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caixa preta
Por Lilio A. Paoliello Jr.

Em Filosofia, “ética” pode significar o que é bom para o indivíduo e para a sociedade, e seu estudo contribui para estabelecer a natureza de deveres no relacionamento indivíduo – sociedade.

Faz um tempo, participei de inúmeras discussões para a implantação de uma disciplina que se chamaria “Ética e Cidadania” na escola. Esta nova matéria daria conta de trabalhar com os alunos, de diversos níveis, noções básicas da vida em sociedade, daria conta de discutir aspectos da Filosofia, que nos idos da década de 90, não fazia mais parte do currículo da escola básica e também, por consequência, ajudaria a resolver problemas de convivência dos jovens, dentro e fora da escola.

Bom, a disciplina enfim foi criada em muitas escolas, mas os problemas continuam instalados nos estabelecimentos de ensino. Ética e cidadania, a meu ver, não poderia ser uma disciplina, com horário fixo, professor responsável, provas e notas. Deveria, sim, ser a base de todo o currículo escolar, para não dizer, ser o alicerce de todas as relações humanas.


Para entender melhor, recorro ao dicionário, o amigo certo das horas incertas. No Houaiss, encontro:

Ética – parte da filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo especialmente a respeito da essência das normas, valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social.

Cidadania – condição de pessoa que, como membro de um Estado, se acha no gozo de direitos que lhe permitem participar da vida política.

No primeiro verbete, encontro duas palavras-chave: investigação e essência. É isso que deveria acontecer. Lembrei-me de um filme que assisti já faz algum tempo, chamado Teachers. Tratava da história de um rapaz, que ao sair de uma high school, não encontrou lugar no mercado de trabalho. Entrou então com um processo contra a escola, pois achava que a estrutura educacional que lhe foi oferecida seria culpada pelo estado em que se encontrava. Apesar de ser uma “comediazinha nada cabeça”, me fez refletir sobre a postura dos professores. O professor novato naquela escola, representado pelo ator Nick Nolte, se prontificou a investigar junto com seus alunos o que acontecia nas salas de aula daquele estabelecimento público, que poderia repercutir na falta de competência de um jovem para arrumar uma colocação profissional. Eles encontram de tudo, desde o professor que se traveste de personagens históricas para dar suas aulas, até aquele que dorme atrás de um jornal enquanto seus alunos colam nas provas. Um dos alunos pergunta ao Mr. Nick se ele podia filmar também os corredores da escola, para mostrar o que acontecia fora do olhar direto dos professores. É aí que ele flagra o próprio professor que propôs o trabalho, fumando escondido nas dependências da escola. Quando acaba de projetar a cena para sua classe, o aluno lembrou ao mestre: – Você disse que valia filmar tudo, hein!

Depois de sair do cinema e até hoje penso na essência daquilo que foi mostrado na tela: o professor tão liberal, moderno e disposto a colaborar para reorganizar a escola, também infringe normas de bom comportamento. Estaria sendo menos ético que aqueles que deixaram, ao longo dos anos, a escola e seus alunos se afundarem num mar de ineficácia de um sistema falido, em que professores prepotentes não pensam que têm nas mãos, as cabeças de jovens que poderão fazer uma sociedade melhor?

Faça o que eu digo e não faça o que eu faço; seu dever começa onde termina o meu direito! Parecem ser máximas, que estão por trás de muitas ações na escola e fora dela. O lócus principal do bom exemplo, de se buscar sentido para os direitos e deveres de um cidadão deveria ser a sala de aula. Mas infelizmente, nem sempre é.

Infelizmente assisti a uma cena em que os protagonistas foram um professor de Ética e Cidadania e seu grupo de alunos. Fui convidado, como coordenador do curso, a assistir a uma das aulas em que seriam projetadas cenas de um filme cubano Guantanamera. Além de mostrar um pouco sobre uma sociedade tão diferente da nossa, ele se propunha a discutir as relações éticas naquele país. Ao tratar do problema de uma família típica cubana para enterrar um de seus membros, mostrava a situação burocrática vivida pelos moradores da ilha de Fidel. Após a exibição das cenas achei que o professor abriria espaço para um debate, em que alunos mostrariam suas posições a favor ou contra o regime cubano, discutiriam suas conseqüências para a população, falariam sobre o que teriam em comum com os problemas dos brasileiros. Nada disso aconteceu. O professor abriu um discurso político em que se mostrava favorável ao regime político de Cuba e em seguida entregou algumas folhas de questões de vestibulares que tinham aquele país como tema. Que frustração, minha e de nossos alunos! Nada ético o comportamento do professor de Ética.

Também falando de casos da vida real, me lembro de uma entrevista na revista Veja. Em suas páginas amarelas, um médico, Dr. Ben-Hur Ferraz Neto, especialista em transplante de fígado, afirmava que uma das formas para melhorar o sistema de saúde seria colocar uma caixa preta em todas as salas de cirurgia, pois lá, os pacientes estão em total estado de inconsciência, estão sedados, nus e sem seus familiares. Nestas condições, quantos erros podem ser cometidos sem que ninguém se responsabilize por eles.

Acho que poderia ser uma solução para a sala de aula, por mais antiético que isso possa parecer à primeira vista. No espaço educacional juntam-se pessoas, alunos e professores, repletos de anseios e de problemas, imersos em relações que se repetem no dia-a-dia e por isso, são passíveis de cair no desgaste do cotidiano, mas sem contar com a intimidade própria entre familiares e sem que tenham a autonomia de decisão sobre a vida de cada um. A caixa preta, lógico, é um símbolo que pode guardar tudo que foi feito, tudo que foi dito naquele ambiente, mas com um pacto anterior sobre a posterior utilização das informações lá registradas. Assim como nenhuma empresa aérea recorre à caixa preta para saber se uma aeromoça serviu bem o jantar, nenhuma escola recorreria a ela para tirar a limpo situações corriqueiras, mas poderia lançar mão dela sim em situações de conflito ou como registro de questões pedagógicas que pudessem influenciar a vida de crianças e jovens que convivem naquele ambiente.

Eu que já dei aula em escolas religiosas que mantinham um pequeno retransmissor ligado à sala da diretora, para controlar professores e alunos, hoje penso que poderia ter participado de uma escola melhor que registraria o que estava acontecendo e se propusesse a discutir saídas éticas que pudessem colaborar na formação de cidadãos no gozo de seus direitos, para se refletir se o que estava se fazendo era bom para os indivíduos que participavam das aulas e para a sociedade em que atuavam.

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4 Responses to “Ética na escola: faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”

  1. Gostei muito,pois no inicio nao entendia sobre filosofia, mas lendo este texto, compreendi bastante.

  2. Espero que todos que leiam, venham entender tambem.

  3. carla jaqueline disse:

    Muito bom esse texto estou fazendo uma pesquisa sobre ética na escola e este texto me ajudou bastante!!!

  4. rafaella disse:

    muito bom esse texto me ajudou mundo no trabalho de religiao

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