
Por Manuela Mesquita
Os pais não têm ensinado os filhos a serem cidadãos de atitude. A opinião é expressa com ênfase pelo Dr. Içami Tiba, psiquiatra, para quem ainda “não existe um modelo ideal para a educação”.
Autor de 27 publicações, a maioria sobre jovens, Tiba culpa os pais pelo atual comportamento instável e impaciente da nova geração que, segundo ele, não aprendeu a lidar com problemas ou tolerar o que não gosta. Em entrevista ao Foco em Gerações ele afirma ser essa uma geração de jovens egoístas e que ainda têm muito a aprender para se destacar no mercado competitivo. Confira.
O que houve na sociedade para mudar tanto a relação familiar, em que os pais deixaram de ser rigorosos e autoritários? Foi apenas o fato da mãe sair de casa para trabalhar?
Essa é uma revolução silenciosa que aconteceu porque os pais, homens e mulheres, não quiseram repetir o que receberam e não gostaram: limites, disciplina, castigos físicos. A educação de antigamente era um abuso e os que apanharam não quiseram que os filhos apanhassem e deram privilégios que queriam ter de seus pais.
Na realidade, até hoje a educação não foi adequada porque os pais de hoje fizeram dos filhos pessoas não educadas no sentido de serem cidadãos, no sentido de cumprirem com suas tarefas. Os pais tinham essas coisas como valores, mas não exigiram o mesmo dos filhos, gerando assim uma relação de filhos folgados e pais sufocados.
Porém, os filhos estão numa época em que precisam ser muito mais comprometidos para conseguir resultados. Precisam ser competitivos e ter ética. Mas os pais ensinaram-nos a ser herdeiros e não sucessores empreendedores, que recebe alguma coisa e faz progredir acrescentando sua própria força.
O fato de a mãe trabalhar fora ajudou a piorar esse cenário, pois os pais compensam a ausência de uma forma nada educativa. A mãe pode trabalhar fora, mas não pode agradar o filho a qualquer custo. Esse “amolecimento” prejudica até na vida profissional do indivíduo.
O senhor diz que 80% dos jovens delinqüentes de hoje foram criados pela mãe. Erich Fromm afirma que o pai tem amor condicional, ou seja, ama apenas se o filho agir corretamente, enquanto a mãe tem amor incondicional. Como o senhor enxerga essa diferença na educação entre os dois?
A mulher tem os hormônios de relacionamento e o homem a testosterona, para competir, lutar pelo seu território, defender, agredir. Por isso, o casal de pais é uma dupla perfeita, pois um luta e outro protege, dando condições de sobrevivência. Fazer obrigações não é massacrar o filho, mas sim criar uma tríade fundamental para um homem de sucesso: ter competência, aprendizado e prazer. O homem necessita ter prazer no trabalho, pois tem pouco tempo e precisa alinhar tudo. Mas os filhos só querem se divertir, não aprender. Nem todo mundo faz tudo o que gosta sempre, existem coisas no trabalho que você sempre vai deixar de gostar e os pais não estão ensinando isso aos filhos. Assim, o jovem fica selecionando, larga um bom trabalho só porque teve uma contrariedade, briga com a namorada e perde a chance de um relacionamento, pois não agüenta uma frustração, larga a faculdade pois não gosta de uma matéria. É preciso se esforçar mais para agüentar situações.
Como o pai ou a mãe podem exercer esse duplo papel no novo formato da sociedade, em que muitos são separados?
O filho não deixa de ter pai ou mãe. O casal separado tem um problema conjugal que nada tem a ver com a educação dos filhos. O que não tem dado certo é o casal, que continua brigando mesmo separado e joga os filhos contra o outro.
O conceito de educação mudou com o passar do tempo, os psicólogos passaram a afirmar que não se pode castrar, ser rigoroso demais, é preciso estimular a criatividade. Como o senhor enxerga isso?
Tenho uma linha própria baseada na minha experiência clínica. O que eu percebo da educação moderna é que os pais são pouco exigentes, permitindo que os filhos tomem decisão quando não devem, como parar de estudar na época em que precisa. Muitos começam a trabalhar, ganham um dinheirinho e têm a falsa ilusão de liberdade. Se comparar o que o filho ganha ao que gasta, é um desequilíbrio que não se sustenta. Entretanto, os pais pensam “pelo menos está trabalhando” e isso é sinal de uma grande falta de preparo.
Como se deve efetivamente educar essa geração de hoje?
Eu acho que o ser humano tem a capacidade de aprender com os erros, corrigindo-os. Nessa linha de educação moderna, os filhos que não têm competência para administrar resultados conseguidos, não podem tomar decisões ainda. Então os pais é que têm que assumir. Se ele não entende nada de ações e quer entrar nesse mercado de qualquer forma, pode se dar mal por falta maturidade. Enquanto os pais se submeterem a caprichos, não estão educando.
E com relação à influência da internet nessa educação?
Se o pai não se disponibilizar a aprender, não poderá ser educador. Na educação, é preciso incluir os últimos avanços. Um pai hoje, para educar, precisa entender de MSN, Orkut, etc. A internet tem coisas boas e ruins, depende de como se usa. O pai pode usar de recursos que os filhos usam para se relacionar, pois nunca os jovens se encontraram tanto quanto hoje. No MSN é possível encontrar todos os amigos num mesmo dia, o mesmo acontece com blogs e as outras redes. A visão é diferente, não precisa sair de casa, é só apertar um botão. O jovem sabe o que acontece na vida dos amigos, combina programas e se os pais usarem isso terão avanços na própria vida profissional e se comunicarão com os filhos com mais sucesso.
Mas o senhor acha que o contato virtual substitui o visual?
O contato visual tem que ser melhor aproveitado. Para os pais que querem agradar o filho de qualquer jeito, seria melhor nem ter esse contato visual, seria melhor comandar tudo virtualmente e quando estivessem juntos fosse saudável, sem brigas ou conflitos que acabam acontecendo justamente por essa ausência.
Na escola ensinam a socializar as coisas, dividir os brinquedos. Mas quando as crianças viram adolescentes a realidade é outra, somos individualistas, temos que ganhar dinheiro, o que gera uma certa confusão. Como então fazer? Deve-se mudar a forma de ensinar as crianças para um mundo mais realista?
Até mesmo no vestibular, uma pessoa que estuda em grupo vai se sair melhor do que o que estuda individualmente. É como uma competição esportiva, o atleta pode até desenvolver uma atividade individual, mas é a equipe quem dá força. Vencedor é o que está no meio dos outros, ninguém vence sozinho. Quando a escola exige essa participação do grupo está ajudando no desenvolvimento do aluno, pois não há como se fazer isso em casa, já que não há tantos pares.
È bom que o aluno saiba que o mundo é competitivo, que quem está sentado ao lado, em algum momento da vida, estará disputando a mesma coisa, mas se os dois sabem, os dois são muito mais fortes do que o que está sozinho. Isso também vale para a vida profissional, o mercado de trabalho.
Muitos afirmam que a atual geração é menos generosa do que as demais. O senhor concorda com essa opinião?
Concordo tranquilamente porque esse é o resultado da formação. Usaram mais drogas, são mais egoístas, não dão valor à hierarquia, querem resultados em curto prazo, se não vier o que quer já muda para outro. Não têm uma visão forte de carreira, por mais que pensem que sim. Na carreira você tem que “amassar o barro”, eles não agüentam, são egoístas criados em casa.
Em seu livro “Família de Alta Performance”, o senhor explora a excelência na qualidade de vida do indivíduo. Porém, sabemos que atualmente é difícil conciliar e exercer todas as atividades da forma como devem ser. O senhor considera possível ter uma carreira bem-sucedida, sendo um bom pai ou mãe? Como?
Procurando fazer o melhor possível. As pessoas deixam de fazer bem as coisas quando não se atualizam. Nenhum pai vai ser o melhor se não entender o que se passa no mundo da educação para fazer com que o filho se beneficie dos avanços do mundo. Qualquer profissional precisa se atualizar, e o mesmo para os pais.
Ele não precisa encontrar tanto o filho, mas sim saber o que ele está fazendo. O ensino à distância é um exemplo de que o virtual pode sim ser produtivo.
Também no livro o senhor diz que bastam algumas mudanças para melhorarmos nossas vidas. Poderia citar que mudanças são essas num cotidiano tão corrido como o que temos atualmente?
Acho que a primeira mudança que os pais poderiam fazer, para fazer de seus filhos pessoas felizes, é com que o filho fosse cidadão já dentro de casa. Em outras palavras, que os pais colocassem em casa um princípio de convivência chamado cidadania familiar. Ninguém pode arrumar as coisas no trabalho só quando o freguês vem. Ninguém espera a véspera do pagamento para apresentar resultados. E assim é com a cidadania.
Como o senhor imagina que será a educação daqui por diante?
Eu sempre acho que, à medida que temos um problema, temos que nos mobilizar para superar. Os que se mobilizam são os que vencem. Eu acho que se essa geração de hoje se acomodar do jeito que está dificilmente se manterá íntegro num mercado tão difícil. Como são muitas pessoas sofrendo, sempre vai surgir uma novidade que não dá para prever nas condições que estamos hoje.
Mas o senhor acredita que haverá um movimento de pêndulo, de se voltar como era antes e os pais se tornarem mais rigorosos? Acha que isso deve mesmo acontecer ou existem formas mais modernas de se evoluir na educação para um filho feliz?
Não acho que volta como era antes. Existe um movimento de proibir as crianças de tudo, mas isso não vai dar certo porque crianças têm que aprender, têm que perguntar o porquê. Agora também não podem fazer perguntas que não levem a lugar algum. Uma criança não tem que questionar pra quê tem que estudar, essa não é uma pergunta em que ela quer crescer. Se a gente não conseguir separar as coisas vamos sempre achar que toda pergunta é boa e toda pergunta é ruim, e não é assim. O preguiçoso sempre encontrará respostas para não fazer as coisas.
Temos que estabelecer cidadania familiar na educação, temos sim que obrigar os filhos a estudarem mesmo que não queiram, porque o mais importante disso tudo é que a pessoa comece a aprender e encontre gosto por isso. Hoje temos muito mais chances de ser feliz do que infeliz, desde que sejamos competentes, eternos aprendizes e que tenhamos prazer nas coisas, além de integridade. A educação hoje está na contramão, então ela tem que virar mão e assim poderemos crescer.




