
Por Eline Kullock
Decidi fazer análise e depois de algumas sessões, desabafei no divã…
Tô numa confusão só. Não sinto meu corpo coordenado com minha cabeça…
Tenho 38 anos, sou formada em marketing pela ESPM, sempre fui boa aluna e soube muito cedo o que eu queria.
Fui trainee numa grande multinacional, que me proporcionou a chance de virar gerente de produtos. Foi então que veio aquela cantada do headhunter e decidi vir pra cá, no mesmo cargo, mas com uma gama maior e mais importante no ramo de produtos de beleza.
Aliás, quero lhe falar sobre isso também. Percebo que já não entro mais nas minhas roupas e isso me dá uma angústia só. Esse corpo não é meu! Eu era tão magrinha e quando comia um pouquinho de doce era fácil fazer uma dieta e chegar novamente ao meu peso.
Bom, depois que a Larissa nasceu foi fácil voltar ao corpinho de antes. Afinal, eu tive minha primeira filha com 29 anos. Mas depois que o Guilherme nasceu (ele hoje tem 7) já não foi tão fácil assim… E hoje, tenho certeza de que tenho de fazer uma lipo.
Quando vejo essa moçadinha com 20 anos fazendo lipo, me pergunto o que elas vão fazer com 38, como eu!
Mas o assunto principal não é esse. Separei-me do Roberto com 35 anos. No início, eu achava que tinha achado meu príncipe. Casei certa que o casamento era pra vida toda. Hoje não sei se isso existe. Esses homens são pra “uso externo”. Mas pra uso interno o Roberto não dá, não. Ele não ajuda na educação das crianças, não dá atenção aos consertos que o apartamento precisa, não quer sair pra nenhuma festa e não abre mão do futebol nem por um decreto! Teatro e concertos nem pensar. Não acredito mais em casamentos pra vida toda, as pessoas são muito diferentes.
Aí comecei a namorar o Carlos e as loucuras começaram a acontecer. Quando avisei às crianças que ele vinha em casa, a carinha da Larissa mudou. Fechou o tempo. Quando ele veio, as crianças ficaram de plantão na sala! Eles nunca ficam na sala! Eu tenho certeza que o Guilherme, meu neném, não entendia nada, isso era coisa da Larissa. Ficamos os quatro sentados na sala e eu não sabia o que fazer. Eu é que não vou chamá-lo pro meu quarto na frente dos meus filhos. Que exemplo estarei dando a eles? A gente já saiu, já transou, mas em casa é diferente! Que valores vou passar pra minha filha?
Tenho muitas dúvidas em relação às crianças! Sempre achei que eu não tinha preconceitos, tenho vários amigos gays assumidos, sempre defendi que cada um devia estar feliz com sua opção. Mas no outro dia a Larissa me perguntou se sendo o tio Marcelo e o tio Jorge um casal, como é que eles faziam sexo. Quem ia ser a mamãe e quem ia ser o papai quando eles tivessem um neném. Aí, minha boca secou. Eu que sou tão segura nas minhas convicções me senti completamente incapaz de responder. Mas como ter essa dificuldade se sou tão tranqüila em relação às minhas escolhas? E tem mais! Outro dia a Larissa veio me falar de uma música que fala sobre uma garota que gosta de beijar garotas. E veio me sondando sobre o que eu achava disso! Eu não sabia o que dizer, né? Ela veio com um papo de que isso era normal na escola dela e talvez pra esse passo eu não esteja pronta! Como eu não estou pronta se sou tão aberta?
Larissa me deixa encurralada com as perguntas e o Guilherme começou com as dele! Já me perguntou como a Larissa faz xixi se ela não tem piu-piu, ele quer ver como é! Gosta de ficar brincando com o piu-piu dele e eu não sei se deixo isso acontecer ou não. Às vezes me acho careta igual aos meus pais. Consigo entendê-los muito mais agora. Não quero ser como eles, mas os entendo.
Também vejo essa moçadinha com tantas certezas absolutas e sei que eu já tive essas certezas. Agora não tenho mais. Embora todo mundo me veja tão segura, me acho mais insegura hoje do que quando tinha meus 25 anos! Lá na empresa, essa moçadinha vem contestando sobre a burocracia da empresa, e eu me vejo neles. Eu era assim ontem! Mas aprendi que uma empresa não muda da noite pro dia, cada coisa tem seu tempo. Mas como explicar isso a eles, se eu mesma pensava assim ontem? Hoje eu sou mais tolerante com esse tipo de coisas da empresa, eu sei. Tive que aprender, mas entendo perfeitamente essa impaciência. Parece que são meus irmãos mais novos, sabe? Como se eu tivesse que batalhar muito por alguma coisa junto a meus pais, e os mais novos vão só no vácuo aberto por mim, exigindo mais do que eu mesma exigia! Me deixam numa saia justa danada!
Entendo que não tenho mais as certezas da Geração Y. Entendo que também não sou mais como meus pais. Mas, às vezes, me sinto igual a eles!
Fazendo os mesmos sermões pra meus filhos. Não na forma, mas talvez no conteúdo.
O que acontece é que, na verdade, eu não sei se sou moderna ou antiquada, que valores eu passo para os meus filhos, como eu lido com a impaciência da Geração Y na empresa.
Na verdade, descobri o pior: eu sou uma típica mulher da Geração X!





E se vc estivesse sentindo isso tudo aos 31 apenas? Antes de casar, antes de ter filhos e antes de conseguir o tal sucesso profissional? Enfim… Inquieta. Sempre fui inquieta e à medida que passa o tempo, acho que tenho mais motivos pra ser inquieta. =)