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Por Eline Kullock

Aí, cara, eu sei que você acha seus pais “sem noção total”, não aceita quando eles te dão uma ordem, não entende como eles sabem menos do que você, não sabem jogar Nintendo Wii, acham que Twitter é amplificador de alto-falante de carro e Flickr é uma cor que um tal de Ziraldo inventou há um século atrás. Mandam você sair do computador e ir dormir mais cedo, quando você está trocando mensagens com amigos do outro lado do mundo.

Sei que eles te dizem que amigos da Internet não são reais, que você deveria se encontrar mesmo com amigos da escola, que deveria também praticar um esporte e outras bobagens assim.

É verdade que eles pedem pra você explicar coisas sem sentido, como as funções de um celular que você desvendou em cinco minutos, sozinho e sem manual (manual, o que é isso?). E como eles são lentos pra entender, você leva um tempão inútil pra explicar e reexplicar como funciona aquela coisa óbvia e, às vezes, eles até tomam nota!

Eles não têm noção de quem seja Lady Gaga ou de quando vai ser o próximo show do Coldplay ou da Beyoncé. Não fazem ideia quem são os teus amigos do Facebook, não deixaram você ir no Campus Party, embora você tenha explicado o que é aquilo mil vezes, além de insistir que você não quer ir lá pra fazer festa por sete dias.

Sei que eles não entendem as suas angústias, nem podem te explicar o que é Midialogia ou Comunicação das Artes do Corpo, ou Comunicação Assistiva, faculdades que você pensa em cursar mas está na dúvida porque quer fazer tudo ao mesmo tempo. Eles nem imaginam de que forma algumas faculdades oferecem cursos online e provavelmente já te perguntaram por que você não segue simplesmente Comunicação, pois acham que essas carreiras novas não têm futuro. Eles estão preocupados com o dinheiro que cada profissão dá, enquanto você tenta explicar que quer fazer uma coisa que seja sinistra e o dinheiro não é tão importante.

Sei que você tenta dizer para eles que é desnecessário gravar os programas de TV quando querem assistir depois, porque dá para achar todos os vídeos possíveis no YouTube. Mesmo assim, eles não entendem e insistem em ligar o ‘play’ do videocassete que ainda era do vovô.

Sei que eles te dão ordens sem noção total querendo que você estude e não vá pra balada no meio da semana. Que você fique mais em casa, que faça pelo menos um pouco de companhia para aqueles que ‘te criaram e te deram tudo’, sempre. Que você visite tua avó, quando a tua avó é um amor, mas você sabe que tem mais milhões de outras coisas mais importantes pra fazer. Que você prefere comer o jantar no quarto, jogando Mafia Wars e FarmVille no computador com os amigos enquanto janta.

Entendo que seja difícil para você quando eles simplesmente não entendem a sua preferência em ler e-books a pegar o livro em mãos. Sei que o e-book é mais rápido, dinâmico e caminha na mesma velocidade que a sua. Mesmo que isso demore a entrar na cabeça deles.

Mas deixa eu te contar uma coisa: eles não estão completamente errados. Eles estão fazendo o melhor que conseguem. E a autoridade amorosa deles tem sentido.

Essa autoridade – que impõe limites, passando por cima das decisões democráticas às quais você está acostumado – certamente fará de você um adulto melhor. Mais preparado para um mundo completamente limitado em alguns sentidos (ou você acha que poderá fazer o que quiser quando estiver trabalhando? Quando tiver que tomar um decisão dentro da sua família?) e um mundo cheio de “nãos”.

É claro que você quer fazer um mundo melhor, com menos limites para o seu potencial, e acredito que você pode. Porém, a autoridade sempre vai existir: a do seu chefe, do seu cliente, a do líder do grupo, a do líder intelectual que você vai seguir no Twitter e apoiar sem nem perceber …

Eu já ouvi muitas vezes adultos dizerem: “Se eu tivesse ouvido mais ‘nãos’ dos meus pais, eu seria uma pessoa melhor hoje…”. Você ainda vai ouvir isso.

Seus pais já viveram um pouco mais que você e por incrível que pareça, eles sabem coisas diferentes. Sabem o que você vai enfrentar no mundo quando “crescer”.

Pense nisso na próxima vez que tomar um não. A obediência pode parecer uma droga, mas você vai lembrar dos conselhos e nãos dos seus pais em cada momento da sua vida. Eu ainda lembro.

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4 Responses to “A droga da obediência”

  1. Haha, adorei o post. Está de parabéns.
    Vou me lembrar sempre quando os meus pais forem dar uma de chatos, rs.
    O que você acha de parceria entre blogs? Estou procurando novos parceiros e gostei do estilo de postagens daqui. Se tiver interessado, entra em contato pelo o e-mail, tá bom?
    Abrçs e boa sorte ai com o seu blog. :)

  2. Monica Vasconcellos disse:

    Ótimo Post Eline!
    Sou mãe de uma garota geração Y e digo que a missão de “dizer não”, também não é nada legal. Me sinto, muitas vezes, podando desejos, vontades legítimas. Mas há coisas (vontades) que não faz nenhum sentido.

    O que entendo, é que vivemos em uma roda viva. Já questionei meus pais, fui rebelde, e hoje vivo o papel de “pais”, tentando entender e proteger nossos rebentos.

    Um abraço.

  3. Clara Zaiantchik disse:

    Eline,
    Me vi no seu texto, como se estivesse conversando com minha filha…
    Obrigada pela oportunidade de me olhar no espelho!
    Eu também não sabia quem era a Lady Gaga até poucos dias atrás… mas será que eles sabem quem foi Lamartine Babo?
    Um abraço,
    Clara

  4. Marco Antonio disse:

    Oi Eline,
    Realmente muito interessante este post, principalmente por tratar das limitações que encontramos em nossos pais. Sou Y (22), meus pais são relativamente jovens, mas realmente sinto uma grande diferença entre nós e me sinto culpado por isso…
    Aos poucos estou aprendendo que daqui pra frente a tendência será apenas aumentar… ou pelo menos até que eu tenha meus próprios filhos, acredito que haverá um “reset” e eles poderão me ajudar (e muito!!).
    Um abraço.

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