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paiefilho
Por Manuela Mesquita

Você já ouviu falar que a geração Y não conhece processos, não guarda o passado, está acostumada a tudo pronto e gosta das coisas de fácil resolução?

Provavelmente sim e é deste ponto que começo esse post. Há algumas semanas estive em um lugar incomum e vivenciei experiências atípicas, observando justamente a questão do comportamento das gerações.

Era uma praia cujo acesso só se dá por meio de uma trilha ou de um barco. A energia elétrica é racionada, os banhos são frios, a comida só chega por encomenda e de acordo com a demanda. Internet? Não existe. Celular? Só em determinados locais, com a orientação dos pescadores, que correspondem a cerca de 80% dos habitantes da região. Televisão? Imagino que só seja ligada nas quatro horas em que a energia é disponibilizada.

Claro que o tempo todo pensava em como aquelas pessoas vivem, sem informação ou conexão com o mundo, sem carros, sem trânsito, sem modernidade. Mas, no meio de tudo isso, um fato me chamou a atenção. Enquanto eu e meus amigos nos esforçávamos para fazer uma das trilhas do local, um grupo de homens passou por nós. Não era um simples grupo, eram quatro homens, com seus quarenta e poucos anos, com alguns meninos, de no máximo seis anos.

No princípio, achamos aquilo estranho, já que no lugar predominavam jovens. Começamos a prestar atenção. Eram pais com seus filhos. Um deles passou por nós no final da subida e pudemos ouvi-lo:

- Filho, aqui chegamos ao ponto mais alto da montanha. É o momento em que comemoramos nossa vitória, depois do sofrido percurso. Vamos aguardar nossos amigos e aplaudí-los, pois o importante não é sempre chegar em primeiro lugar, mas sim, chegar.

Pude ver o brilho nos olhos do menino. Aquele brilho de desafio vencido, da conquista do objetivo, que não é tão comum nos olhos de alguém com cinco anos, especialmente nos dias de hoje. Quando os amiguinhos chegaram foi lindo: se abraçavam e comemoravam aquela vitória, tudo sendo filmado pelo pai, que não desgrudava da câmera nem por um segundo.

Perguntamos a eles se estavam viajando juntos e eles explicaram que aquilo era uma odisséia! Combinaram com as mães, sabe-se lá sob que condições, que viajariam apenas os homens, pois isso seria importante.

Mais tarde, encontramos os pequenos aventureiros novamente num dos restaurantes do local e as lições não terminavam. Enquanto comiam, os pais ensinavam bons comportamentos à mesa e como respeitar aos outros, sabendo dividir o que se tem com os amigos. Nesse mesmo momento, um grupo de jovens chegou ao local. Eles estavam usando equipamentos de trilha, mochilas enormes, lenços que protegiam a cabeça, tudo muito “profissional”. E então pudemos ouvir os pais novamente:

- Eles são como piratas do local. Vivem atrás do tesouro escondido nas montanhas, nunca param de caminhar, só param para dormir e comer.

Os garotos estavam num misto de encantamento e apreensão, com o olhar fixo no grupo de jovens, que abanou as mãos e provavelmente fez daquele um dos momentos mais inesquecíveis da viagem dos garotos. Eles entravam no barco dos pecadores, corriam pela praia e viviam aquele momento de forma única. Os pais registrando tudo, orgulhosos de terem “dado conta do recado” de sair de São Paulo com as crianças, sem as mães, e colocarem seus pequenos num lugar de tão pouca estrutura, mas que certamente ficará guardado na memória de cada um.

Naquele momento, uma série de pensamentos me veio à tona. Será mesmo preciso ir tão longe para ensinar comportamentos à mesa, o valor da superação de um desafio, a grandeza da conquista após a dificuldade, o aprendizado por meio da fantasia, a importância do contato entre pais e filhos?

Será preciso fugir da “civilização”, ir para um local que não funcione o celular ou que não seja possível conectar laptops e usar Blackberrys para poder educar os filhos? Tenho certeza que não. Mas posso afirmar que naquele lugar tão distante da realidade dos dias de hoje, presenciei uma situação que há muito tempo não via, de transmissão de valores de pais para filhos, como era no tempo de nossos pais. Da necessidade do processo para o objetivo final.

E fiquei com saudade da época em que as conversas com nossos pais não eram atrapalhadas pelo barulho do celular, pelo alerta do MSN, pelo stress e gritaria do trânsito e pela falta de tempo para aprender.

Aquele feriado na praia quase deserta certamente marcou a vida das crianças e ainda mais a vida dos pais. Mas marcou a nossa, os geração Y, que ficamos nos questionando se faremos isso com nossos filhos. Tomara que sim.

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