
Por Ines Schinazi
Assim como dito no post abaixo, aí vai a continuação (a segunda parte, de três) da entrevista com Bruce Tulgan, fundador da Rainmaker Thinking Inc, autor de diversos best-sellers e vencedor em 2009 do prestigioso Golden Gavel Award da Toastmaster´s International, que falou exclusivamente ao Foco Em Gerações:
Ines: De que maneira os aspectos relacionados ao privilégio, à cultura e à classe social se encaixam em “Nem todo mundo ganha um troféu”? A ideia de que a geração ganha troféus simplesmente por ter nascido é ligada a uma educação americana privilegiada?
Bruce: O título faz referência ao fato de a geração Y ser composta por crianças que ganharam troféus simplesmente por fazerem parte dela. Muitos dos chamados ‘experts’ têm se especializado nesse assunto, mas nossa pesquisa mostra que grande parte deles entendeu bastante coisa errada. Em diversos livros e artigos recentes argumentam que, se a geração Y sempre foi merecedora de um troféu apenas por ter nascido, talvez a melhor forma de gerenciá-la seja oferecendo elogios. Basicamente entregar um troféu só pelo fato de existirem.
Esses ‘experts’ direcionam os gestores a criarem programas de “agradecimento”, “elogios” e “recompensas”. Recomendam fazer do recrutamento uma estratégia de venda da imagem da empresa, transformar o ambiente de trabalho em um playground, reformular o treinamento para que envolva jogos interativos de computador, encorajar os jovens a encontrarem um “melhor amigo” no trabalho e, por fim, ensinar gerentes a maneirarem sua autoridade. Do meu ponto de vista, esse olhar não se aplica à realidade, especialmente no ambiente de hoje.
Eis aqui uma pequena história sobre a geração Y. Se você já gostava da geração X, irá amá-la, pois é parecida, mas com um “quê” a mais de autoestima, esteróides e visão de futuro. A infância dos Ys foi definida em grande parte nos anos 90 e eles chegam ao seu primeiro estágio da vida adulta em meio às mudanças do ano 2000 – a era da incerteza. Alguém poderia dizer que as mesmas forças históricas que formaram a geração X também estão formando a geração Y: globalização e tecnologia, instituições em constante fluxo, uma maré de informações e o crescente imediatismo de tudo. Mas essas forças ganharam tanta velocidade em apenas uma geração que eu argumentaria que há uma profunda diferença na experiência dos Ys. O globo está agora totalmente interconectado. Os membros da geração Y se conectam com seus vizinhos mais distantes em tempo real, independentemente da distância geográfica.
Porém, conforme o mundo encolhe (ou se torna plano), acontecimentos do outro lado do planeta (ou na porta ao lado) podem afetar nosso bem-estar material. Instituições mundiais – nações, estados, cidades, vizinhanças, famílias, corporações, igrejas, redes de caridade e escolas – permanecem em um estado de fluxo constante simplesmente porque precisam sobreviver. A autoridade é questionada rotineiramente. A pesquisa é rápida e fácil. Qualquer um pode ter coisas suas publicadas. Tentamos fazer filtros em meio a essa onda interminável de informações vindas por infinitas fontes. Um ano é um prazo muito longo e cinco anos são simplesmente uma alucinação. O curto prazo é a chave para a relevância em um mundo definido pela constante mudança, em que respostas instantâneas são o único tempo significativo.
Ines: Mas o que tanto diferencia a geração Y neste contexto de mundo?
Bruce:A geração Y se sente confortável com essa mudança de variáveis altamente rápida e interconectada. A incerteza é seu habitat natural. A globalização não faz com que se sintam pequenos, faz com que se sintam presentes no mundo inteiro. A mudança tecnológica não faz com que precisem fazer esforço para prosseguir, ela os faz se sentirem conectados e poderosos.
As instituições podem estar em um fluxo constante, mas não há problema nisso, a geração Y transita de qualquer forma, tentando absorver o máximo de experiências e recursos possíveis. E assim por diante.
O poder da diversidade se tornou a grande “sacada”. A geração Y é a mais diversa na história em termos de heranças étnicas, origens geográficas, habilidades/inabilidades, idade, idiomas, preferências, orientação sexual, cor, tamanho e qualquer outra forma de categorizar as pessoas. Mas isso não faz com que os Ys se sintam alienados ou ameaçados. Eles adotam o conceito de diversidade em um nível completamente novo, sentem pouca necessidade de se conformar com a proposta das instituições para adentrá-las. Para eles, a diferença é importante. A unicidade é a peça central da identidade.
De que maneira, os Ys formatam e reformatam sua unicidade continuamente? Eles querem customizar tudo que podem. Isso vai além dos serviços e produtos que compram. A geração Y quer personalizar os detalhes de sua mente, corpo e espírito, personalizando seu ambiente de informações na internet. Perseguem vorazmente um crescente arranjo de alimentos para a mente – imagens, sons, experiências, textos – em um leque cada vez maior de mídias, formatos, fontes e propostas (educação, treinamento, auto-ajuda, saúde, entretenimento, notícias, família, interesses do consumidor, planejamento de vida e morte, espiritualidade e assim por diante).
Eles personalizam seu corpo utilizando-se de um leque de ferramentas e técnicas naturais e artificiais, de tatuagens a piercings e tendências da moda. Seus esforços vão da obsessão alimentar às cirurgias, da Ritalina ao naturalismo, da yoga aos esteróides; implantes, clareamento dental, creme bronzeador e daí por diante. Além da família, eles customizam suas relações mais primárias, ultrapassando o tempo e o espaço em redes de relacionamento personalizadas. Eles customizam, inclusive, vidas espirituais de acordo com sua própria concepção sobre o assunto. A geração Y geralmente agrega parte dos ensinamentos de uma ou mais tradições religiosas, rejeitando outras e, por fim, estabelecendo sua própria seleção de valores e crenças, bem como de práticas espirituais e religiosas.
Desde o primeiro dia em que chegam ao mercado de trabalho, eles clamam por manter abertas as suas escolhas, elevar sua unicidade a todo o seu valor potencial e criar uma carreira personalizada em torno da vida customizada que eles estão tentando construir.
Ines: Em seu livro, você afirma que a ideia de que a geração Y precisa se divertir no trabalho é um mito. Recentemente entrevistei Don Tapscott, o autor de “Wikinomics”. Ele escreve, “Eles (a geração Y) pensam que o trabalho deve ser divertido e desafiador.” Ele ainda afirma, “O treinamento precisa mudar, também. Algumas empresas estão utilizando treinamentos baseados em jogos…” Isso parece contrastar com a sua visão. O que você pensa a esse respeito?
Bruce: Uma das coisas mais importantes que aprendi em nossa pesquisa é que a maior parte dos Ys não quer estar bem-humorada no trabalho. Eles querem ser levados a sério. Mas também desejam que o trabalho seja engajador. Querem aprender, ser desafiados e entender a relação entre o trabalho e a missão geral da organização. Eles desejam estar com boas pessoas e ter certa flexibilidade em onde, quando e como trabalham.
Por meio dos computadores, a geração Y deseja preencher os gaps de conhecimentos e habilidades que cruzarem seu caminho. Suas ferramentas são geralmente os sistemas monitorados de informação, diretórios wiki e sites de redes de relacionamento. Se sentem perdidos quando possuem ferramentas de gerenciamento de informação menos sofisticadas no trabalho do que as que possuem em casa. Mas isso não significa que eles queiram aprender apenas por meio do computador. Eles certamente precisam do elemento humano para obter o melhor aprendizado. A geração Y adora os adultos e ama aprender com pessoas em quem confiem e que estejam dispostas a compartilhar o aprendizado de suas experiências.
Os Ys, principalmente os mais capazes e ambiciosos entre eles, trabalham a fundo para obter papéis mais significativos e que exijam maior responsabilidade pioneiramente na carreira, em relação aos jovens trabalhadores das gerações anteriores. Isso não é apenas arrogância da parte deles, mas principalmente o resultado de sua adaptação natural ao ambiente repleto de informações.
Os gestores me dizem o tempo todo, “Em nossa linha de trabalho, é especialmente desafiador oferecer responsabilidades significativas aos jovens inexperientes. Talvez um jovem pudesse adquirir o conhecimento e a habilidade necessários para realizar uma dessas tarefas e responsabilidades, ou duas, ou três, ou quatro. Mas o papel que eles desejam é muito complexo para ser entregue por inteiro a alguém que não tenha muitos anos de experiência.” Eu juro a você, isso tem sido dito por líderes em supermercados da mesma forma que em laboratórios de arma nuclear – enfim, por todos. Chamamos isso de “problemas de papéis significativos.”
Ines: E qual seria uma solução para esses gestores e companhias?
Bruce: O fato é que se levam meses ou anos para acelerar a produção dos Ys e atribuir a eles papéis significativos em sua equipe, depois, você terá sérios problemas em manter essa geração de alto potencial engajada e crescendo. Não me diga que você está se esforçando para gerenciar e manter os melhores da geração Y, para depois falar que levará meses ou anos até que eles possam fazer um trabalho importante, permitindo aos seus colegas e chefes levá-los a sério. Como você pode lidar com esse dilema? Talvez tenha que desmembrar papéis complexos, para depois reconstruí-los parte a parte. Você pode oferecer à geração Y um trabalho significativo nos estágios iniciais de sua entrada na empresa, comprometendo-se a ensinar e transferir a eles uma pequena tarefa ou responsabilidade por vez.
Então, geralmente eu vou a uma organização que está tentando remodelar suas práticas de treinamento para compreender o que eles pensam que a geração Y quer e precisa.
Aqui estão as boas notícias: você não precisa transformar tudo (ou nada, na verdade) em um jogo de computador para se conectar com as necessidades de aprendizagem dessa geração. Mas você realmente deveria fazer o esforço para trazer a eles a tecnologia que são tão confortáveis e adeptos a usar.
Sim, a geração Y quer a mais recente e melhor tecnologia. Mas isso não é apenas um desejo. É como respirar. É a conexão deles com o extenso ambiente de informações. Para eles, os imperativos da tecnologia de informação são simples: constante conectividade com qualquer pessoa que queira acesso imediato a qualquer informação, customização total de seu ambiente de informações e habilidade para aprender e colaborar com experts em tempo real
A tecnologia Wiki é a mais recente facilitadora em termos de colaboração, pois permite que diferentes pessoas contribuam com um trabalho, mesmo estando a longas distâncias e disponibilizando o tempo que tiverem para isso.
As redes sociais permitem que qualquer um construa relacionamentos com pessoas de interesses similares – seja dentro ou fora da empresa – ultrapassando a distância ou outras fronteiras. A noção de mensagem instantânea significa que qualquer pessoa pode perguntar para qualquer “conhecido” sobre qualquer coisa a qualquer hora. Imagine um modo de pensar no qual essas ferramentas – junto à sua correspondente conectividade, imediatismo, acesso constante e personalização total – sejam assumidas como essenciais? A única pergunta é: o que você está fazendo para facilitar o uso dessas ferramentas por parte da geração Y, de modo a expandir sua eficácia no trabalho?
Coloque as ferramentas em suas mãos e assista a eles suprindo um pequeno gap de informações por vez em tempo real. Essa é a forma altamente tecnológica de aprender uma tarefa a cada instante. Com o acesso à tecnologia que eles conhecem e apreciam, a geração Y fará ajustes e terá um desempenho relacionado ao seu aprendizado no trabalho de uma maneira que você poderá se chocar ou se deleitar.
Especialmente quando são novos no trabalho, os Ys ficam ansiosos para identificar problemas que nenhuma outra pessoa identificou e resolver problemas que ninguém mais solucionou. Eles querem melhorar o que já existe e inventar coisas novas.
Grande parte da geração Y entende todos esses fatores como pré-requisitos e não concebe tal realidade de nenhuma outra forma. O real desafio é mantê-los focados em todo o trabalho para o qual você os contratou para fazer, encorajando-os simultaneamente a alavancar o conhecimento e as habilidades naquelas tarefas. Quanto mais você encorajar os Ys a pensarem sobre seu trabalho – qualquer que seja ele – mais engajados eles serão. Ajude-os a canalizá-lo diretamente seu trabalho ao invés de desperdiçar suas ideias e perder o entusiasmo. Se você contrata alguém para descarregar caixas de um caminhão e aquela pessoa quer contribuir com ideias, você precisa fazê-la focar seu pensamento e aprendizado em como pode descarregar as caixas de uma melhor maneira.
Quando batem à porta, os Ys querem obter sucesso imediato. Treinando-os a fazer uma tarefa por vez, oferecendo a eles as ferramentas tecnológicas de que precisam para serem rápidos e eficientes, além de auxiliá-los a focar sua energia e ideias nas tarefas que têm na mão, você estará hábil a manter acesso o entusiasmo e fazer com que a excitação deles vá além de seu primeiro dia de trabalho.




