
Por Eline Kullock
Quando eu nasci, o mundo era um pouco diferente do que é hoje e, talvez por isso, certas coisas me impressionem.
Não havia muitas opções… era uma época em que o mundo não tinha nada de globalizado. A maioria dos países, aliás, nem conhecia o Brasil.
Deixe-me lembrar…
Não havia televisão (e quando ela surgiu tudo era televisionado ao vivo). A gente ouvia o rádio e o momento “Repórter Esso” era muito importante. O rádio, aliás, funcionava com válvula para aquecimento e tinha que ser grande. Não existia rádio FM, nem sonhávamos com isso. Claro que nem imaginávamos tampouco os radinhos que carregamos de um lado pro outro, os chamados “portáteis”, uma evolução na época do rádio. Radinho à pilha só foi inventado muito depois. O rádio transistor sequer havia sido imaginado. Aliás, não existia o iPod, claro, nem o computador, nem a máquina de escrever elétrica, se é que algum Y ainda sabe o que é uma máquina de escrever. Não havia vídeo cassete, muito menos DVD. Toca-fitas? O que era isso? As vitrolas já existiam, mas os discos eram de 78 rotações, à base de cera de carnaúba. Num disco só cabiam duas músicas. Só depois apareceram os long plays. Não havia ar-condicionado nas casas, nem nos carros, é claro. Todo mundo usava o leque mesmo. E ventiladores. Não havia fotocópias naquela época. Não haviam criado a máquina de lavar louça, a secadora de roupa. As roupas eram penduradas para secar ao ar livre.
Telefone celular? Tá brincando? Telefone era fixo e à manivela! E tinha uma telefonista pra conectar uma pessoa à outra… Os números só tinham quatro dígitos!!!
Só existiam no Brasil carros importados, quando eu nasci. Importava-se muito carro americano da Chevrolet, Dodge, Ford. Quando a primeira fábrica de automóveis se instalou no Brasil, fabricava três carros por dia. Inicialmente os carros eram produzidos na Alemanha e só montados em São Paulo. Mas essa história foi depois….a gente andava de bonde, mesmo.
Aliás, muita coisa era importada: produtos manufaturados, caminhões, os próprios rádios, aço e até petróleo. Poucos eletrodomésticos eram produzidos aqui
A penicilina, mãe dos antibióticos, começava a circular entre os médicos mais conceituados. As pessoas ainda morriam de uma simples gripe, de pneumonia, de tuberculose. A AIDS ainda não existia, ou, se existia, não era possível identificá-la, quanto mais ter um tratamento para prolongar com um nível excelente de qualidade a vida de um paciente. A expectativa de vida era de 43 anos! A pílula anticoncepcional não tinha sido inventada! Essa coisa de saber o sexo dos filhos durante a gestação era feita pelo formato da barriga, não havia exames pra isso. Nem pensar em exames de DNA. É claro que o raio laser não existia.
Dois terços da população brasileira viviam no campo. Brasília nem tinha sido desenhada! O Brasil era um país subdesenvolvido, com uma ditadura, com pouquíssimas indústrias. O país exportava café. E açúcar. A maioria das empresas era do governo. Naquela época, o sonho era ter um emprego de carteira assinada. Todos sonhavam com salário fixo e décimo terceiro. A capital do Brasil era o Rio de Janeiro.
Não existia cerveja em lata. A Coca-Cola já podia ser encontrada aqui (mas na garrafinha e de uma forma incipiente). As pessoas não estavam acostumadas a tomá-la gelada e o produto era freqüentemente recusado. Foi preciso muita propaganda pra ensinar como beber Coca-Cola e torná-la popular no Brasil… E não conhecíamos a pizza. Não sabíamos o que era isso. A gente não congelava comida, talvez porque a mamãe sempre estivesse lá pra cozinhar. E não existia forno de microondas, como hoje. Nem comida fast food. Não havia Mc Donalds, Pizza Hut ou delivery de comida.
As mulheres já podiam votar, mas o número de mulheres nas universidades era insignificante. E apenas 14,5% delas faziam parte da população economicamente ativa.
Não existiam cartões de crédito. Não existia a caneta esferográfica. Não existiam lentes de contato. Nem o homem tinha chegado à lua. Software não era uma palavra. Não existia o Google, nem a Apple, nem a Microsoft, nem mesmo a Editora Abril ou a Disney World. Não havia namoro pela Internet, nem possibilidade de uma mulher decente não casar virgem. Quando os casais namoravam, era na frente dos pais.
E tem uma coisa triste: nos EUA, negro andava separado dos brancos. Era lei. Existiam ônibus, escolas e mercados só para negros.
Bom, você que deve estar me achando um dinossauro, pode dizer que idade eu tenho?
Eu tenho 60 anos. E convivo contigo na empresa todos os dias! Sacou?




