
Por Manuela Mesquita
O lendário ex-CEO da GE Jack Welch defendeu recentemente a necessidade de termos lideranças generosas nos tempos atuais. Ele acredita que “o bom líder é aquele que se preocupa com seus funcionários e suas famílias, que adora dar promoções e aumentos salariais”. A receita de Welch se baseia em sinceridade, metas e recompensas, tratamento humano e transparência.
A “fórmula Welchiana”, contudo, não é reproduzida em uníssono. O professor de Administração e Recursos Humanos da fundação Getúlio Vargas, João Baptista Brandão, por exemplo, prefere evitar rótulos e “não dar nome aos bois”, porque não acredita em um modelo pré-formatado da boa liderança. Porém, afirma que tanto os comportamentos dos líderes de hoje como os atuais conceitos de gestão de pessoas precisam, sim, de reformulações. “Em especial para lidar com o jovem da geração Y, que não acredita apenas em autoridade e tradição, mas em valores e verdades concretas”, afirma.
Se o papel do líder nunca foi tarefa fácil pra nenhuma geração (nem mesmo quando Welch era um deles), é momento de receber ainda mais a atenção das companhias, de acordo com Brandão. Em entrevista exclusiva ao Foco em Gerações, o professor falou sobre a falta de líderes, o papel da universidade e das companhias na formação do jovem e indicou caminhos para, enfim, obter uma convivência de resultados da tão controversa geração Y.
Como professor da graduação, você está sempre em contato com jovens. Como enxerga a postura dos alunos na universidade hoje em relação aos de outras gerações? O que mudou?
Percebo que o aluno de hoje não aceita mais verdades absolutas, com um professor falando para que ele simplesmente ouça. Percebemos isso com as crianças, que não aceitam o “porque não”, afinal isso não é resposta. Minha geração tinha a escola e mesmo o ambiente de trabalho centrados no poder, na autoridade, na tradição e na religião e, a partir dessas instituições, surgiam o que considerávamos “verdades”. O aluno de hoje não quer mais isso; ele quer entender, quer ver o significado. Então qualquer coisa que se diga precisa de um porquê, pois ele quer saber se aquilo funciona de fato.
Um professor precisa argumentar, convencer, e essa é a mudança importante, pois antes ele é que possuía o saber. Hoje, esse saber tornou-se commodity, o aluno pode ir a qualquer site, de qualquer universidade do mundo e ler textos ou até assistir aulas. Mas ele quer saber como vai usar o conhecimento, como funcionará com ele e porque precisa mesmo estudar aquele tema.
É fundamental mostrar o sentido das coisas, caso contrário, a aula se tornará chata, pois não trará novidades, na opinião deles. Essa geração que nasceu conectada exige mudanças e nós, professores, precisamos nos acostumar a isso. Muitas vezes estamos dando aula e os alunos estão com o computador aberto. Não sabemos se eles estão navegando na internet ou registrando a aula. Enfim, essa é uma nova cultura que temos de nos adaptar.
Muito se questiona sobre o papel das universidades na formação de profissionais, pois é quase um consenso que existe grande abismo entre o mundo acadêmico e o mercado. Na entrevista com Luli Radfahrer , aqui no blog, ele afirma que o papel da universidade não é formar jovens para empresas, mas sim ensiná-los a ter uma visão global do mundo. Qual a sua opinião sobre isso?
Se falarmos de um SENAI, SENAC, uma escola tecnológica, eles claramente têm que formar para o trabalho. O aluno deve sair dali pronto para trabalhar. Em outros tipos de escola isso é mais complicado. Por exemplo, uma escola de Economia talvez deva se preocupar em preparar o jovem para que ele possa encontrar mais facilmente um trabalho, mas não se trata de uma oficina. Acho que a capacidade da escola de ensinar o aluno a pensar por conta própria é o melhor caminho para que ele possa estar em qualquer tipo de mercado, já que estará treinado a pensar sobre aquilo. As escolas precisam ensinar a “transferir o pensar” para outras realidades. O desafio de hoje é esse. O engenheiro de atualmente, por exemplo, pode fazer inúmeras atividades, de forma global.
Temos um conhecimento abundante e mutante e então, preparar alguém para um trabalho específico é bobagem. Daqui a poucos anos, tudo estará diferente. Ao final do curso, aquele conhecimento pode estar ultrapassado. Mas se o aluno aprender a pensar, estará equipado para lidar com situações inusitadas, que é nada menos do que a realidade de hoje.
Li um artigo seu em que falava sobre as diversas características da geração Y, que está cada vez mais presente no mercado de trabalho. Muito se fala sobre a falta de fidelidade dessa geração junto às empresas. Como avalia o fato do jovem hoje não ser tão fiel quanto aos de antigamente em relação ao trabalho? Por que isso acontece?
Acho que existe um grande hiato entre a empresa liderada por uma geração anterior e o jovem que está entrando no mercado de trabalho. A empresa tem uma cultura, uma forma de conduzir seu negócio, que é orientada pela obediência, por processos, por rotina. Antes as pessoas se orgulhavam por trabalhar em empresas, tinham uma aliança com elas, o que gerava um valor a esse profissional. Hoje, o jovem sabe que essas empresas grandes têm defeitos e dificuldades. Muitas vezes seus pais estabeleceram grandes vínculos com as companhias e foram mandados embora posteriormente. O jovem começou a perceber que são entidades jurídicas que se você se vincular emocionalmente poderá ser traído, esse é um grande motivo.
A outra coisa é que o jovem atual precisa achar sentido, eu não acho que ele não tenha fidelidade, tenho pessoas que trabalham comigo, que têm uma fidelidade muito grande, não a mim, mas ao projeto que apresentei a eles. Eu explico o projeto, seu objetivo, efeitos e conseqüência e, se ele se interessa, achar que vale a pena, cria uma fidelidade tão importante a ponto de rejeitar propostas nas quais poderia até ganhar mais.
O jovem não será fiel por obrigação, como antes, mas por valores, desafios, por acreditar no negócio. Sua fidelidade deve ser conquistada, pois ele não se sente mais refém da empresa e precisa ter motivos para respeitar seu chefe e, aí sim, ter uma relação de confiança.
Assim como antes, num exemplo corriqueiro, trabalhar no Banco do Brasil era sinal de estabilidade para a vida toda, hoje, essas coisas não existem e está ai a importância da construção de relações transparentes e fiéis, no que de fato se acredita, tanto no trabalho quanto nos outros setores da atual sociedade.
Como deve ser a liderança dessa geração, de forma a mantê-la motivada e engajada com a empresa e o trabalho em si? Você acredita numa liderança generosa, que muito tem sido falada? De que forma?
Eu acho que o que a liderança deve fazer é ser líder, só isso. Tudo isso que falamos de liderança generosa, liderança ágape, são adjetivos que usamos para descrever a forma do líder conduzir. Mas a gerência cuida da organização, das metas, das formalidades e, por isso, tem o poder do seu cargo, que está aliado a controlar horários, salários, metas, processos. Mas isso é um aspecto formal do cargo. Ser líder é outra coisa. Qualquer tipo de líder tem uma característica percebida pela sua equipe, ou porque é generoso, respeitoso ou porque é um educador, estimulador, vê cenários de futuro.
Exemplificando, o gerente tem a responsabilidade de passar um feedback, dizendo no que você foi bem ou mal. O líder faz o feedforward, ou seja, ele não quer saber o que passou, mas sim o que será do futuro, o que devem fazer para melhorar o desempenho do profissional, seus resultados e, conseqüentemente, sua felicidade. Ele constrói junto ao funcionário. Isso porque os erros devem ser corrigidos ao longo do processo, no momento em que foram cometidos e não na hora do feedback, ou seis meses depois. O feedback deve ser diário. O feedforward deve falar sobre futuro, é isso que o funcionário espera. Acho que falta liderança nas empresas, não importa o tipo, mas qualquer liderança.
Você já está há alguns anos no mercado de Recursos Humanos, tanto no âmbito acadêmico quanto empresarial. Quais mudanças a geração Y está causando no ambiente de trabalho, na sua percepção?
Eles não estão deliberadamente criando uma mudança, mas claramente as empresas perceberam que, para segurar aquele jovem ali, precisam mudar alguma coisa. Precisam criar cargos de alto valor agregado, com diversidade de tarefas. É preciso uma liderança que lide com a rebeldia do jovem e eduque-o para a realidade da empresa. Não quero dizer que a empresa mudará de uma hora para outra, mas ela deve fazer um esforço para mudar sua forma de tratar e desenvolver as pessoas. O jovem de hoje muda sim o modelo de gestão das empresas. Aquela ideia de ser promovido daqui a 30 anos não funciona mais, ele talvez queira entrar em outros projetos, participar de resultados, talvez queira trabalhar bastante sem abrir mão de sua vida pessoal. Então o modelo de gestão de pessoas já está tomando outro rumo e as empresas que não mudarem não vão atrair e manter esse jovem, que daqui dez anos estará tocando o mundo.
Temos visto jovens indecisos e confusos na escolha da profissão e até na posição em que querem trabalhar em uma determinada área. Você acredita que esta é uma característica dessa nova geração que se configura ou isso tem se dado pelo simples fato de que as escolhas hoje são muito diversificadas, com muitas opções de carreira e constantes mudanças no mercado?
Na verdade, hoje não existe uma carreira definida e sim oportunidades de trabalho. Há dez anos, eu fazia engenharia mecânica, ia a uma empresa e tinha o cargo de engenheiro mecânico. Se o jovem faz esse curso hoje, pode trabalhar em um banco ou qualquer outro lugar. Ele não é mais engenheiro, ele fez engenharia, como uma de suas qualificações, entre diversas outras.
Hoje o jovem pode escolher muito mais em que área ele quer atuar e é por isso que ele fica confuso, pois tem muitos caminhos e quer ter certeza de qual é o certo. O problema é que não existe uma regra, ele pode se dar bem em muitas coisas e esse é um cenário que não existia. A escola não possibilitou a esse jovem o entendimento de tudo o que ele pode fazer no mercado, mas a empresa utiliza hoje da cabeça das pessoas e não de seu título.
O jovem dessa geração fica em dúvida, pois sempre teve alguém lhe dizendo qual seria o caminho certo, mas quando termina o curso superior ninguém poderá dizer, isso irá de acordo com o que ele quer.
E como a empresa deve lidar com isso, com essa desorientação dos jovens quanto a o que fazer?
A empresa tem feito uma tentativa que é o programa de trainee, no qual o profissional passa por diversas áreas e pode identificar com qual tem mais afinidade para fazer sua escolha. Isso evidentemente é um custo para a empresa, mas pode ser muito bom.
Acho que faltam programas mais amplos de preparo desde a universidade. As empresas poderiam fazer parcerias com as escolas para irem divulgar, por exemplo, o que um banco faz, quais suas atividades, quais as profissões, como é a carreira, etc. As escolas também deveriam fazer isso, para que o jovem fique um pouco mais orientado.
A empresa que tem recurso pode fazer um programa de trainee, a que não tem precisa entender que o jovem está confuso e perceber se aquela determinada pessoa tem interesse, sabe se expor, educando-o posteriormente dentro da empresa.
Dessa forma, o jovem também poderá identificar o que realmente quer. Empresas que têm 30 mil candidatos e não conseguem preencher suas vagas, têm problemas, sofrem um equívoco brutal. As empresas também precisam entender essa geração e se adequarem ao mundo atual.





um dos melhores posts que eu li nas últimas semanas. =)
Me lembrei agora de um vídeo que vi do TED, sobre como as escolas matam a criatividade e como precisa ser reformulada a metodologia de ensino. Valorizar as artes, danças, pinturas assim como são valorizadas as outras materias sagradas (matematica, portugês e etc.)
Outra lembrança foi de uma frase que ouvi de um amigo na agência em que trabalho, “a melhor faculdade é a própria agência”.
Não colocaria apenas do ponto de vista de que o jovem não tem fidelidade a empresa. Foram abertos os olhos que as empresas tem puramente a finalidade de lucro apenas isso, por mais justa e sincera que seja. (mais-valia)