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Por Flávia Vianna

Era uma vez uma menina chamada @chapeuzinho. Nick inspirado pela imagem escolhida para o avatar do twitter: foto na praia, sorrindo, de férias e com um chapéu de palha super fashion. A mãe de @chapeuzinho passa pela porta do quarto e avisa:

- Querida, sua avó está doente. Vamos visitá-la?

E @chapeuzinho volta os olhos para as janelas piscando do seu MSN e para as DMs de paqueras do twitter que recebeu e ainda nem respondeu. Se percebe diante de um mega desafio: como expressar todo o seu #desolée MODE ON com a mudança de planos de “saída com a galera” para “visita inesperada à avó doente” em apenas 140 caracteres? Afinal ela tem que avisar aos quatro ventos do cyberespaço que está se desconectando… tipo assim… #now.


Seus 139 seguidores que estão online do total de 468 seguidores conquistados até agora recebem seu post: “#comoassim avó doente em um sábado!?!? Balada #fail Fui. #beijomeliga”

Isso não significa que @chapeuzinho não ame sua avó, ou que o mal-estar dela não a sensibilize. Significa apenas que @chapeuzinho prefere dez vezes mais ficar em casa tuitando até a hora de sair para a balada com o lobo mau do momento do que visitar sua avó doente em pleno sábado à noite. Mas para a mãe dela é difícil lidar emocionalmente com esta constatação.

Cadê os valores da família? Cadê a consideração? Cadê aquela ingenuidade que eu tinha quando era da idade dela? Cadê o respeito? Não tem tempo pra visitar a avó, mas tem tempo pra ficar falando hooooras pelo MSN com as amigas? E, afinal de contas, cadê o medo do lobo mau, pelo amor de Deus? … E as perguntas indignadas tendem ao infinito a partir deste momento. É inevitável.

Acho que é nesse ponto que podemos encontrar uma boa parte dos conflitos de relacionamento entre gerações: tentamos entender as reações da geração atual baseado no paradigma das gerações anteriores, no caso, as nossas. Os questionamentos que começam a aparecer em cadeia no cérebro têm a gênese nos nossos valores e na nossa percepção do mundo. Isso é perfeitamente normal, claro. E quem não concorda que a realidade é, na verdade, a percepção pessoal que temos dos fatos e não, necessariamente, o fato em si? Ou seja, é muito provável fazer um juízo distorcido da reação do outro nos baseando apenas no paradigma pessoal de juízo de valores.

Essa geração pede mudanças. Conectados com o mundo digital, os jovens que nasceram sob o domínio da tecnologia transferem para todos os ambientes onde se manifestam e para suas inter-relações diárias esse costume adquirido do suprimento de suas necessidades e anseios de forma imediata, online. Esperam por um mundo semelhante ao seu, conectado, aberto ao diálogo, veloz, global e com uma compreensão diferente de hierarquia e liderança.

O celular, o Orkut, o MSN e o Twitter fazem com que os jovens de hoje vivam em constante diálogo e valorizem a comunicação. Tendem a ter muito menos tolerância para serem contrariados e, geralmente desenvolvem características de personalidade muito egocêntricas. Costumam exigir acesso direto aos superiores (em casa e no trabalho) e explicações daquilo que lhes é solicitado. E não estou aqui dizendo que isso é melhor ou pior. Estou apenas constatando fatos e tendências comportamentais.

Esses jovens vivem num ritmo fragmentado, devido à variedade de atividades que executam simultaneamente: ouvem música, navegam na internet e assistem a filmes, tudo ao mesmo tempo. Não é razoável pensar que o estímulo de mundo que receberam até agora vai fazer com que desenvolvam valores e reações ao mesmo estímulo diferentes de seus pais?

Na minha geração, por exemplo, não existiria nem a pergunta “Vamos visitá-la?” Era uma afirmação concreta: “Vamos à casa da sua avó”… e ponto final. Agora pergunta se eu ficava chateada? De forma alguma. Mas isso não significa, necessariamente, que eu amava mais a minha avó do que a @chapeuzinho ama a dela. São apenas duas formas distintas de reatividade ao mesmo estímulo. Inputs e outputs de mundos e épocas diferentes. A afetividade e o amor em relação à vovó, coitada, não tem necessariamente a ver com isso.

Aos familiares, profissionais, educadores e empresários, que estão absorvendo essa nova geração em suas empresas, cabe a opção de encarar esta mudança criando novas formas de motivação e desenvolvimento de inter-relações saudáveis e criativas pautadas no diálogo ou continuar investindo em um conservadorismo que só vai gerar conflito seguido de conflito. E que este comentário não seja confundido aqui, de forma alguma, com permissividade. Não é isso. A geração Y tem muito que aprender com a experiência de vida dos mais velhos. Isso é tão óbvio que me dou ao direito de nem dissertar sobre o assunto neste post. Mas sempre defendo que, do mesmo jeito, a geração Y pode ensinar e muito a todos nós da geração X e baby boomers.

Então, em homenagem a todas as vovós do mundo, uma frase que uma amYga costuma dizer: “Aperta F5 e atualiza aí, mãe!” E eu peço a licença de estender aqui este convite aos empresários e educadores de plantão. Um ótimo F5 para todos. Refresh. #FUI. #beijomeliga.

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16 Responses to “Chapeuzinho Vermelho 2.0”

  1. AndreSinkos disse:

    Se a vovó tivesse Msn e twitter seria tudo bem mais fácil, que tal uma webcam de aniversário? Vamos fazer igual ao comercial das havaiannas e tornar nossas vovós moderninhas :) ! #F5 #bjomead @chapeuzinho

    • Flavia Vianna disse:

      Sinkos + Sinkos = 10!
      Você é a prova viva que as relações da geração Y não são superficiais. Além de um ótimo profissional que eu tenho orgulho de ter na minha equipe de trabalho, vc é um amigo verdadeiro, super parceiro e super presente!
      E vamos providenciar uma ação de MKT de guerrilha pra promover MSN, Twitter e webcan para todas as avós! Tipo assim… #NOW
      #beijomeliga

  2. Tatiana Kielberman disse:

    Flávia,
    Ao ler esse post que você escreveu de um jeito único, divertido e #antenado, não pude deixar de lembrar da minha infância!
    Fiquei pensando em como me sentia ao visitar minha avó e ouvi-la falar que, no seu tempo, as coisas não eram tão rápidas e dinâmicas.
    Um pouco depois, já na adolescência, ela começou a querer aprender comigo sobre tecnologia, e aí eu já vi tudo… É claro que me sentia desapontada em desligar o PC para comer bolo na casa dela no domingo, mas hoje vejo que isso não tem preço! E como faz falta depois que a gente perde…!
    Beijos e parabéns!

  3. “AmYga” “Aperta F5 e atualiza aí, mãe!” E “Um ótimo F5 para todos. Refresh. #FUI. #beijomeliga.”

    #rialtíssimo, Genial!

    Porém acho que não podemos desconsiderar a interrelação necessária a criação de empatia, valores e comportamentos, entre, digamos, seres humanos. Concordo que a reação tem pouco a ver com sentimento. O amor da #chapeuzinho por sua avó pode ser indiscutível. Mas seu comportamento mostra uma tendência dessa geração de tornar o relacionamento um tanto quanto (e isso eu que acho) impessoal. Cabe ao mais maduro entender que os signos e reações são outros, que mandar uma DM pode ser sim uma demonstração sincera de sentimento real. O problema são os meios: enquanto para a avó e para a mãe o meio é real e interativo, para os Y o meio é simples e puramente virtual.
    O desafio aqui é encotrar uma comunicação entre-meios e não há como isso acontecer se, a mesma mãe que cobra a afetividade, não se esforçar para entender a linguagem própria de sua filha. Isso também é alienação. E só há comunicação quando todos falam o mesmo código, seja digitado ou escrito à mão ;)

    • Flavia Vianna disse:

      Guedolino,
      fico pensando e o que seria de nós se não tivéssemos amigos assim, interessados em criar relações interativas mais saudáveis e mais maduras. Em entender melhor o outro e trocar figurinhas com as figurinhas de plantão ;-) para ampliar nossas percepções de mundo.
      Valeu, querido!
      BJs

  4. Raphael disse:

    Às vezes esse mundo fragmentado me causa um sentimento de confusão tão grande que já não sei se sou DDA, se tenho stress ou se simplesmente meu X tá virando W e perdi o bonde (bonde? trem-bala!) da geração Y.

    Ao mesmo tempo em que trabalho usando Word, Excel e a Intranet, baixo um arquivo, checo Hotmail, GMail e Yahoo, escrevo no Twitter, espio o Orkut e atendo ao telefone. A cada hora ainda olho o email corporativo e no meio do trabalho passeio pelos blogs e por páginas tentando achar uma maneira de fazer o MSN funcionar nessa rede bloqueada. No fim da tarde pago as contas no Internet Banking e procuro um livro ou um CD no ecommerce.

    Sinto falta de uma rede na varanda na beira da praia. Ou de uma cadeira de balanço na casa de fazenda. Mesmo sabendo que lá sentiria falta da internet, do notebook e do celular.

    Nossa sina é sentir falta!

    Enquanto não podemos ver o código fonte, vamos dando F5 a cada novo reboot… Digo, amanhecer!

    • Flavia Vianna disse:

      Oi Rapha,
      se nossa sina é sentir falta, sinto falta cada vez mais de pessoas como você, com sua facilidade de interação e valorização do trabalho e atitudes positivas dos outros.
      Dei uma olhada nos links dos blogs que você me passou pelo twitter. Muuuuito legal. Só você mesmo pra fazer aquilo. E obrigada por me deixar fazer parte dessa história ;-) Amei!
      Amigos 2.0 são tudo de bom!
      F5,
      Flavia

  5. Suely Vianna disse:

    Oi Vita.
    Desde muito pequena você sempre me impressionou com a sua atração e curiosidade pelo novo, contrariando a postura mais comum do ser humano.
    Com orgulho leio esses textos nos quais você aborda com lucidez e maturidade, diferenças entre o mapa de mundo das gerações X e Y.
    Percebo até um pezinho seu na geração Y, né?
    Mas eu faço questão de lembrar que você é geração X (lembre portanto dos seus e principalmente dos MEUS valores).
    A partir daí, eu lhe proponho a seguinte questão REAL E PRESENCIAL:
    A sua velha mãe está MORRENDO de saudades suas, quando que você vem visitá-la? rsrsrsr
    Adorei o post. Ah! Ia me esquecendo:
    Apertei o F5. Bjs. Fui
    Mother

    • Flavia Vianna disse:

      Mother,
      seu F5 é sempre um espetáculo! rsrsrs
      A sua filha totalmente X vai visitá-la PRESENCIALMENTE agora em dezembro! Presente de Natal. Já até mandei um e-mail pra vocês avisando. NADA de post no twitter, de mensagem pelo MSN. Filhota REAL aí na casa da mother ;-) E que a Geração Y que nos desculpe, mas saudades entre a gente, se mata mesmo é bem juntinho, né?
      Beijos e cheiros da filhota

  6. “Um ótimo F5 para todos. Refresh. #FUI. #beijomeliga.” Não poderia encerrar o texto de forma mais brilhante. Ter ousadia de admitir que velhos clichês não são mais garantias de sentimentos reais é a sua casa, minha amiga mais Y impossível. Ao contrário do que as pessoas pensam, uma DM pode ser mais representativa que uma chuva de pétalas de flores (td combinado com @ocriador). O que importa não é a quantidade do tempo que passamos ao lado de alguém (presença física), mas a qualidade desse tempo; ou as “demonstrações de impacto para plateias” e sim a intensidade e verdade desse sentimento.
    O quesito “número de cliques” gradativamente está perdendo relevância até para o Google. Agora, a palavra da moda é RELEVÂNCIA. Por isso, afirmo com convicção que jamais trocaria minha meia dúzia de seguidores – em especial aqueles que sei que realmente tem carinho e se importam com o que escrevo – pelos milhares de seguidores do Bonner no Twitter. Tempo é um produto raro na vida de todos, por isso nada melhor que dedicarmos os poucos minutos em que não estamos focados no trabalho com quem vale a pena, demonstrando mesmo que com simples palavras e gestos quem é importante para nós, assim como você querida @FlaviaVianna. #atoroooooooooooo #FollowForever :D
    #bjometwitta
    @dani_rodrigues

  7. Parabéns pelo post. E pertinente ao um momento que estou passando. Apesar de me considerar uma mistura de Geração X com Y, por obviamente ser um #nerd #micreiro #criativo #locão vejo que a Geração Z vai já está na ativa. Digo isso, até um pouco preocupado, pela minha filhinha de apenas 3 anos que fissura no Youtube e brinca de pintar no Photoshop. É certo que tento equilibrar o tempo dela entre ficar na frente do computador e montar um quebra-cabeça(que alías jah esta montando um de 100 peças!). A verdade é que as gerações que virão terão uma questão muito singular para pensar. Coloco ou não um implante digital? Com a popularização da Realidade Aumentada isso não vai estar tão longe de acontecer e o ser humano vai mudar o estilo de vida radicalmente. Espero que ainda sintam a grama nos pés e brinquem com bolhas de sabão. A minha menina “ainda” brinca. #bjnaomeligaqueestoudormindo

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