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Por Lilio A. Paoliello Jr.

Recém-chegado do período de férias de fim de ano, a primeira coisa que fiz foi dar um passeio em uma das grandes livrarias de São Paulo. Que bom seria se, além de uma sede daquele banco famoso, de uma filial de uma grande loja de varejo e de uma escola pertencente a uma das muitas redes de ensino do centro-sul do país, em cada cidade brasileira também houvesse uma boa livraria. Apesar de nossos problemas de “fome de livros” estarem parcialmente resolvidos com a possibilidade de compra pela Internet. Toda essa introdução foi uma desculpa pra falar, na verdade, sobre um livro, com título curioso, que encontrei. Quero falar menos do livro e mais do título, porque ainda não o li.

“Se você gostou da escola, vai adorar trabalhar” é a mais nova obra do escocês Irvine Welsh, autor do polêmico “Trainspotting”, que deu origem ao não menos polêmico filme, de mesmo nome. Pelo que pude perceber, é mais um representante da literatura beatnik pós-moderna, inspirado pelo gênero original famoso nos anos 60, cheio de situações-limite, recheadas de palavrões, sexo e rock´n roll. Só o título já me fez viajar, pensando no papel da escola, principalmente nesse momento de volta das férias, quando estamos prontos para entrar na época de planejamento, na maioria das escolas brasileiras.

O pensamento parece mesmo uma coisa à toa, como dizia o velho Lupicínio. Pensei logo nos professores com os quais vou trabalhar nestes dias. Será que todos eles foram bons estudantes, gostaram de suas escolas e, portanto, adoram fazer aquilo que fazem, ou seja, ensinar? Ou será que algum problema mal resolvido com seus mestres os levaram a abraçar esta profissão, como forma de resolver grandes e pequenos recalques? Ou ainda, apesar de não gostarem tanto assim de suas escolas de origem, escolheram esta profissão, para fazer do ambiente escolar um mundo melhor?

Seja qual for a prerrogativa da escolha profissional, é importante que cada educador reflita muito neste período de planejamento e em cada aula que for desenvolver sobre estas questões: gostar ou não gostar da escola? Como isso interfere no papel de professor e nas atitudes dos alunos? Aproveitar também para responder a quatro perguntas básicas que terão muito mais utilidade do que qualquer planejamento-documento (que correm o risco de serem engavetados em meio aos papéis da secretaria da escola) o que eu devo saber para ensinar o que vou apresentar em sala de aula? O que devo fazer em sala de aula? O que meus alunos devem aprender? O que meus alunos devem fazer para aprender?

O título do livro me fez refletir também sobre a responsabilidade que a escola e seus profissionais têm com o destino de seus alunos, além do que cada aluno tem sobre seu próprio destino.

Penso que os alunos brasileiros, infelizmente, não têm o hábito de aproveitar seu período sabático para colocar a leitura em dia, para fazer passeios culturais. “Conhecimento é conhecimento, descanso é descanso” pensa a maioria.

Por acaso, fiquei hospedado em uma praia no litoral pernambucano, onde havia muitos jovens. Nenhum deles pegava um livrinho para ler à beira da piscina, à sombra de um dos muitos coqueiros. As pessoas de meia idade ou mais já tinham essa prática. Os jovens preferiam papear ou ficar embutidos em seus fones de ouvido, ocupando apenas um de seus cinco sentidos. Errado? Não me cabe avaliar, mas ficam as dúvidas: será que gostam de suas escolas? Será que trazer um livro para a praia poderia significar trazer parte da escola nas costas? Será que sem pequenos “banhos culturais” que podiam ser vividos nas férias escolares, eles poderão adorar seu trabalho no futuro?

Veio à minha mente a estrutura educacional de alguns países desenvolvidos, como a França, que subsidia viagens culturais durante as férias para que as famílias possam levar seus filhos para conhecer outras realidades. Bem, nós ainda estamos em tempo de bolsa-família, de bolsa-escola. Devagar, podemos chegar lá.

Todas essas coisas não devem passar de mera especulação de um educador na volta das férias, pronto para recomeçar, com a bateria recarregada para um ano que, espero, seja cheio de conhecimento e cultura para todos.

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