
Por Eline Kullock
Era minha tia Sara que dizia:
“Eline, atende aí! Atende logo essa coisa!!! Vai,menina, atende:
Aí, ouvia-se a voz de alguém ao fundo, que eu presumo que era meu tio, no que ela respondia:
“Mas, Saul, eu tô ouvindo a voz dela!!! É ela!!! Porque então ela não fala comigo?”
E aí a ligação cortava.
Eu sempre ri da minha tia e de sua inocência. E, hoje, me sinto um pouco como ela!
É em homenagem à tia Sara que escrevo este post…
Resolvi escrever essa carta porque não entendo essa história da Flávia Vianna (Apertando a tecla SAP entre as Gerações X e Y) colocar jogo da velha na frente das palavras… Depois, “dona Flávia”, #prontofalei são duas palavras! Não é tudo junto! Você faltou às aulas de português!
Quem cantarolava “no velho oeste ele nasceu…”, como eu, não pode mesmo entender esses moderninhos com nome esquisito, tipo “Fresno”. No meu tempo, até a Lassie era obediente, assim como o Rin Tin Tin. O Lobo, do Patrulheiro Rodoviário cuidava com cuidado da cidade toda. Não era como o tal do Capitão Nascimento “pega um pega geral, também vai pegar você”… Isso era nome de bicheiro na minha época.
Eu era uma brasa mora? Eu ainda era um brotinho e minha mãe já me falava do senhor que vinha acender os lampiões de gás da rua, com a criançada correndo atrás dele, achando graça. De manhã, ele vinha de novo apagando tudinho, com um “apaga vela”, quando começava a amanhecer. Mas isso é coisa do arco da velha. A gente já era da turma xuxubeleza, e curtia a vida pádedel.
Quem ficava na fossa, ficava deprê. Mas eu nunca pagava mico. Não estava matando cachorro a grito! Tinha uma turma campeã de fazer a cabeça, assim, podes crer, eu era da turma que se chegava e falava: “Tô contigo e não abro”! Essas eram as verdadeiras amigas. Que nem As Panteras. A gente não deixava nenhuma de nós queimar o filme. Eu adorava ouvir os discos do Johnny Matheus na vitrola. Mas tinha que limpar bem a agulha, pra não arranhar o disco. Tinha o disco compacto, em 33 rotações, em 45 e tinha o long-play! Eu usava e abusava da vitrola do papai!
Era vidrada na Rita Pavone, com o hit “Datemi un martello”. Era duca! Também gostava do Ray Coniff, nos momentos de fossa.
Nós não podíamos andar nas carangas da turma, porque mamãe não deixava. Mas era bonito ver passar aqueles carrões. Tinha rapaz que a gente chamava de pão, eram bonitos, de Gumex no cabelo. Já as meninas faziam touca no cabelo pra que ele ficasse lisinho (nada complicado, tratava-se apenas de enrolar o cabelo na cabeça e prender bem forte pra ele esticar, hehe). Alguns garotos eram boko-moko, e estavam crentes que abafavam. Tinha uma turma que fazia muito fuzuê, mas com essa a gente nem falava. Eles sempre deixavam a gente grilada! Eram uns desbundados.
Eu adorava fazer compras na Casa Sloper, na Sears e na Mesbla! Cada uma de nós tinha um MUG, a turma jogava mico-preto e se divertia. Quando alguém da turma vinha com sapato novo, a gente pisava no sapato, falando “selo, carimbo, estampilha, 1, 2,3!” E a pessoa ficava chateada da gente sujar seu sapato novo. Andar de costas dava azar, porque diziam que a mãe morria. Quando vinha uma vizinha chata, a gente colocava uma vassoura atrás da porta pra ela ir logo embora. Toda menina estudiosa tinha uma enciclopédia Barsa em casa, ocupando uma estante inteirinha!
Na escola tinha mimeografo, pra fazer as cópias, e os melhores da turma eram CDFs.
Saíamos faceiras, pela rua. Nas carrocinhas da Kibon (tinha uma em cada esquina) a gente comia Ki-Bamba e Ki-Coisa e se deliciava. A gente usava tênis Conga e Bamba, além do Ki-Chute, pros meninos. Usar sandálias Havaianas era coisa de gente pobre na minha época.
Ajustávamos a hora pela rádio-relógio, onde escutávamos sempre: “Galeria Silvestre, a galeria da luz”. E também: “Lenços Paramount!” Todo mundo usava um lenço. E tinha que ser Paramount! Senão, não tava por fora!
Uai, espantado? Tinha uma rádio só pra que todos acertassem o relógio! Como é que a gente podia saber a hora certa? Não sei por que cargas d’água a rádio acabou.
A gente escutava o jornal Esso, testemunha ocular da história. Via TV com um pedaço de Bombril preso na antena porque, às vezes, o sinal sumia. Tinha, na TV, o controlador de linhas horizontais e o de linhas verticais porque, sem mais nem menos, a imagem começava a distorcer. E assistir à novela “O Direito de Nascer”, com o Albertinho Limonta, nos fazia sorver lágrimas e lágrimas.
Quem não se lembra do anúncio dos cobertores Parahyba, “já é hora de dormir, não espere mamãe mandar!”, que passava invariavelmente às 22hs. Era a hora de desligar a TV e ir choramingando pra cama.
Ah… e os anúncios da Varig, com “papai noel voando a jato pelo céu, trazendo um natal de prosperidade”?
Isto você não sabe, né, espertinha, dona Flavia? Pois me deixe aqui jogando o meu jogo da velha com bolinha e o sinal “X” , sem aquele português horroroso e vá já descobrir qual era a dupla da jovem guarda que cantava “pobre rapaz” ou a cobra vai fumar!
*segundo o dicionário inFormal,
Lavar a Égua é uma expressão que significa:
1. Aproveitar, se dar bem
2 Tirar ou levar vantagem.
3.Lucrar com pouco ou nenhum investimento.





Eline,
Seus textos são sempre incríveis, mas nesse você se superou AO MÁXIMO!
Ri demais, e não pude deixar de pensar no que minha mãe, minhas tias e minha avó diriam ao ler cada frase!!
Inclusive, enviei para elas! Será a diversão do momento! E você expressa de um jeito único as coisas maravilhosas da geração de vocês, nossos gênios!
Beijos!
Nossa… que espiral de memórias….
Realmente eu não vivi nem 1/3 disso tudo. Algumas coisas nem de caso da mamãe eu ouvi. Mas algumas outras coisas só mudaram de nome, ou mudaram o jeito. Mas no fim a mágica continua a mesma.
Prezada Eline,
Fiquei muito emocionada com seu texto, principalmente por alguém ter conseguido finalmente colocar em palavras a beleza dos nossos tempos!
Os jovens de hoje dão risada das palavras que nós não conhecemos, mas nossa missão é realmente passar a eles a profundidade ímpar daquela época – que ficou marcada em nossos corações, de um jeito que só a gente sabe!
Obrigada e parabéns por ser porta-voz de algo tão belo, e de forma impecável!!
Clara
Olá Eline. Com certeza todos nós gostamos de nos gabar, dizendo que nossa “época” foi melhor que essa ou aquela. Eu posso dizer de sem pestanejar que tive uma ótima infância e que aproveitei cada minuto dos meus tempos de “Mãe, quero ser paquita!”. Mas ao ler seu texto, tenho que confessar que lá no fundo, surge aquela pontinha de inveja.. a mesma que temos ao ouvir nossos pais e avós contando em como era na “época” deles. E hoje, podemos com certeza dizer: Não se fazem mais infância como antigamente !!
Parabéns pelo texto, e por levar às pessoas emoção e diversão através de suas palavras, sempre na dose certa.
Oi Eline,

que texto delicioso de ler! Siniiiiiistro!
Mas o que eu gostei mesmo foi a citação do texto com link pro post de uma tal de Flavia Vianna que não sabe escrever.. hehehe
Ela me informou que vai se dedicar mais à lingua portuguesa e mandar mais alguns posts pro Foco!
Adorei!
Beijos querida! E parabéns!
Eu amo o Twitter! #prontofalei
Reeditando uma Historia REESCREVER A FORMA DE COMENTAR tag #Debate e enviar comentários esta e a cara da geração Y pelo visto não e só eu não srsrsrrs!!