
Por Luiz Alves*
Almoçando hoje em uma praça de alimentação de um shopping center não pude deixar de ouvir uma conversa de um grupo de rapazes em uma mesa ao lado. Estavam em sete, todos empregados de uma rede de supermercados, e calorosamente discutiam maneiras de como lidar com o chefe. Ensaiavam uma conversa que pretendiam levar com ele, que na visão deles era incompreensivo e não reconhecia o trabalho do grupo.
Quando o rapaz que parecia ser o líder do grupo, que se mostrava bastante agressivo, pareceu convencê-los de que deveriam se reunir com o chefe naquela tarde e pressioná-lo a mudar de atitude, mesmo que isto significasse colocar o emprego deles em risco, um dos garotos demonstrou não estar convencido que aquela era a melhor maneira de agir. Diferentemente do rapaz que polarizava a discussão, este era mais tranqüilo e falava baixo. Então questionou se todos se sentiam confortáveis a pressionar o chefe, e todos – talvez por sentirem a pressão do líder – disseram que sim.
Então veio a pergunta fatídica do rapaz que se sentia desconfortável com a situação, mas não se alinhava com a estratégia defendida pelo resto do grupo: O que vocês fariam no lugar do chefe, se sete pessoas de sua equipe te procurassem para “exigir” mudanças de tratamento?
Depois de acalorada discussão, houve uma nova dissidência, agora eram dois do grupo de sete os que não estavam de acordo com a estratégia de pressionar o chefe por mudanças como se pensou inicialmente. O líder, ou talvez polarizador, da conversa demonstrou clara irritação por estar sendo contrariado e passou a falar mais alto, quase não permitindo aos demais fazer qualquer tipo de comentário. Adotando uma postura de mártir perguntou: tem mais algum “b.. mole” no grupo, ou vamos enfrentar o chefe e falar tudo que a gente conversou aqui? Se ele não topar mudar acho que temos que reclamar dele para a gerência.
Todos se calaram fazendo reafirmar a posição de líder do rapaz que claramente tinha diferenças com o chefe que se estendiam além daquilo que conversavam entre eles. Foi quando ele disse, “vamos então e, no final do expediente, a gente o tranca na sala e fala tudo que der vontade”. Uma nova pergunta surgiu: e se ele não quiser falar com a gente, o que faremos? “A gente o obriga, dizendo que se ele não ouvir tudo que temos a dizer, vamos reclamar para o chefe dele”.
Novamente, um pequeno intervalo de silêncio, e o líder do grupo diz que o chefe não teria outra opção, afinal eles estavam em sete contra ele. “Não tem como dar errado”, completou.
“Acho que não é tão fácil assim”, disse outro rapaz, “ele pode mandar todo mundo embora”. “Como? Estamos em sete e ele não pode mandar sete para rua e ficar de boa… ele vai ter que explicar”, retrucou o líder do grupo. “Você disse tudo, ele pode ter que explicar, mas ele pode nos mandar embora a hora que quiser. Aí amigo, já era. Não vou colocar meu emprego em risco, ainda mais agora no fim do ano que tem fila de gente procurando emprego”.
Agora eram três – quase a metade do grupo – que não estavam de acordo com a estratégia defendida pelo líder da discussão.
A confusão se instaurou entre eles, especialmente porque o líder disse em alto e bom tom que eles eram covardes e medrosos. “Não é questão de ser covarde”, respondeu um deles, “é o nosso emprego que está em jogo”. “Eu também não posso perder o meu emprego”, disse um dos rapazes, o que fez o líder da discussão ficar ainda mais furioso, que atirou: “eu não falei que vocês eram uns covardes? Tinha certeza que vocês iriam dar para trás. Sabe de uma coisa, vocês que se ferrem junto com o chefe”, completou o rapaz. E saiu.
Os outros seis permaneceram ali e fizeram uma boa reflexão sobre a discussão, cujas conclusões, segundo a minha leitura, aqui sumarizo:
-Por pior que seja a relação com o seu chefe, não se pode chegar com o pé na porta, como queria fazer o colega deles, caso contrário se perde a razão. Nestas situações, é sempre é mais inteligente tentar pela via do diálogo.
-Nem sempre os argumentos são tão contundentes quanto parecem e, mesmo imbuídas de boas intenções, as pessoas podem se deixar levar pelo preconceito, mágoa e outros sentimentos escondidos ou pela influência do grupo.
-Não se deve misturar assuntos pessoais com assuntos de trabalho. Se o cara tem alguma diferença pessoal com o chefe, deve ficar na rua e não no ambiente de trabalho (sic).
-As pessoas têm opiniões diferentes e todos devem poder dar a sua opinião, em especial quando o assunto tem a ver com todo o grupo. Ninguém pode falar em nome de ninguém.
-Reclamações coletivas, em geral, pegam mal porque pode passar a impressão de motim.
-O modo como se argumenta e mostra suas idéias claramente denota intenções ocultas. Em geral, aquele que é verborrágico e pouco profundo não se dá conta disso.
Finalizando, um ponto para reflexão é que nesta situação ficou claro que quando um membro do grupo levanta alguma questão ou expressa uma posição contrária ao aparente consenso, os demais passam a analisar os fatos de forma mais criteriosa e isto pode levar a demover aquilo que parecia ser uma certeza absoluta. Para aqueles que gostam de filmes, recomendo ver “Doze homens e uma sentença” (foto) que descreve uma situação parecida com a que acabo de relatar. Trata-se de uma pérola do cinema, um filme clássico, inesquecível, uma verdadeira obra-prima cinematográfica que vale a pena ser visto.
*Luiz Alves é brasileiro, complexo, criativo, apaixonado e simples. Me considero um ser humano na essência da palavra, muitas manias, mas especialmente apaixonado pela vida. Isto inclui alguns prazeres como: cozinhar, escrever, pintar, fotografar, ler e velejar.
Desde muito cedo aprendi a gostar de poesia, já muito tarde comecei a escrevê-las. Aprecio ler, e gosto de escrever, principalmente poesias quando estou em algum lugar que sinto uma especial atração.
Sempre gostei muito de artes em geral, mas não acreditava que poderia criar algo de valor artístico. Como teimoso que sou comecei a pintar e fui evoluindo até criar um estilo muito particular que defino como Expressionismo Poético. No final de julho de 2008 fiz minha primeira exposição de quadros em Buenos Aires, foi uma experiência sensacional. No mesmo mês de agosto publiquei um livro de poesias chamado “Poesia de Colores”, onde alem das poesias – uma para cada cor – todas escritas em espanhol, pintei um quadro para cada cor e que também fazem parte do livro.
O mar me encanta, tem mistérios que me atraem, e ao mesmo tempo tenho grande respeito. O mar é implacável com aqueles que não o respeitam e o desafiam. Não existe nada mais encantador do que navegar sobre suas ondas, de forma respeitosa, com um barco a vela. Sentir a força do vento te levando oceano adentro, ouvindo apenas o silêncio.
Sigo aprendendo todos os dias e ainda nada sei. Meu blog: http://blog.luizalves.net





Luiz, seu texto está perfeito, e a leitura da situação que se colocou foi muito profissional, parabéns pela abordagem!
Agora, já que o emprego do pessoal era em um supermercado, permita-me fazer uma colocação sobre esse segmento para ilustrar um pouco o ambiente da discussão, pois esses problemas são muito mais do que comuns nesse ramo: já reparou no número de vagas que existem para gerente de supermercados, e que no perfil da vaga exige-se segundo grau completo? SEGUNDO GRAU é o que exigem para um gerente de mercearia, açougue, padaria, frutaria, análise de crédito, fechamento de caixa, segurança, balanço trimestral de 15 mil itens, contratação e demissão, relacionamento com cliente, compras, custos e armazém. Tudo junto, de uma só vez, para uma carga horária superior a 10h/dia, seis dias por semana.
Agora me diga qual a chance de ocorrer esse tipo de conflito para gerenciar tudo aquilo diante de uma equipe de no mínimo 50 pessoas (uma loja de uns 10 checkouts) sendo o gestor um profissional sem experiência universitária, geralmente um ex-pacoteiro esforçado que cresceu na hierarquia até torna-se gerente, remunerado em média como um gerente de loja de confecções?
Infelizmente, camelô que vira dono de emissora de TV é raridade. Numa cidade de 300 mil habitantes, com aproximadamente 60 supermercados de todos os tamanhos, o que mais se vê é isso: Gerente de loja sem nenhuma qualificação profissional e liderança para um cargo de tamanha complexidade. Para um ex-pacoteiro, muitos deles sem grandes expectativas, chegar a uma gerência é mais do que um sonho. Mas o serviço que se vê realizado é pra lá de ruim (existem excessões…), e a capacidade de liderança é a mais precária possível.
Sorte dos 6 que desistiram do motim, pois seriam, com certeza, enviados para o olho da rua pelo seu “gestor”. Supermercado é um dos ramos que mais cresce em tamanho, um dos que menos evolui profissionalmente e que pior remunera seus colaboradores em todos os níveis.
Quem tiver olhos nessa terra de cegos torna-se rei muito mais rápido do que se possa imaginar…
Tenho muitos textos nessa área em meu blog. Se tiver a curiosidade de olhar, entre e fique a vontade, ok!
Grande abraço!
Adriano Berger