
Por Manuela Mesquita e Tatiana Kielberman
Pesquisas e especialistas do mundo todo afirmam que o conflito entre diferentes gerações cresce na medida em que a tecnologia se desenvolve.
Segundo a psicóloga Ana Fraiman, mais do que um simples conflito, as gerações, incluindo as mais antigas, estão perdidas no tempo e não conseguem se entender, pois pensam diferente e vivem em mundos opostos.
Para a especialista, que é mestre em Psicologia Social, falta diálogo e compreensão na família que, pela falta de convivência, tem representado um dos principais meios de repercussão da violência humana, na qual não existe mais educação, tempo para o aprendizado ou qualquer respeito entre as partes.
Veja entrevista concedida ao Foco em Gerações pela especialista:
Em suas palestras e seminários, você utiliza o termo “Netliving”. Poderia nos explicar melhor do que se trata?
Netliving é o conforto emocional e segurança social. Conforto emocional é um estado de bem estar íntimo, quando a pessoa se sente aceita, acolhida, acompanhada, sabe que tem com quem contar em várias e diferentes situações de vida. Sejam elas mais ou menos difíceis, boas ou ruins. O Netliving inclui o networking, que é uma estrutura interessante, porém frágil à medida que a pessoa se retira do mercado de trabalho. Ela não se sustenta, por exemplo, mais de seis meses com muito vigor, a partir do momento em que se esteja desatualizado, enquanto o Netliving se estende por toda uma vida e comporta pessoas distantes, de todas as idades, raças, credos.
Em que medida você acredita que as novas gerações prezam esse conforto emocional, sendo que a maioria de seus contatos hoje é estabelecida via internet?
Eu não tenho uma medida precisa, pois é subjetiva, assim como a própria emoção. A internet possibilita contatos fugazes, fortuitos, a proposta do contato via internet não é tão somente fazer amigos. Ela pode ser apenas o seu passatempo, superficial e não deixar registros na vida. O Netliving é um contato forte, é uma mensagem que surge de uma hora para outra e estabelece vínculos.
Mas você acha que é possível estabelecer esse vínculo sem um contato pessoal?
Em algum momento é necessário imprimir a sua marca presencial, seja por telefone, por câmera, fazendo uma visita, quer dizer, só por escrito, por meio da máquina, não é suficiente. As palavras impressas por um tempo se bastam, você pode teclar e esconder o seu rosto, mas há um momento em que você tem que se mostrar. Se a pessoa efetivamente interessa, você quer ver seu rosto, como é sua família ou sua casa. Não há como estabelecer compromissos com alguém sem isso.
Temos visto que, cada vez mais, esse isolamento e falta de contato estão presentes. Nos EUA, por exemplo, ao invés de colônias de férias, agora há locais em que as crianças desenvolvem jogos de computador de forma isolada, sem interagir com os colegas. Em sua opinião, como essa falta de convivência com o outro impacta no desenvolvimento desses jovens?
Ainda não temos uma geração ou estudos prolongados que nos tragam resultados científicos do que pode acontecer com uma pessoa sem contato com outra, mas sabemos que crianças criadas sem carícias podem ter prejuízos cognitivos e desenvolver depressão. A saúde melhora quando a pessoa é tocada, você pode ajudá-la a sair de estados depressivos e crises histéricas, entre muitas outras doenças.
Os batimentos cardíacos de um recém-nascido são um bom registro do que a aproximação física dos pais causa em seu emocional. Tenho um cliente cujos familiares acompanharam o bebê, que está agora com dois meses de idade, e na semana passada apresentaram o irmão mais velho, de dois anos. No momento de apresentação, tudo foi registrado pelos aparelhos, a criança menor que está sendo monitorada demonstrou um sinal de melhora impressionante. Isso comoveu o berçário todo, bebês que estavam chorando naquele momento pararam e isso foi observado por todos. Então, o que acontece com uma geração de jovens que interage através de máquinas? Acho um prejuízo tremendo para a nossa psique, o nosso corpo, nossa saúde e alma.
Você costuma citar a importância dos rituais de passagem, desde formaturas até acontecimentos corriqueiros da vida, uma vez que marcam o final de uma etapa e a abertura para novas oportunidades. Em sua opinião, os jovens dão menos atenção a isso hoje em dia?
Não. Eu acho que eles têm dado até mais importância, porém a rituais de identificação daquilo que chamam de “tribos” . Eles freqüentam locais, têm identificação com roupa e linguagem apropriadas. Foi só o modo desses rituais que se transformou. Ao invés de celebrarem uma formatura, por exemplo, com cerimônia de colação ou dançando uma valsa, têm preferência por fazer uma viagem entre eles, ou coisas assim. Continuam celebrando da mesma forma, mas de um jeito novo.
Do seu ponto de vista, como as novas gerações enxergam as outras na atualidade?
Eu acho que a relação é tão distante que nem têm interesse em enxergar. Até a idade dos 25 ou 30 anos, enxergam os mais velhos como pessoas lentas e ultrapassadas, mas a geração dos 15 anos não tem nem interesse em entender como são os mais velhos. Estão centrados neles mesmos. Não querem saber como os outros vivem.
Por que você acha que isso acontece?
As linguagens são diferentes, os tempos são outros e eu acho que os mais velhos não estão entendendo nada do que o jovem está vivendo. Os jovens estão com outros códigos em suas mentes. Estão com uma percepção cognitiva muito rápida e ampla e as pessoas de 40 anos estão espremidas entre a educação que tiveram e a educação que precisam dar. Há uma defasagem muito grande, o mundo está muito violento e essa ameaça está dentro de casa, pois chega através dos próprios pais quando usam palavrões ao falar de um familiar e das outras pessoas, da ausência permanente de um dos pais ou de ambos, das crianças sem limites. O alto consumo de álcool, de fumo, está tudo conturbado e a própria negligência de falta de limites está na família.
Ainda neste contexto, observamos pais separados, solteiros e do mesmo sexo. Há crianças morando com tios, avós e nos mais diversos lugares. Como você enxerga essa mudança na noção de núcleo e seu impacto na sociedade e na própria formação dos jovens?
Nós estamos todos perplexos, angustiados, precisando sentar juntos para conversar e buscar novas respostas. Isso não está impactando só na vida do jovem, a angústia é de todas as gerações. Há uma sensação de desamparo geral. Ainda ontem eu estava atendendo a uma família, em que o menino disse: “a minha mãe pensa que vou passar o Natal com meu pai só para ganhar o presente, mas é que eu sinto falta dele”. E a mãe tinha acabado de me dizer que o ex-marido ficava comprando o filho. Esse pai tinha acabado de dizer também para o filho que se ele não fosse passar o Natal lá, não ganharia o presente. Veja a violência de todos para todos! O pai é violento porque nega o presente e torna o menino venal, trocando a presença por algo material. A mãe entende que o filho vai porque o pai o está comprando e se sente impotente, pois gasta todo seu salário e não tem dinheiro para dar um presente como o do pai. E o filho fica com raiva da mãe, do pai, de si próprio por sentir amor por esse pai, está triste e deprimido e não sabe o que fazer. Isso é o que chamo de violência. Essa falta de diálogo, esses valores distorcidos em que as crianças ficam expostas a irracionalidade dos adultos. Antes, os mais velhos batiam, hoje é pior, não batem mais, mas falam coisas que doem mais do que uma surra.
Como você acha que o jovem tem lidado com suas frustrações? Vemos hoje que eles não têm tanta confiança em seus líderes como antes. Não acreditam nem mesmo em artistas e esportistas, que foram os últimos a perderem seu status de ídolos. Como é possível, então, que essa geração viva sem exemplos ou modelos?
O jovem está, em partes, se criando sozinho, então amadurece mentalmente muito precocemente e emocionalmente se torna frágil. Há pessoas muito imediatistas, com baixa tolerância à frustração, emocionalmente insatisfeitas, vulneráveis e impulsivas. Isso se reflete em querer resultados imediatos, na paciência, desejo de manipular, alta dose de narcisismo, desejo de autoafirmação, e isso acaba se refletindo na necessidade maior de consumo de bens, que gera uma conduta menos cautelosa, precavida, mais ligada ao princípio do prazer e menos no princípio da realidade. Uma pessoa mais madura tem mais discernimento, uma mais imatura é guiada pelo princípio do prazer e por isso tende a cometer mais erros.
Você acha que isso talvez reflita no problema de autoconhecimento do jovem, que cada vez está mais perdido nas suas escolhas profissionais?
Acho que sim, pelo menos é o que vemos aqui no consultório na orientação profissional. Trabalhamos com uma metodologia baseada em princípio e valores, que envolve ética, o estudo da personalidade e cruza dados do mercado de trabalho com os do jovem. Percebemos que tem uma faixa de jovens que apresenta um perfil “tô nem ai” muito acentuado, não sabe quanto custa uma pasta de dente, não tem projetos para o futuro. Aplicamos essa metodologia justamente para despertar o jovem para o compromisso consigo mesmo, para sair desse estilo de vida leviano de viver o momento sem rumo.
A nova geração está acostumada a ler e escrever muito menos, a exemplo do Twitter, no qual são permitidos apenas 140 caracteres. Pensando nisso, como se organiza o pensamento desses jovens em suas falas no consultório?
Muitos jovens têm essa tendência a ser lacônicos, evitando falar e se fechando em si mesmos, principalmente perante suas famílias. Acho que existem momentos em que é preciso ser pontual, dizer o essencial e esse exercício de síntese é relevante, mas não deve ser a nossa forma preferencial de comunicação. É legal aprender a ser sintético, mas como um exercício tão somente, senão vira um problema e a falta de leitura contribui para isso.
Você enxerga algum caminho que amenize esse abismo tão grande entre gerações que tem gerado tamanha mudança na convivência familiar?
Sim . Acho que falta às famílias voltarem a rezar juntas, fazer uma oração, cada uma dentro do seu credo. Não rezar no sentido da penitência, mas agradecer pelo seu pão na hora de dormir, comer. Trocar mais carinho. Acho que falta esse sentido da gratidão, ternura, música na casa, a leveza e a convivência. A educação é primordial, acho que se comete uma violência muito grande contra a mulher e a infância, e isso merece mais cuidado. Considerar natural que haja mulheres com triplas jornadas, em que o homem é dispensável a essa guerra de sexos, na minha visão é muito doloroso. Precisamos lutar contra isso. Temos que recuperar o convívio da mulher com suas crias, a creche nas empresas, enfim, recuperar o sentido do lar.
Para finalizar, gostaria de dizer que é uma pena que não se transmitam mais às crianças o significado do Papai Noel. É importante que elas acreditem que ele existe e que alguém vai olhar e reconhecer seus feitos, entender que a vida vai nos dar também presentes bacanas pelas coisas boas que fazemos. Isso ainda existe e é importante para todos que alguém os veja com olhos de bondade, de forma mágica. Desejo um feliz natal a todos e um excelente 2010.





Sem dúvida, a melhor entrevista de todos os tempos!
Realista, reflexiva, instigadora… Ela “cutuca” nossos valores no fundo da alma! Dá um alívio saber que existem pessoas que pensam como a gente, pois assim deixamos de nos sentir tão isolados no mundo!
Ana Fraiman trouxe um panorama da dura realidade em que vivemos… mas fala também da esperança, da dádiva que é acreditar no bem acima de todas as coisas!
Eu ainda acredito e muito mais depois de ler esse post.
Parabéns meninas e… Ana, você tocou meu coração.