
Lilio A. Paoliello Jr.
Em tempos de ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), no dia em que finalmente as provas foram realizadas, acho interessante voltar aos objetivos iniciais deste tipo de prova no Brasil e esquecer um pouco toda a repercussão negativa e politiqueira que o exame teve em sua edição 2009.
Lembro-me da época em que o ENEM foi introduzido, tínhamos a expectativa de ter uma prova semelhante aos exames internacionais para alunos que terminam o ensino básico em vários países: qualificar os estudantes perante a sociedade, mostrar o potencial adquirido na primeira fase de sua escolaridade. Seus resultados serviriam tanto para mostrar um primeiro retrato dos jovens para as empresas que fossem contratá-los, como também para a universidade que os aceitassem como estudantes.
As intenções eram ótimas, mas infelizmente houve um jogo de manipulação que tornou a prova uma “parceira do vestibular” e em seguida seus dados foram utilizados, pela imprensa, para “ranquear” instituições de ensino médio.
Voltar a discutir a prova significa pensar nas competências básicas que são utilizadas para elaborar suas questões. Lembro aqui de parte delas para refletir, em meu cotidiano, como são importantes para qualquer profissional que trabalha em empresa:
Dominar linguagens, compreender fenômenos e enfrentar situações-problema (selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema) e construir argumentação consistente.
Pensei em uma parte de meu dia que hoje é dedicada a responder e-mails – uma solução maravilhosa e tenebrosa da qual não podemos escapar. Lembrei também de um livro maravilhoso “Tia Julia e o escrevinhador”, um dos mais originais de Vargas Llosa. Mesclando humor e romance, o escritor narra a história de Varguitas, um jovem peruano com ambições literárias que conhece Pedro Camacho, autor excêntrico de rádio novelas. Pedro, sobrecarregado, começa a ser um ajudante de autor e a confundir enredos e personagens.
Hoje somos todos “escrevinhadores” de e-mails e se não tivermos as tais competências básicas sugeridas pelo ENEM, corremos o risco de nos tornarmos um Pedro Camacho da era tecnológica.
Reflito sobre como é difícil selecionar as informações que recebemos em nossa caixa eletrônica, como temos que, às vezes, ser frios para não responder no calor da perturbação de um e-mail que nos agride ou nos tira o chão momentâneo, como é raro recebermos uma correspondência eletrônica que apresenta argumentos bem construídos que nos incitam a tomar uma decisão acertada.
Para não nos tornarmos apenas um “respondedor” de e-mails, temos que utilizar nossas competências e, principalmente, a relação entre elas para sermos ágeis, para abreviar o tempo de comunicação, muitas vezes inferior àquele que utilizamos em uma ligação telefônica, para eliminarmos muitas reuniões inúteis que poderiam ser um breve encontro e se tornam horas intermináveis de discussões inúteis.
Para aqueles que lidam com jovens universitários em programas de estagiários e com trainees em fase de primeiro emprego, vai uma boa dica: peça o relatório da prova do ENEM feita pelo jovem que se candidata a uma vaga em sua empresa. A performance dele nas questões que aplicam essas competências pode ser um bom indício do futuro colaborador em atividades importantes como aquela de ser representante da empresa em situações de comunicação escrita.
Para os jovens, um conselho: fiquem atentos aos resultados de seu exame, procure trabalhar as deficiências que você demonstrou nessa prova e apresentar como um poderoso cartão de visitas, as competências que você demonstrou possuir.




