
Por Luís Gustavo Velani*
Há um imperativo que ronda a cabeça de todos nós diariamente: mantenha-se informado! Precisamos estar ligados ao que acontece no mundo, no país, na faculdade, na empresa. Com a velocidade estonteante com que as coisas evoluem hoje, essa é uma missão cada vez mais difícil. A internet nos trouxe o acesso quase ilimitado a praticamente toda a produção intelectual humana. Posso ter acesso ao trabalho de uma banda recém-criada na Suécia com a mesma facilidade com que ouço a roda de samba da esquina. Posso acessar o trabalho de um pesquisador em um banco de dados de uma universidade do Paquistão sem mais esforço do que o necessário para ler a revista dos alunos da faculdade. Isso é um fato recente e as conseqüências disso ainda não são totalmente conhecidas.
Afinal, já nascemos obsoletos. Atrás de nós há milhares de anos de humanidade, de produção intelectual, história, experiência. Como saber o que devemos saber?
Deveríamos ler os clássicos da literatura? É importante conhecer a obra de Shakespeare ou Charles Dickens ou Machado de Assis? Deveria eu conhecer a fundo Beethoven, pra poder apreciar melhor a música? Ou devo utilizar meu tempo mantendo-me atualizado, lendo periódicos (que são publicados aos montes, muitos em excelente qualidade)? Ou mesmo afundar-me em uma área específica, mesmo sabendo que, ainda assim, nunca saberei tudo sobre aquilo?
Essas questões me vêm à mente todo momento. Afinal, só temos uma vida. O tempo é talvez o recurso mais escasso em nossas vidas.
Fazendo umas contas, descobri que se todos os cerca de mil contatos cadastrados em meu email resolvessem twittar uma vez por dia, eu precisaria de cerca de uma hora e vinte minutos por dia para acompanhá-los. Isso considerando que cada post levasse apenas cinco segundos, em média, para ser lido, o que é um chute extremamente baixo.
Quando Sergey Brin e Larry Paige estavam nos primórdios do Google, em 1998, eles compraram um disco rígido de 1 Tb, o que na época era um armazenamento enorme. Hoje, eu tenho cerca de 1,5 Tb em dados armazenados e conheço gente que tem muito mais do que isso.
Outro dia encontrei um amigo no cinema e ele me disse que estava tomando um remédio natural contra ansiedade, receitado por sua terapeuta ou coisa assim. Segundo ele, esse problema com a ansiedade era causado pelo excesso de informações a que estava sujeito. Contou que, quando chegava a hora de dormir, sentia-se sempre um tanto triste, deprimido, além de cansado. “Minha terapeuta disse que esse é o mal da nossa geração”, afirmou.
Essas palavras me deixaram bastante impressionado. Não sei se triste é exatamente a palavra para descrever o estado em que eu fico após navegar algum tempo pela internet. O que sei é que isso realmente traz um profundo cansaço e até mesmo um certo desespero. Vejo que minha barra de favoritos está lotada de links e meu HD cheio de coisas, e que mesmo assim existe um universo de coisas que não sei.
Pode parecer um tanto clichê, mas talvez esse seja o grande dilema apresentado por Sócrates, há mais de 2400 anos. Não dá um desespero quando percebemos que, quanto mais aprendemos, mais vemos o quanto não sabemos? Que nunca poderemos alcançar satisfatoriamente nossos anseios pela informação?
Nossa geração vê esse problema infinitamente potencializado. Temos que alcançar, ‘catch up’ o mundo, aprender o passado sem ignorar a diária revolução digital. E tudo isso sem perder a sanidade, nem os amigos, nem o emprego. Com certeza Sócrates ficaria admirado.
*Luís Gustavo Velani é estudante de administração de empresas pela EAESP-FGV, blogueiro desde 2005. Atualmente envolvido em diversos projetos, entre eles:
ShARE – FGV (presidente)
Fundação da OSCIP Grão a Grão (graoagrao.org), e residência em pesquisa no Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas.
Interessado em cinema, literatura, música, empreendedorismo e microfinanças. Um inveterado curioso, que está sempre, sempre aprendendo.
Luís Gustavo também é um dos colaboradores do blog http://consciencia-21.blogspot.com





Gustavo, seu texto provoca reflexão sobre nossa pós-modernidade tão repleta de “deveres esquisitos”. Surge uma novidade no fim do mundo (que não mais existe!) e nós precisamos saber.
Acumular informações é conhecer?
Hoje, no grupo de estudos que coordeno, aqui em São José do Rio Preto, lemos o Teeteto (Platão) e apenas conversamos sobre o que não é saber. Chego em casa, e a sua professora Julice, minha amiga de infância, me apresenta seu texto tão perpassado de percepções e de perplexidades… Parabéns! Você um novo Teeteto que aceita dialogar com Sócrates!!!
Receba meu abraço admirado e feliz…
Realmente um dilema: devemos nos manter o mais atualizados possível e com isso “enlouquecermos” de certa forma, ou devemos apenas nos contentar com o conhecimento um tanto quanto limitado?
Penso que é preciso manter um equilíbrio, sem entrar em desespero quando falharmos (pois nunca seremos os melhores em tudo) e sem desistir do conhecimento em si.
Temos que saber selecionar o tipo de informações que serão adquiridas a partir de nossos objetivos, nos contentar em sermos eternos aprendizes e “ignorantes” certas vezes.
Refletir sobre o assunto causou um pequeno desconforto. Acredito que seja porque há uma cobrança interna dizendo que somos obrigados a sermos os melhores em tudo o que fizermos.
Muito bom post, com certeza acordou e ajudou muita gente.
Maisa Buissa
Realmente este é um tema bastante complicado. Com certeza informação é o que não falta. Acho que devemos saber distinguir informação de conhecimento. O fato de você ter determinada informação sobre determinado assunto não necessariamente garante que você tenha total conhecimento sobre o mesmo.
De qualquer forma, bastante interessante o tópico.
Abs,
Lineu Andrade