Por Renato Andrade
Um headhunter ou um empresário desavisado provavelmente tomariam um choque ao entrar na Campus Party em busca de talentos para suas empresas. O cenário, tomado por jovens de chinelo, bermuda, sentados em pufes amarelo-fosforescente com laptops e celulares (sim, eles estão trabalhando!) é certamente chocante para pessoas de gerações mais velhas.
Trabalhando, estudando, lendo comentários das palestras no Twitter, verificando agendas virtuais e falando com a mãe, que acompanha todos os acontecimentos pela TV, lá estão eles. Foram mais de 6 mil jovens inscritos, vindos de várias partes do Brasil, com idade média de 25 anos, acampados em nome da tecnologia.
Mesmo participando da feira ultra-descolada, eles mantêm seu compromisso de manter a comunicação com seus clientes e entregar seus trabalhos no prazo determinado. Enquanto isso, a nova geração de profissionais de tecnologia aproveita a feira para conhecer as novidades do segmento, fazer networking, encontrar amigos – muitos que só conhecia virtualmente – e analisar as próximas tendências do mercado.
Para esta geração, a maneira como as mais velhas trabalham é surreal. Afinal, enfrentar horas de trânsito os faria perder um tempo precioso. Para eles, tudo poderia ser resolvido em alguns cliques de mouse, reuniões poderiam ser trocadas por e-mails, garantindo a documentação de tudo o que foi combinado.
Realmente, a Campus Party demonstra uma nova mentalidade nas relações de trabalho. Uma tendência. Por que, afinal, o empresário de hoje está preparado para liberar o funcionário do escritório para participar de uma feira de tecnologia e trazer novidades para a sua empresa? Acredito que (ainda) não.
Primeiro porque o nome “Campus Party” faz o evento parecer um Woodstock nerd. Acampar também já transmite uma idéia de transgressão, o que pode levar à ideia de que não se produz nada de valor em um evento como este.
Presenciei a conversa entre um empresário e um jovem. O primeiro estava interessado em instalar uma rede de computadores na empresa, com internet, mas com algumas áreas fechadas (Orkut, MSN, Twitter) e planejava um sistema para integrar departamentos. O jovem disse que tinha experiência no ramo e um bom conhecimento e experiência em frameworks de desenvolvimento, em desenvolver sistemas e etc.
Para o meu espanto, o executivo perguntou: você sabe mexer no Word, Excel, Outlook e Windows? Obviamente, o choque de conhecimentos virou piada.
O “jovem Campus Party” entrou no mercado de trabalho cedo, mas no mercado informal… faz freelances para empresas que possuem espaço físico em diversos locais espalhados pela cidade e já garante o dinheiro para pagar a sua conexão de banda larga, aparelhos de celular de última geração e outras parafernálias tecnológicas.
As empresas descobriram este mercado jovem que movimenta milhões de reais por ano e investem fundo em propaganda & marketing. Mas esta mesma empresa está preparada para entender o que pensa e deseja o funcionário da nova geração?
Pesquisas demonstram que a flexibilidade pode ser a chave para um funcionário feliz, mas eles também querem participação dos lucros da empresa e não são fiéis ao empregador.
É uma geração apressada e que tem grandes ambições quanto ao seu conhecimento e sucesso profissional.
Em outro campus do evento, jovens entre 10 a 15 anos eram convidados a conhecer o maravilhoso mundo da robótica! Em outras palavras, empresas brasileiras estão apostando no software livre e querem “criar” os profissionais do futuro.
Do outro lado ficam os familiares. Mães que aprenderam a usar a intenet só para ter uma forma de obter informações do filho, não sabem exatamente qual a profissão do mais novo da família ou mesmo como ele mantém o padrão de vida trancado no quarto. Também não acreditam que a Campus Party é coisa de gente grande!
Todos aqui já falaram a frase: “- Sim mãe, eu estou comendo e dormindo direitinho! Não fique preocupada”, enquanto trocam cartão de visitas com alguém de uma empresa de mídia digital e terminam o trabalho de um cliente.





