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Por Eline Kullock

Ontem me impressionei muito com meu Twitter. A catástrofe do Haiti havia acabado de acontecer e várias pessoas, é claro, começaram a postar tweets sobre o acontecido. Quem tinha alguma informação, repassava para os outros.

Entre as pessoas que eu sigo, tem um rapaz americano que diz coisas muito sensatas. E, de repente, vi que ele postou:

“This is not a game! It’s real! Earthquake in Haiti!”

Aquilo me impressionou muito. Só porque não tínhamos ainda imagens da tragédia que tinha ocorrido, não me passaria nunca pela cabeça que teria sido um jogo. Muitas guerras aconteceram ao longo da minha vida sem que eu tivesse obtido imagens ao vivo e a cores imediatamente.

Mas para a geração Y, talvez a impressão e a necessidade da adrenalina fizeram com que este rapaz pensasse que talvez fosse mais um jogo, dos tantos jogos a que eles estão acostumados.

Me dei conta de que esta noção de perigo, catástrofe, guerra, talvez seja, para a geração Y, desde sua infância, transmitida ao vivo. Caso contrário é porque não ocorreu, ou há uma chance disso ser um jogo, uma notícia falsa, mesmo que a televisão ateste sua veracidade.

Esta geração cresceu com o HOAX virtual, aquelas histórias que recebemos por e-mail e que nunca sabemos se são verdade mesmo; e-mails de crianças desaparecidas que nunca temos a certeza se, de fato, desapareceram.

Talvez esses cases falsos ganhem proporção porque a geração Y vê tudo o que lhe interessa. Nada é bobagem.

Mesmo os novos telefones celulares vêm com duas câmeras. Uma de um lado para você tirar fotos e uma do outro lado, para videoconferências. Assim você pode ver seu interlocutor enquanto ele te vê.

Esta geração tem fotos instantâneas. Tudo em “real time”. O avião que pousou no Rio Hudson foi postado no Twitter por um internauta que estava perto. Assim, ele “provava” que não era um “jogo”.

Quando uma informação não é comprovada imediatamente, ela pode fazer parte do jogo da adrenalina com a qual a geração Y se alimenta.

Como essa geração vai lidar com informações como a do Haiti, reais, mas não televisionadas, não comprovadas com fotos ou filmes?

Sei que agora as notícias da calamidade do Haiti vêm acompanhadas de imagens ou pequenos filmes que já postaram no YouTube, ou fotos que mandaram pelo computador. Sem esses recursos, de fato, não teríamos as proporções da tragédia, mesmo que muitos tenham comentado sobre sua dimensão ontem à noite. Sei que estes recursos foram fundamentais para que a pudéssemos sentir/conhecer um pouco mais da enorme pobreza do Haiti e de como ficaram as pessoas (que é o que me preocupa – o resto a gente reconstrói!) depois do terremoto.

Claro que os filmes e fotos ajudam a dar a dimensão do ocorrido. Mas em momento algum eu, como Baby Boomer, imaginei que a notícia fizesse parte de um jogo. Essa perspectiva me assusta.

E acho importante refletir sobre ela, discutí-la com os jovens, compreender como eles reagem a uma informação dessa magnitude sem comprovação.

Porque o mundo nunca será todo filmado. Não teremos SEMPRE os pequenos filmes do YouTube ou fotos do Flickr para comprovar as coisas que acontecem e nem por isso elas serão menos verdadeiras.

Como lidar com essa questão?

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4 Responses to “O “real time” da tragédia no Haiti e a credulidade da geração Y”

  1. Camila disse:

    Interessante o texto. Ao mesmo tempo em que me pergunto porque as pessoas andam tão céticas (me incluindo nesse grupo), também vejo que hoje em dia tantas informações são apresentadas, mas às vezes vem tanto lixo, tanta mentira, que fica difícil acreditar.
    Hoje em dia é tudo no “ver pra crer”, e as tecnologias disponíveis nos permitem isso.

  2. Bem observado, Eline, esse assunto é intrigante. Mas sabe o que mais me preocupa? Diante de tanta informação rápida, em tempo real, toda uma geração pode começar a perder a noção da dimensão dos problemas, se acostumando em saber que atentados estão por toda parte, os sequestros, assaltos, corrupção, catástrofes naturais, etc.

    Acostumando-se em ler tudo isso, em grande quantidade e com muita frequência, os fatos se tornam tão corriqueiros que passam a fazer parte do dia a dia das pessoas. Isso pode começar a minar a sensibilidade para o sofrimento dos demais, fomentando a negligência e o descaso para a prevenção e o apoio aos que sofrem o infortúnio da tragédia e da perda de vidas.

    Saber que Porto Príncipe está debaixo de escombros com milhares de vidas desaparecidas pode ter o mesmo nível de importancia de saber quem ganhou o jogo no domingo…

    E não foi só Zilda Arns que morreu. Outros 11 brasileiros com família e filhos para criar também se foram, além de outras centenas de pessoas que desconhecemos deixando órfãos e viúvas. E isso é real, não é um jogo mesmo.

    Grande abraço!
    Adriano Berger

    • Eline Kullock disse:

      Você tem toda a razão, Adriano. Estamos perdendo a capacidade de nos emocionar, de indignação, de olhar. Tudo se passa pela TV, ou pelo computador. É quase como um jogo , mesmo. Não parece real. Só quando a tragédia é muito perto é que tomamos consciência dessa possibilidade. A perda de Zilda Arns é, em si, uma tragédia, como é a tragédia dos brasileiros que morreram lá e de todos os habitantes do Haiti, povo já tão sofrido. Cabe a nós mostrar a eles que estamos preocupados, que nos importamos, para que eles aprendam a valorizar o apoio ao outro, a ajuda, o “colocar a mão na massa”. Será a partir do nosso exemplo que, com o tempo, eles vão entender os valores que temos e que serão valiosos pelo resto da vida!
      Um beijo,
      Eline

  3. Marcos Masini disse:

    Eline Kullock.

    A Internet trouxe possibilidades mil, entre elas a de colocar na mesma cesta fatos e boatos – informações sem o compromisso da apuração, apenas com o dever de acrescentar e repassar conteúdo e se mostrar “ligado”. Quantos linques errados ou quebrados vejo sendo replicados no Twitter só pq tal famoso (na rede ou na TV) foi o remetente. Não á averiguação mínima. É o tempo do “fast food” da informação.

    O blog dos pesquisadores do Haiti, por exemplo, alguém procurou ver se realmente era verdadeiro? Ligou na Unicamp? São cuidados a serem tomados.

    Mas o fato, verdadeiro ou não, é apenas mais um dentro do fluxo intenso de informações – boa parte delas de pura bobagem como diria o mordono no início do filme Batman, o retorno. E o ritmo intenso dessas infomrações é que gera a falta de sensibilidade, como bem dissse o Adriano. “Cabe a nós mostrar a eles….” como bem respondestes.

    Abraçosss

    Marcos Masini
    http://www.pugnus.com.br

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