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Por Manuela Mesquita

Já não é novidade que as novas informações e diferentes fontes de conhecimento surgem a cada dia, em uma velocidade muito maior do que se pode controlar. O que se tem em pauta, no entanto, e que ainda não alcançou consenso é como deve ser a assimilação e a aprendizagem dos novos conteúdos, que se tornam ultrapassados antes mesmo de serem totalmente incorporados.

Em meio a tudo isso, surge o papel da universidade, que vem sendo questionado pelo mercado, já que na opinião de muitos, têm deixado a desejar na preparação para o cotidiano das empresas. Como consequência, universidades começam a implementar em sua grade curricular matérias que façam essa interface entre o mercado e a universidade, de forma a facilitar o caminho do jovem e sua inserção no “mundo adulto”.

Ministrando a matéria Tópicos Avançados de Gestão de Pessoas, que tem exatamente o foco na preparação dos jovens para a transição entre vida acadêmica e mercado de trabalho, a professora da Facamp (Faculdades de Campinas), Mary Pires, conta ao Foco em Gerações o que pretende desenvolver e como consegue enxergar uma redução dos gaps entre esses dois mundos aparentemente tão distantes.

A profissional, que veio de empresas como 3M, Bentler e CPQD, chega ao mundo acadêmico com a missão de preparar para o hoje, para o novo e para a inovação do ensino. Confira a entrevista exclusiva cedida por Mary:

Muito se discute sobre os abismos entre o mercado de trabalho e a sala de aula, tanto que atualmente você ministra uma matéria na universidade que tem como um dos objetivos justamente minimizar essas diferenças. Como enxerga essa relação entre esses dois mundos? Qual, na tua opinião, é a verdadeira função da universidade num contexto em que existem novas informações e mudança de conteúdo o tempo todo?

Eu acredito que a universidade pode sim contribuir na preparação dos jovens para o mercado. Tanto que,desde 2004, faço esse trabalho de preparação para que o aluno chegue mais familiarizado ao mundo corporativo, a uma cultura que ele não domina, que é a das empresas. Penso que é importante a universidade se preocupar em sanar gaps que têm ficado falhos na graduação, ela deve formar o profissional para a vida, ensiná-lo a pensar, aprender, reaprender, estar sempre nesse processo de transformação.  Ensinar o aluno a criar uma capacidade de análise e síntese, de analisar e ter uma opinião sobre o contexto em que ele está.

Você convive diretamente com jovens e hoje cada vez mais os vemos perdidos quanto à escolha das profissões e até dos cursos na universidade. Sem dúvidas, hoje as opções são muito mais diversificadas, porém muitos falam que os jovens passam por problemas de autoconhecimento, até pela velocidade com que as coisas acontecem. Qual a tua opinião sobre isso?

Eu acho que esse sempre foi um período difícil, temos que escolher muito novos o que queremos para o resto da vida. É um momento de crise no sentido de ter que fazer uma escolha importante, sempre foi. Agora então, que a gama de profissões cresceu demais, o acesso à informação é ilimitado, essa crise é agravada. Com tamanho volume de estímulos e conexão que se tem, acho que é uma geração que tem parado pouco para pensar, refletir. Sinto um choque enorme quando trabalho a questão da missão de vida com os jovens. Eles começam a questionar: “Como assim o que eu vim fazer aqui? Eu vim estudar”, não, mas quero saber o que eles vieram fazer na vida e isso causa um choque. Tem toda uma metodologia para que eles pensem e de fato vejo que essa não é uma prática comum. Quando eu falo que a disciplina que ministro tem dois pilares e que considero este, do desenvolvimento comportamental, mais importante, refiro-me ao autoconhecimento. A cada dinâmica que fazemos com esses objetivos, temos um processamento da atividade em que damos feedback uns aos outros. Isso faz mudar a maturidade.  Os alunos fazem apresentação pessoal, têm que se ver e uma série de outras coisas que façam com que olhem para si mesmos. Assim eles se percebem, o que vale mais do que nós pontuarmos. O efeito é importante para essa questão do autoconhecimento, de elevar a autoestima, pois é uma geração que tem alta dose de arrogância, mas às vezes essa arrogância está a serviço de ocultar a falta de conhecimento de si próprio, como um escudo. Para a maioria, esse é o grande ganho do processo.

Você pertence à geração X, mas convive diretamente com os Ys. Quais você acredita serem as grandes diferenças entre essas gerações? Que características fazem com que sejam tão distintas?

Principalmente o questionamento. A geração Y questiona tudo para qualquer pessoa, o que é diferente da nossa geração, que tinha mais a questão do proibido, de escolher palavras para falar com os outros. Eles questionam abertamente, sem censura, é uma geração que tem muita energia, tem conectividade com tudo, com as informações, mas sem muita análise. Não há muita reflexão, mas há informação. A geração Y vai direto ao ponto, vai atrás do que quer, são persistentes e às vezes insistentes. Eu gosto muito dessa minha experiência, pois me mantém “jovem”. O contato com eles me desafia a não acomodar, de um ano para o outro tenho que mudar minhas dinâmicas, estar antenada às novidades do mercado diariamente. Eles brincam que eu sou o X mais Y que conhecem, porque a negociação deve ser de igual para igual, não existe mais o conceito do poder. Muitos colegas meus acham essa atitude um desrespeito, mas não é isso, eles apenas querem saber os porquês e acho isso interessante pois você também se vê desafiado a buscar outros caminhos.

Você acha que está cada vez mais difícil manter a geração atual concentrada, devido à diversidade de meios às quais estão acostumadas? Qual o grande desafio?

Eles não conseguem ficar parados. Procuro, assim, fazer a atividade de forma muito mais vivencial. Eles têm necessidade de falar, se não concordam ou se querem dizer algo interessante, falam até junto com você. A impressão que tenho é que eles têm um funcionamento diferente do nosso (risos), eles parecem conseguir ouvir e falar ao mesmo tempo, não 100%, mas sem dúvidas mais do que eu conseguiria. Mas acho também que muitas vezes supervalorizam suas próprias capacidades. Pela dificuldade que têm de ler, fazem uma análise superficial dos fatos, a memória também é seletiva. Se o assunto não for muito interessante, eles parecem não apreender. Acho que somos desafiados nesse ponto. Precisamos encontrar meios de passar o conteúdo de forma proveitosa. Uma coisa engraçada nos jovens de hoje é que se não estão fazendo quatro coisas ao mesmo tempo, acham que não estão fazendo nada e isso reforça esse aspecto de não estar focado em uma coisa de cada vez. O foco é um grande problema do jovem de hoje.

Recentemente entrevistamos um especialista americano (link) que dizia que os jovens de hoje são cada vez mais dependentes dos pais, no sentido de consultá-los sobre toda e qualquer decisão que venham a tomar, através do celular e outros meios. Você concorda?

Concordo. Até porque acho que os pais da geração Y são mais abertos, além de, no caso das mães principalmente, terem mais experiência de mercado do que antigamente. Hoje, a maioria teve acesso a um curso superior, podendo opinar mais. Acho que os jovens consultam mais os pais sim e saem cada vez mais tarde de casa. Percebo que a geração Y normalmente sai de casa só quando termina a universidade, quando sai. Como os pais também têm mais acesso às informações, também facilita que possam aconselhar seus filhos.

E isso interfere na autoridade do professor na sala de aula?

Sim, isso é uma constante. O que na minha geração os meus pais me cobravam, hoje é ao contrário, eles questionam aos professores por terem dado nota baixa para os filhos. Principalmente essa mentalidade de serviços, houve uma deturpação no sentido dos pais acharem que a universidade é simplesmente um serviço e que tem que contemplar o cliente. É preciso ter bastante sustentação nas nossas informações, nas notas, nos feedbacks, pois hoje os pais se envolvem mesmo e precisamos ter boa argumentação para tudo o que fazemos. Os pais participam sim da entrada dos filhos no mercado e isso representa uma grande mudança entre as gerações.

Como acha que a empresa pode fazer essa interface entre essas gerações dentro de seu ambiente, principalmente lidando com as mudanças que essa geração do troféu, que ganhou tudo dos pais, traz ao mercado?

Acho que preparando principalmente os gestores, as lideranças, para que encarem essas diferenças, simplesmente como diferenças e não como conflitos. Isso também deve ser trabalhado nos jovens. Precisam entender que o ímpeto da geração Y e a maturidade da geração X podem se complementar. A forma diferente de olhar para uma mesma situação pode ser um ganho tremendo, mas se isso for pra uma área de conflito não resolvido é um stress grande que muitas vezes existem nas organizações. Percebo que muitos gestores não têm esse convívio no dia a dia e quando chega um trainee ou estagiário sentem muito essa diferença e o próprio jovem acaba se retraindo e não deixando seu potencial se aflorar. É preciso que as organizações saibam aproveitar essas diferenças.

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2 Responses to “A universidade e seu papel na formação profissional”

  1. Boa Noite!
    Excelente matéria e que tem tudo a ver com a situaçao atual da educaçao brasileira. A universidade infelizmente nao prepara os seus estudantes para o mercado de trabalho. Elas só dao a base teórica da formaçao, mas a grande maioria sai desorientado.

    Pensando nisso que eu criei o TECNOPEG (www.tecnopeg.blogspot.com), blog de orientaçao de carreira especializado na indústria de Petróleo, gás e energia, principalmente offshore. Pois via muitas dúvidas da galera, entao resolvi criar esse espaço para compartilhar esse conhecimento que pode ser muito importante para determinadas pessoas.

    Parabéns pela matéria!

    Um abraço

  2. Diego Alves disse:

    Gostei da matéria. Bastante interessante. Porém, no “… temos que escolher muito novos o que queremos para o resto da vida.” Discordo. Isso é pressão psicológica da própria pessoa ou dos pais ou responsáveis. Por quê? Por causa do próprio mercado de trabalho. E também não precisa ser para o resto da vida. A pessoa se quiser assume ou não este consenso.

    Muitos acham que a Universidade tem a “obrigação” de preparar universitário para o mercado de trabalho como descreveu o colega Victor Couto Alves em seu comentário. Isso pode ser considerado um pensamento até errôneo. Quer dizer que se eu não estar numa Universidade, seja ela pública ou privada, não estarei no mercado de trabalho? Logo serei considerado um vagabundo – se eu tenho idade suficiente e não trabalho sou considerado este para maioria dos “trabalhadores” ou “colaboradores” do mercado de trabalho – ? É esse o papel da Universidade? Não deixar o mercado de trabalho desnutrido e não fazer das pessoas vagabundas?
    Acho sim, que a Universidade tem que alinhar sua grade com matérias interdisciplinares “optativas” – tal como está no Tratato de Bolonha – aos aspectos contemporâneos. Mas tomar “precaução” para não “mercantilizar” o ensino universitário. Quero “dizer”, não preparar todo universitário somente para o mercado de trabalho. Porque se fizer este, como fica o desenvolvimento tecnológico que o mercado de trabalho agrega? As pesquisas na área da saúde voltada para cura de doenças aos que estão no mercado de trabalho? Porque mercado de trabalha causa “estresse” e este desencadeia doenças crônicas. Como fica os trabalhos acadêmicos nas áreas ecológicas, sociais, energéticas e ambientais? Deu para “ver”? Fica intrigante separar essa heterogeneidade de Mercado de Trabalho mais Universidade.

    Creio sim, que a Universidade e o Mercado de Trabalho estão entralaçados, mas fazer que um assuma somente papel de desenvolver em benefício do outro é ignorância.

    Colegas, este comentário que fiz não foi para tirar a riqueza desta matéria, mas sim, salientar outros pontos de vista.

    Abraços!

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