesse por parte deles. Mas além disso, eu penso que nosso uso do Twitter realmente apela para diversos estudantes que não se sentiriam confortáveis no cenário de uma discussão tradicional na sala de aula. Em qualquer discussão típica que eu já fiz, independente do tamanho da classe, normalmente o que acontece é que 10% da classe domina a discussão. A maioria poderia fazer um ou dois comentários, mas eles permanecem calados. Depois há outros 10% da classe que não falam absolutamente nada. Bem, eu penso que o Twitter modifica significativamente a dinâmica e permite às pessoas, cujo ponto forte não seja falar em frente a um grande público, uma oportunidade de testar suas forças. É oferecida a eles a oportunidade de incorporar ao ambiente de aprendizagem aquilo com que se sentem confortáveis. Modifica muito a dinâmica. Eu fiquei muito satisfeita quando vi algo acontecendo na sala de aula. Penso que certamente há muitos problemas com o Twitter. Não era a solução ideal, mas acho que com o que tínhamos que trabalhar na sala de aula, e com o acesso que possuíamos, foi uma das melhores soluções que encontradas naquele semestre em particular.

Ines: Você mencionou sobre como os “140 caracteres” limitam alguns comentários que os alunos podem fazer, mas ao mesmo tempo os forçam a ter um argumento conciso, o que geralmente eles têm dificuldade em desenvolver. Entretanto, em sua perspectiva, você pensa que o fato de haver apenas 140 caracteres é um risco de tornar as discussões muito superficiais, limitando as idéias ou tópicos que podem ser explorados?
Rankin: Suponho que sempre haja essa preocupação. Mas eu mesma não me preocupo muito com isso. Penso que a nova geração, criada com toda essa tecnologia, aprendeu a processar a informação de uma forma que nós, mais velhos, não entendemos realmente. Acredito que, tendo uma pequena notícia contendo informações, muitas pessoas podem ter acesso, passando por um processo interno ainda mais profundo ao entender, analisar e de certa forma, detalhar tudo isso.
Acho que eu preferiria que os alunos tivessem acesso a um grande limite de caracteres. 140 é realmente um número limitado. Penso que permitir a eles que formulassem pensamentos mais completos com um número maior de caracteres seria altamente benéfico. Mas também forçá-los a limitar suas frases a um determinado tamanho é um exercício realmente útil, pois isso os ajuda a chegar a argumentos concisos e pontuais. Então, não fico muito preocupada. Não enxerguei isso como um problema, especialmente do modo como combinamos o Twitter com discussões em grupo. Não acho que o Twitter por si será a solução, mas a combinação dele de diversas formas pode ultrapassar algumas dessas limitações.

Ines: No vídeo, muitos alunos parecem apreciar a idéia de não precisar se expor em frente a uma classe cheia de pessoas. O Twitter oferece esse conforto, já que eles podem expressar seus pensamentos por meio da escrita. Entretanto, você se preocupa se, com o aumento da intersecção tecnológica na educação, os alunos podem perder a habilidade de “gritar suas idéias para o mundo”?
Rankin: Não me preocupo muito com isso. Acho que os instrutores virão com novas idéias, a toda hora, para incorporar as diversas formas de comunicação. Uma das coisas que fizemos no experimento em sala de aula é que eles realmente trabalharam em pequenos grupos, nos quais interagiam uns com os outros, e depois, com base no resultado do que conversavam, ele iriam “tweetar”.
Então, não era o formato de uma sala de aula, na qual os alunos estavam isolados enquanto indivíduos, fazendo nada além de usar a tecnologia, sem haver comunicação entre eles. Havia uma grande interação face a face acontecendo, em seus pequenos grupos. Eu estava andando pela classe o tempo todo, interagindo com os grupos pelos quais passava. Foi uma espécie de combinação de todos esses diferentes métodos e penso que deu muito certo.Os alunos poderiam falar entre si nos pequenos grupos, e também compartilhar seus pensamentos com noventa pessoas de forma razoavelmente confortável.

Ines: Como educadora universitária você prepara seus alunos para a entrada no mercado de trabalho. Obviamente, a sala de aula está se modificando. Mas como você acha que o ambiente de trabalho está mudando e será que incorporar a tecnologia e as mídias sociais na sala de aula auxilia os alunos ao entrarem no mundo profissional?
Rankin: Minha impressão é de que os alunos terão uma prática muito melhor no uso da tecnologia e das redes sociais via web do que aquilo que ofereço na sala de aula. Eu certamente não sou uma expert em tecnologia ou em nada ligado a computadores e mídias digitais. Então, diante do resultado real do uso desses tipos de tecnologia, penso que sou a última pessoa que precisa treinar os outros.
Mas penso sim que os alunos são expostos na sala de aula a novas aproximações para usar coisas desse tipo, com novos modos de combinar a tecnologia e as humanidades. por exemplo, que geralmente são colocadas em lados opostos.
A educação certamente não é a única área que está procurando caminhos inovadores para combinar esse tipo de coisa, e desafiando o modo como as pessoas tradicionalmente se aproximam de tudo isso. Eles provavelmente terão que lidar com essas expectativas ao entrar no mercado de trabalho, ao “pensar fora da caixa” e “buscar novas alternativas”. Então esperançosamente isso os expõe para as possibilidades existentes, e também para o modo como as pessoas estão tentando lidar com esses desafios.

Ines: Você notou diferenças em termos de gênero de como os alunos e alunas usam e interagem com o Twitter na aula?
Rankin: Realmente não presto muita atenção nas diferenças de gênero. Não fiz um trabalho tão bom como gostaria, de ter marcado quem estava usando um computador ou celular, e também tivemos um número de alunos que não se sentiu confortável em usar qualquer um dos dois, e então fariam anotações à mão. Não pensei sobre isso tão cedo no início do semestre, para realmente obter estatísticas muito específicas sobre esse tipo de informação.

Ines: Como você ensina história, que é uma disciplina bem tradicional, encontrou muita resistência diante de outros professores e alunos ao trazer o Twitter para a sala de aula?
Rankin: Eu não chamaria isso de resistência por parte dos alunos. Penso que alguns deles foram relutantes a participar no fórum público do Twitter, e outros não possuíam tanto acesso à tecnologia. Alguns não tinham laptop com conexão sem fio, ou não possuíam serviço ilimitado de mensagens de texto em seus telefones.
Eu acho que muitos alunos que não participaram diretamente optaram por isso mais por razões práticas do que por uma discordância a respeito do que estavam fazendo. Mas você sabe, eu penso que alguns não eram muito ligados às redes sociais via web e não se sentiriam confortáveis com isso, e não tem problema!
A reação que obtive dos outros professores foi mista. Diversos deles realmente se interessaram pela causa. Muitos dos meus colegas na Universidade do Texas pediram mais informações e tentaram entender como poderiam incorporar experimentos similares em suas classes. Conversei com um bom número de colegas em outras Universidades.
Mas falei com outros professores que afirmaram não ter nada a ver com esse tipo de coisa, que não há espaço para isso no modo como eles conduzem suas aulas. E para mim, tudo bem! Penso que essa é uma das boas coisas na educação universitária. Os alunos têm acesso a professores que possuem uma grande variedade de métodos e vêm para a aula com diversas estratégias. Então os professores que se sentem confortáveis com isso começarão a “brincar” com essa ferramenta. Aqueles que não se sentirem desse modo, encontrarão estudantes que pensam da mesma forma, e vivenciarão diferentes experiências juntos.

Ines: Do ponto de vista de uma professora, você achou caótico e opressivo ter todos esses comentários no Twitter em uma classe tão grande?
Rankin: Eu acho que seria muito mais opressivo para mim se não tivesse uma boa ajudante. Minha assistente Megan Malone foi uma parte realmente integrante desse sucesso. Ela ajudou a monitorar a discussão digital, enquanto nós estávamos na classe, e enquanto tudo se desenvolvia, para que eu pudesse caminhar pela saal e interagir face a face com os alunos. Se ela não estivesse me ajudando “por trás das cenas”, acho que teria havido um ambiente muito diferente, seria muito mais caótico, e eu teria que enfrentar muito mais coisas sozinha.

Ines: Você deixa claro como o Twitter pode ser positivo em uma sala de aula maior. Entretanto, o que você acha de utilizá-lo em classes menores? É algo que você consideraria?
Rankin: Eu consideraria usar o Twitter em um grupo menor. Tenho pensado um pouco sobre isso. Acho que dependeria muito do que estamos tentamos fazer na aula, e o que buscamos atingir, além do número de estudantes temos na classe. Não estou pensando nisso agora. Mas não recuso a idéia de usar em classes menores futuramente.

Ines: O “Twitter experiment” nos faz pensar sobre os caminhos nos quais a educação está envolvida. Como foi sua própria experiência de aprendizado na Universidade? Muito diferente da experiência de seus alunos hoje?
Rankin: Bem, isso foi há muito tempo. Mas quando eu estava na Universidade, havia pouca interação, particularmente em alguns dos cursos tradicionais como os meus de história. Havia também pouca interação entre o professor e os alunos. Além da aula tradicional, uma pessoa falava para um grande grupo de alunos na frente da classe, e estes tentavam absorver passivamente toda aquela informação. Essa era a aproximação tradicional, e era essencialmente ao que eu estava exposta na graduação. As coisas são muito diferentes hoje. Mais e mais, os professores estão tentando encorajar uma interação maior por parte dos estudantes, um tipo de participação ativa dos alunos sentados na sala de aula, reconhecendo que há muitos benefícios ao processo de aprendizagem quando eles se engajam mais. Eu penso que esse é um grande avanço que a educação tem feito nas últimas décadas e, cada vez mais os professores estão incentivando esse tipo de método. Acho que a tecnologia ajudará a facilitar isso. Precisamente o que eu estava procurando, quando decidi usar o Twitter na sala de aula, era a habilidade de engajar noventa alunos, todos ao mesmo tempo, em cinquenta minutos. E penso que quanto mais a tecnologia continuar a envolver, maiores oportunidades e opções estarão disponíveis para que os educadores utilizem-na a seu favor.

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One Response to “Em vez de apostilas, o Twitter entra em cena na sala de aula”

  1. Nossa!
    Que revolução no sistema.

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