
Por Eline Kullock
Tenho refletido muito sobre o papel da fada madrinha em nossas vidas, o que imagino que se justifique pelo fato de agora ter uma neta, pela qual tenho contato com os mais diversos contos.
Mas pensando em uma fada madrinha, imediatamente, que figura surge em sua mente?
Posso apostar que se lembrou das fadas que ajudaram a Cinderela para que pudesse ir ao baile do príncipe, colocar o sapatinho de cristal. Ou então, uma das três que prepararam e abrigaram a Bela Adormecida, antes de seu aniversário.
Eram todas velhinhas e um pouco gordinhas, com uma varinha de condão, com características, que se você pensar, muito se assemelham à maioria das mulheres.
As fadas madrinhas, diferentemente do gênio da lâmpada, por exemplo, rabugento e preguiçoso, não realizam o teu desejo: elas te dão condições para que vá atrás do que você quer.
Elas não deram o príncipe de presente pra Cinderela, mas deram o vestido, a carruagem, impuseram limites (da meia noite) e disseram: “agora corre atrás dos teus sonhos”. Também não fizeram uma mágica para que a Bela Adormecida acordasse e fosse feliz, mas criaram as condições para que o príncipe pudesse (com alguma luta) salvá-la.
É o conceito da mãe educadora, com sua autoridade amorosa. Que ensina a pescar, mas não dá o peixe.
As fadas madrinhas são mulheres! A figura da pessoa mais idosa que representa uma sabedoria maior.
E todas nós somos um pouco fadas madrinhas, mas somos também Brancas de Neve, Cinderelas, sonhadoras, um pouco idealizadoras, bonitas (embora sempre achemos que estamos pelo menos 3 kilos mais gordas do que devíamos) românticas, ingênuas.
Todas nós temos a Ariel, a sereia que se aventura atrás de um amor “perfeito” ou a Pocahontas, que precisa lidar com suas crenças e culturas pra aceitar e inserir esse amor incondicional, pelo qual abrimos mão de muita coisa. Todas nós somos as fadas madrinhas de amigos e de nossas próprias vidas, porque está em nós esta capacidade de deixarmos de lado a Branca de Neve para encarar a realidade.
E nesse momento somos também a Mulan, quando valentes, nos “vestimos de homem” para nos juntarmos ao exército, para enfrentar o mercado e conquistar nossa colocação profissional.
Às vezes, não sentimos que temos essa força, mas temos que procurá-la dentro de nós, e não terceirizar a função ou reclamar por ter nascido sem fada madrinha (ou anjo da guarda).
Todas nós temos a Dori, do Nemo, meio confusas, ajudando o pai a encontrar seu filho, já que reconhecemos (com mais freqüência do que os homens) como este contato é essencial no desenvolvimento das crianças. E, na verdade também somos bruxas, com a inveja e o ciúme que fazem parte da condição humana, e que devemos controlar sempre.
Gente, somos tantas mulheres dentro de nós! E vivemos todas elas com intensidade, quando somos crianças, quando somos mães contando essas histórias para os nossos filhos e quando nos tornamos avós, contando pras nossas netas.
O mais importante é entender que a vida não é um conto de fadas. Temos todas essas mulheres da magia, do sonho, da ajuda aos outros, mas precisamos trazê-las para a vida real.
Tem uma poesia do Ferreira Gullar que diz: Integrar essas partes de mim mesma, isso é arte!
Que possamos, neste dia, refletir sobre todas as mulheres que temos dentro de nós, e integrá-las, com amor, com afeto, com sabedoria!
Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?





Oi Eline, tudo bem?
Maravilhoso o seu texto, tocou fundo minha alma! Há muito tempo não recebia algo tão lindo no dia das mulheres…
Meus parabéns e continue sempre com essa luz inspiradora!
Um grande abraço,
Clara