
Por Manuela Mesquita e Tatiana Kielberman
Limite. Para a pedagoga Ana Rosa Ankier, é essa a palavra-chave na educação do jovem, que mesmo “pedindo” o tempo todo, não tem encontrado esses limites em casa, tampouco na escola.
Nesta entrevista exclusiva ao Foco Em Gerações, Ankier, que também é educadora e trabalhou com jovens durante 35 anos, compara as gerações, avalia a mudança de valores e atribui grande parte dessa transformação à nova relação dos adultos com seus filhos. Confira.
Ao longo de seu trabalho como pedagoga, você teve oportunidade de conviver com jovens em três diferentes décadas, 70, 80 e 90. Quais as principais diferenças que você pôde notar entre eles?
A geração de jovens nos anos 70 era uma geração ainda em fase de transição entre a de 60, que foi muito forte, e a de 80. Não havia muita identidade, diria que ficou numa apatia. Na medida em que os meios de comunicação se tornaram versáteis, em que o mundo se tornou globalizado, a geração de 80 começou um movimento diferenciado, a evolução não demorava uma década.
Sentíamos, por exemplo, que entre a geração de 80 e 90 houve uma mudança muito grande de panorama, de valores da sociedade, houve toda uma necessidade da mulher no espaço de trabalho, sendo uma das mantenedoras do lar. Então houve uma mudança de foco. Concomitantemente, esse jovem ficou mais desprotegido, pois as mães já não estava dentro de casa. Muitas delas não sabiam como lidar com o universo profissional e também conciliar isso com o seu papel enquanto mulher, esposa. Acredito que a geração de 90 ficou desprotegida, pois a questão das drogas, por exemplo, já existia, mas os jovens eram menos vulneráveis, tinham outros valores. Porém essa vulnerabilidade deu também ao jovem de 90 uma visão de mundo diferente, ele se tornou muito mais independente.
Com relação a essa mudança de valores, seu trabalho sempre foi pautado em trazer a consciência sobre ética e respeito para os alunos. De que maneira é possível ultrapassar o espaço da sala de aula e implementar esses valores diante do mundo em que vivemos hoje?
Acho que a questão da ética mudou muito, mas escutamos pessoas dizendo que não dá para falar mais com os jovens, que eles não escutam e são imediatistas, o que é um ledo engano. Acredito que a partir do momento em que as relações com os jovens são fortalecidas, conseguimos muito deles. E como fazer isso? A família tem um papel fundamental, por meio do diálogo, do exemplo, se pautando em coisas positivas e não negativas. Por outro lado, a escola também é necessária. Se o professor conseguir transmitir esses valores, independentemente do conteúdo programático, ele consegue mais do que imagina. Mas isso vai depender da relação, do olhar para esse jovem, que não pode ser desvalorizado.
Essa relação tem que partir de trabalhos diferenciados, acredito na vivência, em fazer trabalhos em grupo, na mobilização interna do jovem, fazendo com que visitem instituições de caridade, favelas. Isso é possível, mas o adulto precisa querer e entender que não é utópico.
Como é ser educador em um contexto no qual o jovem é ensinado a “querer e poder tudo”? Que limites o pedagogo enfrenta para lidar com as barreiras casa X escola?
Existe uma palavrinha que define muito bem isso, que é limite. O jovem pode não ter nenhum limite em casa, mas ele pede isso o tempo todo. Se nós conseguirmos mostrar isso a ele, sem impor, no diálogo, dizendo o que é certo ou errado, com certeza conseguimos estabelecer normas. Agora, a casa não dá limite, nem a escola, haja vista o que escutamos sobre agressões com professores, de jovens com outros jovens, práticas de bullying, etc. Tudo precisa de limites claros, não adianta querer embutir isso para o jovem, é preciso transparência. A casa não dá limite, ou porque não está preparada ou porque não sabe dar. Mas precisa aprender.
Como lidar com a atual voracidade dos jovens em relação aos meios de comunicação, uma vez que eles não conseguem ficar longe deles nem mesmo no ambiente escolar?
Novamente a questão dos limites, das normas. Acho bárbaro usar celular, todos nós usamos, hoje em dia é fundamental. Mas temos que colocar limites, porque o adulto também vai a uma reunião e não desliga o celular, então que modelo esse jovem tem? Não adianta tomar o celular e entregar aos pais. É preciso explicar que durante a aula devem estar conscientes de que não o utilizarão.
A questão da internet também deve ser esclarecida. Precisa haver orientação por parte dos adultos, para que os jovens saibam utilizar dos meios.
O filme “Entre os muros da escola”, do diretor Laurent Cantet, retrata uma escola francesa em que, além das inúmeras diferenças culturais, os jovens são extremamente questionadores na sala de aula. Queria que falasse um pouco desse perfil do jovem de hoje, você acha que ele questiona sem base, apenas para contestar?
O jovem de hoje é questionador. Acho que não podemos generalizar, temos alguns muito mais contestadores, muito mais conscientes e com mais formação, então ele contesta em cima de um conhecimento que a geração de 70, por exemplo, não tinha. Alguns têm muito fundamento e outros questionam apenas para transgredir. Mas tem o outro lado. O professor tem que estar preparado para esses questionamentos, mas muitas vezes não está e bate de frente com o jovem. Se o professor não se instrumentaliza, irá competir, entrará no mesmo nível do aluno.
Você acha o jovem de hoje arrogante?
Sim. Ele é muito mais arrogante, muito mais dono do próprio nariz, até porque teve espaço para se virar sozinho. Ele sai de casa quando todos estão dormindo, não vê a família com tanta freqüência, faz o que quer e não quer dar satisfação. Mas isso é uma resposta àquilo que tiveram.
Hoje se observa que o jovem possui muito mais problemas de relacionamento do que antigamente, desde o fenômeno do bullying até a depressão. Do seu ponto de vista, como o jovem reage em meio às suas emoções no contexto do século XXI e de que forma a escola pode contribuir nesse panorama?
Eu diria que, em primeiro lugar, não seria a escola, seria a família. Acho que esse jovem é muito carente. Falta amor, carinho, um olhar individualizado. Por isso ele acaba entrando em depressão, procurando as drogas e se tornando um jovem de risco. O que oferecerem, ele aceitará, pois precisa de atenção.
Mas por que falta amor? Acredita que as pessoas não sabem mais administrar seus compromissos com a educação dos filhos, deixando isso em segundo plano?
Volto a dizer que não é uma questão para se generalizar, mas acho que falta troca de carinho, dizer que gosta, falta troca de beijos nas relações. As pessoas não têm tempo e talvez nem saibam lidar mais com isso, estão tão preocupadas com o dia a dia, em sobreviver, no mercado de trabalho, que se esquecem das coisas fundamentais. Uma mãe uma vez me disse que iria fazer um empréstimo bancário para que o filho pudesse ir a uma excursão com a escola e a justificativa era que não queria que o filho se frustrasse. Tudo bem, acho importante que ele vá, mas não por uma questão de frustração.
Por um lado, as mães querem compensar as necessidades com o material, mas não deve funcionar assim. Material é importante, mas falta muito amor, falta uma relação verdadeira entre o ser humano.
Como acredita que deve ser a escola do futuro, que atraia os jovens e os faça perceber o significado real da educação em suas vidas? Isso é possível no mundo de hoje?
Eu sou meio sonhadora. Acho que precisamos de uma escola aberta, qaue não imponha conteúdos mas que dê ao jovem condições de pesquisar, vivenciar. Não adianta só o professor com a saliva dentro da sala de aula. Acho que não deve ter uma obrigatoriedade, fazê-los todos iguais, temos de avaliar pelo individual e oferecer oportunidades dentro das próprias condições do que cada um gosta. Se o cara é bom músico, por que não desenvolver isso? Não adianta querer que seja um bom matemático. Nesse ponto sou contra a escola formal de hoje, ela teve seu momento, mas não atende mais as necessidades do jovem. Como fazer essa escola? É difícil, mas não impossível, hoje já temos exemplos de instituições até mesmo no Brasil que caminham para esse modelo. Acho que isso facilita até no autoconhecimento do jovem, pois se ele não teve oportunidade de saber do que gosta, pois precisa terminar o ensino médio e entrar na faculdade, tendo de cumprir seu papel na sociedade, como pode saber que papel quer exercer?
* Ana Rosa Ankier é pedagoga com pós-graduação em Educação. Atuou como Orientadora Educacional e Coordenadora Pedagógica, desenvolvendo um caminho importante no atendimento a adolescentes e na formação contínua de professores. Atualmente é sócia diretora da Promover Assessoria Educacional e gestora administrativa da empresa Jocimatica S/S Ltda.





Lendo seus comentários achei muito interessante, resolvi pedir ajuda para tirar uma dúvida em relação ao filme “Entre os muros da escola”. Sou estudante de psicopedagogia e meu professor pediu que assistíssemos “entre os muros da escola” para fazer um trabalho, confesso que me decepcionei! Pois teria que assistir o filme e detectar as cenas do filme onde caberia a intervençao psicopedagógica e descrever que tipo de intervenção. Porém, não sei detectar, o filme paraece que foi feito na escola que trabalho com algumas cenas a “menos” e assim como na escola, não vi nenhuma intervenção no filme exeto com Souleymane…. será que a senhora poderia me eclarecer estas questões no filme? Obrigada.
Fabiane!
O filme, apesar de mostrar a realidade de uma escola no interior da França, mostra a complexidade nas relações entre professor e alunos. Acredito que, o adolescente tem como caracteristica questionar qualquer tipo de autoridade, portanto a escola precisa perceber e orientar o jovem oferecendo espaço para o diálogo,colocando limites claros e seguros. O professor,precisa estar instrumentalizado para lidar com alunos insolentes( Khoumba) e /ou problemáticos ( Souleymane). Por outro lado, é importante procurar conhecer as causas de comportamentos desse tipo e oferecer caminhos que sejam facilitadores no enfrentamento dos mesmos. Alguns caminhos: Conhecer a realidade do jovem, testagem psicopedagógica, apoio psicológico e mesmo, orientar para o esporte,a música,teatro, dança, enfim, canalizar para atividades que façam com que se sinta importante.
Espero ter conseguido atender suas dúvidas!