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Por Eline Kullock

Ontem, assistindo à TV, ouvi um jovem dizendo: ”vou dar uma zapeada pela noite”.

Acho que os jovens de hoje vivem um momento único: a época do “muito”. São inúmeros canais de TV, diante dos quais a gente fica zapeando, e depois diz: “Não tem nada na TV”. São inúmeras as possibilidades de compra de celulares, notebooks, carros, de tudo.

Na minha época, tínhamos três canais de TV, seis ou sete cursos de nível superior, um número razoável de bandas ou cantores dos quais gostávamos.

Havia o fã clube do Chico, do Edu Lobo, do Roberto Carlos e a turma da Jovem Guarda. Tínhamos os Beatles e outras bandas internacionais. O que fazia sucesso dava para contar nos dedos.

Hoje, quando pergunto qual a banda ou o cantor(a) preferida da geração Y, vem um silêncio danado. Já ouvi de tudo, até Michael Jackson que, na verdade, não foi dessa geração. Por quê? Eu acho que a resposta está no “mundo do muito”. Há tantas opções que fica difícil pensar em uma banda, um cantor.

Prova disso é que hoje eles usam sites como o Last.fm. É tanto cantor, tanta música preferida, tantos estilos, tantas oportunidades de acessar música do mundo inteiro, que foram criados esses sites pra fazer a playlist pessoal.

A sensação da era do muito é contraditória: os jovens se sentem, ao mesmo tempo, onipotentes e impotentes. Há tantas baladas que eles costumam dar uma zapeada e passam em várias, numa única noite.

Além disso, querem fazer mais de uma faculdade (alguns fazem duas ao mesmo tempo!), têm dificuldade em escolher um caminho profissional, com tantas possibilidades. Há tantos jogos no computador que querem optar por todos.

Essa sensação de onipotência, de “Yes, I can”, fica misturada ao sentimento de “não sei o que decidir”, que pode gerar a impotência e a frustração.

Há inúmeras opções de lojas, marcas de roupa, shoppings, empresas boas selecionando trainees, muito mais do que existia na minha fase de adolescente.

Esse número de opções, ao mesmo tempo em que liberta, amplia e esclarece, também assusta, intimida e dificulta a decisão. Há sempre a noção de que “eu podia ter decidido por uma festa melhor, um celular melhor (“que apareceu no mercado dois dias após eu comprar o meu”), um curso mais interessante, uma empresa melhor para trabalhar. O sentimento de “será que eu fiz a escolha certa?” permeia o mundo do “muito”.

É claro que, na minha época, a gente tinha que decidir se faria Administração, Economia, Medicina, Engenharia, Arquitetura, Psicologia ou Direito. Começavam a surgir cursos novos como Desenho Industrial. Mas isso era a exceção, não a regra. E só isso já dava angústia.

Imagina decidir hoje entre cursos como Comunicação Assistiva, Estudo de Gêneros e Diversidade, Ciências Eqüinas, Silvicultura e Conservação e Restauro?

É muita decisão! É muita informação! É claro que todas as gerações estão com o mesmo problema. Mas a maturidade, creio, é diferente e os Baby Boomers restringem-se a um número menor de opções, no seu processo decisório, porque estão mais acostumados com a “era do pouco”.

A geração Y quer estar em todos os lugares, ao mesmo tempo, quer falar com cem amigos do Orkut, ao mesmo tempo em que Tweeta, ao mesmo tempo em que posta no Facebook, no Flickr, ao mesmo tempo em que quer sair pra fazer Ioga, RPG e Pilates, quer estar com sua turma no shopping, no chopp e na praia.

Como ficará essa angústia? Em quê ela vai acarretar? Quais os sentimentos gerados pela época do “muito”? Como nós, de outras gerações, podemos ajudá-los ?

Fica a pergunta no ar, para quem puder me ajudar a responder.

2 Responses to “A geração que zapeia”

  1. Vinicius Leal disse:

    Sou um jovem dessa geração. Tenho 19, faço uma faculdade (conheço muita gente da minha idade que faz duas ao mesmo tempo) e pretendo fazer mais uma, mas não ao mesmo tempo.
    Muitas vezes me estresso e me sinto realmente angustiado por não conseguir absorver a diversidade de informação que paira sobre minha internet. Eu opto por não ver tanta TV, se eu o fizesse iria pirar. É difícil escolher, sou indeciso em tudo que faço, preciso sempre pedir opinião de outréns para determinar ações. Sinto que 16 horas disponíveis ao dia não são suficientes, já que o mínimo para um bom sono seriam 8 horas. A sensação de ‘não se encontrar’ é grande. A frustração surge ao passo que perco um programa de TV que todos comentaram, um fórum online que queria muito participar, por não conhecer a banda que outros já conhecem…
    Eu, vendo tudo isso, estou começando a prezar pela profundidade nas coisas que faço. É trabalhoso se concentrar numa atividade única quando a sociedade atual exige rapidez e velocidade.
    Não sei se contribuí com respostas que solucionem o problema, mas vai aqui um depoimento de uma pessoa que se sente ora como controlador e ora como vítima do sistema.

  2. Felipe C. disse:

    É chato escolher, as vezes penso como seria bom um sistema que analisasse riscos e escolhesse por você. Aprender na prática talvez seja melhor. No meio de tanta coisa a “exclusão sem dó″ funciona , assim o “mark all read” , “shift+del”, “send to spam” tornaram-se comuns, assinei um jornal q entrega só final de semana e ainda tem um resumo de tudo q vc poder ler em 5mins,também tenho uma lista de de rss de blogs importantes e q costumam garimpar informação. Marcar horários de saída e chegada de condução dinamisa bastante e me dá uma hora a mais de sono, oq permite eu dormir mais.

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