
Por Ines Schinazi
Uma entrevista com a Miss Mundo Brasil 2009 Luciana Bertolini.
Os padrões de beleza evoluem constantemente, se olharmos de relance para o estado de espírito atual da sociedade. Em 1951, a época das donas de casa, Miss World, o mais antigo sobrevivente entre os concursos de beleza internacional, era lançado. Vinte anos depois, em 1970, o concurso foi tema de protesto, quando o anfitrião Bob Hope foi atacado com fumaça e bombas de farinha jogadas por protestadores feministas. Por volta dos anos 80, o concurso tentava melhorar sua imagem, adotando o slogan, “Beleza com um propósito”, enfatizando o envolvimento das concursantes em trabalhos de caridade. Pela primeira vez na história, as participantes também são julgadas por sua inteligência e personalidade. Agora, em 2009, Luciana Bertolini se tornou Miss Mundo Brasil.
Ela não cresceu como uma pequena miss sunshine. Apesar disso, a modelo e estudante de jornalismo de 24 anos acaba de ganhar o título de Miss Mundo Brasil e participará do concurso para Miss World em dezembro. Seu futuro como rainha da beleza é algo um tanto surpreendente, em especial quando se lembra de que, aos 10 anos, pensava: “Eu não quero usar um vestido repleto de pérolas e pedras, desfilando com uma coroa…”
De fato, ela recorda a tímida mas espirituosa garota de 10 anos, que após vencer sua primeira competição, escondeu sua coroa e rasgou suas fotos, ficando muito sem jeito pelo acontecido.
Porém, ela recentemente compreendeu que não poderia ir contra o destino. A irmã mais velha de Luciana, Adriana Reis, também foi nomeada Miss Mundo Brasil em 1998, sendo a primeira vez na história brasileira em que duas irmãs ganharam o mesmo título.
Então, como Luciana passou de uma brava vencedora de concurso de beleza aos dez anos para ser Miss Mundo Brasil? Ela explica: “Eu compreendi que minha participação [no concurso] poderia me abrir portas, principalmente porque quero trabalhar como jornalista.”
Quando questionada sobre as diferenças entre suas experiências como modelo e como concorrente a concursos de beleza, ela conclui: “As modelos precisam ser como cabides para roupas. A coisa boa sobre o concurso para Miss Mundo é que você se sente e é tratada como um ser humano.”
Em uma entrevista exclusiva, Luciana conta como é participar do Miss Mundo. Ela reflete sobre os padrões de estética em constante transição, sobre ser uma jovem mulher em meio à indústria da moda e conta o que significa quando crianças confundem você com a Barbie.
Ines: Como foi para você ter recebido o título de Miss Mundo Brasil? Foi algo que você sonhou desde criança?
Luciana: Quando eu tinha 10 anos, participei do meu primeiro concurso de beleza e ganhei. Na época, não gostei, fiquei envergonhada, escondi minha coroa… você sabe, coisas de criança. Eu era realmente tímida. Também me lembro de rasgar algumas das fotos que minha mãe havia tirado no concurso, o que logicamente a deixou muito triste!
Dez anos atrás, minha irmã mais velha também ganhou o título de Miss Mundo Brasil. Eu me lembro de ter dito: “Eu não quero fazer isso, desejo focar em meus estudos e minha carreira profissional.” Não era algo que estava nos meus planos.
Porém, quando completei 21 anos, surgiu outra oportunidade de participar. Nesse momento eu compreendi que seria algo que poderia me abrir portas, principalmente porque quero trabalhar como jornalista e estou estudando para isso na universidade.
Uma coisa que eu realmente gosto no concurso para Miss Mundo é que eles valorizam seu conhecimento cultural. Todas as candidatas são entrevistadas sobre atualidades e assuntos diversos, inclusive me perguntaram sobre o status atual do Senado Brasileiro.
Ines: É engraçado, porque a percepção que nós geralmente temos é de que as rainhas dos concursos de beleza sempre sonharam em fazer isso, mas não foi o seu caso…
Luciana: Não, realmente não era o meu caso! Lembro que quando minha irmã ganhou o título de Miss Mundo Brasil eu tinha doze anos de idade e nós dormíamos no mesmo quarto. Ela chegava, espalhava todas as suas coisas, fazia uma grande bagunça com sua coroa e tudo o mais! Eu me recordo de assistir aquilo e observar o quanto ela ficava estressada, correndo de um evento para o outro, não queria isso para mim.
Ines: Então, o que exatamente a fez mudar de idéia e querer participar?
Luciana: É claro que participar de um concurso de beleza envolve ego. Toda mulher gosta de ser elogiada. Mas eu não fui motivada unicamente por esse fator ou pelo glamour que vem junto a isso.
Eu compreendi que o concurso poderia me abrir portas. Obter um título como o Miss Mundo Brasil ou Miss World, é algo que diferencia o seu currículo.
Ines: Por que você escolheu estudar Jornalismo?
Luciana: Sempre fui tímida. Mas tentava superar minha timidez fazendo coisas que me desafiavam.
Por exemplo, comecei a trabalhar como promotora de eventos, precisei falar com estranhos na rua e convencê-los a testar produtos. Foi difícil para mim, realmente morri de medo! Mas queria fazer coisas para superar a timidez e aumentar minha autoestima.
Também sempre gostei de escrever, era o modo pelo qual me expressava melhor. Quando eu dizia às pessoas que queria estudar Comunicação, elas questionavam, “Como assim? Você é tão tímida…” Mas aquilo realmente me motivou mais e eu enxerguei os estudos de Jornalismo como um desafio.
Ines: Li que o seu dia de maior orgulho foi quando foi aceita na universidade…
Luciana: Eu realmente valorizo a educação. Acho que muitas meninas são influenciadas pela moda a tal ponto que, quando se tornam modelos, esquecem de seus estudos. Mas uma carreira de modelo é curta. Nem todo mundo obtém o sucesso da Gisele ou da Adriana Lima. Penso que é importante ter os pés no chão.
Ines: Você pode me contar um pouco mais sobre a idéia do concurso que preza a “Beleza com um Propósito”?
Luciana: O concurso no Brasil abraça uma causa ambiental que é a preservação da Amazônia. Nós trabalhamos muito perto da ONG Amigos da Terra.
O concurso Miss Mundo Brasil dedica sua imagem essencialmente a causas sociais e mudanças na sociedade. O objetivo é tentar fazer com que as pessoas aumentem seu nível de consciência social. Preciso saber falar sobre assuntos diversos. Inclusive, na próxima sexta-feira darei uma aula sobre sustentabilidade.
Ines: A sustentabilidade é algo que realmente te traz paixão?
Luciana: É engraçado porque meus amigos brincam dizendo que eu sempre fui a “Miss Ecologia”. Desde pequena, não conseguia ficar parada assistindo às pessoas jogando lixo nas ruas. Isso vem da minha educação. Quando fazíamos isso, meu pai nos mandava voltar atrás e pegar o lixo do chão. Então, meus amigos dizem: “É claro que você ganhou o concurso, tinha que ser você!”
Acho que sempre tive essa consciência ambiental. Eu apenas não tinha tanto conhecimento sobre o tema como agora, mas essa causa realmente mexe comigo.
Ines: O que é beleza?
Luciana: Beleza é um conceito muito amplo. Os padrões atuais de beleza não são os mesmos de alguns anos atrás. Eles constantemente se adaptam e são transformados pela sociedade. Geralmente, em concursos de beleza, não é a garota mais bonita no sentido físico da palavra, quem vence. Penso que a beleza, independente da época, seja uma combinação de atitude, elegância, inteligência e carisma.
Se alguém é bonito por dentro, isso fica visível pela expressão. Então eu discordo quando ouço as pessoas falarem: “Isso é um concurso de beleza, não um concurso de QI”. Parece clichê, mas a beleza abrange muitas coisas. É por esse motivo que eu valorizo o concurso Miss World, acho que eles dão valor a isso.
Ines: Sim. É interessante que as candidatas são atualmente grandes empreendedoras. Elas falam vários idiomas e geralmente possuem ao menos um diploma universitário.
Luciana: Com certeza. O problema é que as rainhas da beleza sempre foram estereotipadas. Ainda há muito preconceito. As pessoas imaginam que uma mulher bonita não tem cérebro, pensam em alguém totalmente inocente e ingênuo.
Muitas pessoas dirão que eu sou quieta, mas sou realmente astuciosa. Acho que devemos preservar nossa inocência em relação a algumas coisas, mas também ter consciências das intenções “não tão boas” por parte dos outros.
Ines: Já que você está envolvida em ambos, o que você percebe como as principais diferenças entre atuar como modelo e participar de um concurso de beleza?
Luciana: A modelo precisa vender roupas ou um produto. Como Miss Mundo, acontece o oposto. Ela precisa mostrar ao júri quem ela realmente é. Ela dedica sua imagem à ação e à mudança social. A Miss é um exemplo, principalmente para as crianças. Certa vez, eu estava caminhando perto de uma garotinha e sua mãe. A mãe disse, “Veja, querida, é a Barbie.” E a pequena garotinha se voltou para mim, com brilho nos olhos. Aquela experiência realmente me fez pensar. Compreendi a responsabilidade que envolve ser a Miss Mundo Brasil. Uma criança te olha e tenta ser como você. Você se torna um ideal, não apenas em termos de beleza, mas em relação a tudo. É por isso que você possui maior responsabilidade do que uma modelo, por exemplo. Você não pode ser vista bebendo ou namorando em público. Precisa ser uma lady, cuidar da sua imagem. Você se torna um exemplo e um ponto de referência.
Ines: O Miss World é o mais velho sobrevivente entre os concurso de beleza. Do seu ponto de vista, de que forma os padrões de beleza se modificaram?
Luciana: No passado, as vencedoras do concurso Miss Mundo e Miss World possuíam algumas curvas, as que eram muito magras raramente ganhavam. Logicamente, isso está mudando hoje. Penso que é um pouco triste. O concurso Miss Mundo também está seguindo os padrões da indústria da moda.
Ines: O que você deseja alcançar em sua vida?
Luciana: Eu quero seguir carreira em jornalismo. Também desejo escrever livros.




