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Por Liliane Fonseca

Percebi nos últimos dias um fato curioso e que também aconteceu comigo enquanto estava na faculdade: o estudante universitário, que antes estava se preparando para o mercado de trabalho, perdeu o direito de só estudar. É preciso trabalhar, estagiar ou estar envolvido em algum projeto.

Alguns amigos meus, quando não estão estagiando, são percebidos e se sentem como desempregados, sem sequer estarem oficialmente no mercado. Precisam buscar vagas e oportunidades, mesmo que ainda morem com os pais e tenham condições de se dedicar somente à sua formação.

É interessante analisar a linha de raciocínio, porque enquanto eu estava estudando – ano passado – passei pelo mesmo. Eu achava que simplesmente não poderia ficar sem emprego (estágio). Talvez fosse um retrocesso na minha mínima independência financeira ou mesmo um grande atraso para minha entrada no mercado de trabalho, principalmente almejando uma vaga como trainee, que tem processos seletivos com milhares de candidatos.

Era uma percepção que descartava totalmente a hipótese de simplesmente estudar, agregar cursos à minha formação e obter mais informações e cultura geral. Só estudar era “perda de tempo”.

Nos últimos anos, o mercado começou a exigir recém-formados com experiência (por mais contraditório que pareça) e essa expectativa está cada vez maior. Um jovem universitário que não trabalha acaba sendo visto como “quem não quer nada da vida”. Em minha opinião, um grande erro.

A super valorização da experiência e da prática levam à desvalorização do estudo, o que leva muitos e muitos jovens a priorizarem os estágios em detrimento da formação acadêmica, que tem enorme importância como base para sua vida profissional.

Além disso, a rotina estágio/faculdade é extremamente desgastante. Gasta-se um bom tempo em deslocamento, fica-se mais tempo no estágio do que a lei permite, é preciso ainda fazer os trabalhos da faculdade, inglês, autoescola, atividade física…a pressão para fazer tudo no tempo determinado é cada vez maior e o conteúdo que deveria ser aprendido e lapidado vai pro final da lista.

Talvez por isso, cada vez mais, os jovens se sintam preparadas para assumir tão cedo qualquer cargo nas empresas, mesmo não estando.

Não sei ao certo o que causou isso ou o que colabora para esse movimento, mas fica um alerta para que esse fluxo acelerado na vida do jovem profissional não faça com que os anos de universidade sejam só um degrau para a carreira.

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4 Responses to “E o universitário virou adulto”

  1. Karen Quiroga disse:

    Concordo com cada palavra sua, acho que está realmente acontecendo isso atualmente com programas de estágio cada vez mais concorridos e longos (por até dois anos) e que agregam pouco porque acabamos nos estressando mais do que deveríamos ao tentar manter uma boa rotina de escritório, dar conta da vida pessoal e acadêmica, falar com amigos e até a viver melhor.
    Um dos pricipais obstáculos que hoje nós enfrentamos é que algumas empresas, programas de intercâmbio, iniciação científica ou progamas de bolsa para as mais diversas oportunidades pedem um bom rendimento escolar e não avaliam mais as pessoas ou suas vidas e acabamos por sair duplamente prejudicados, por ter que trabalhar para manter faculdades que consomem muito dinheiro (apesar no ótimo nível que se encontram no mercado de trabalho), pelo trabalho para nos mantermos nas faculdades e nos preparando para o futuro e claro, deixando de nos aperfeiçoar por conta de detalhes que hoje são um tanto esquecidos: quem somos nós, de verdade.

    Muito bem citado, espero que antes de termos aulas possamos ter melhores condições.

  2. Sandro Santos disse:

    Prezada Liliane, concordo com suas observações sobre esse dilema entre priorizar mais o trabalho ou a formação. Atualmente, não podemos nos dar ao ‘luxo’ de deixar passar alguma oportunidade em adquirir experiência profissional durante a formação acadêmica. Justamente, o contraditório de as empresas desejarem profissionais “modernos, criativos e experientes”, esbarra em uma realidade onde se encontram faixas etárias cada vez mais amplas, a medida em que a oferta de profissionais aumenta, enquanto que as oportunidades se tornam mais específicas, exigindo pessoas mais qualificadas e especializadas.
    Muito bem: hoje, juntamente com homens, mulheres disputam cada centímetro das possiblidades de colocação no mercado, em igualdade de condições. Isso não ocorria no tempo de nossos pais! Aqueles profissionais, que iniciaram há mais tempo que nós, estão em busca de qualificação, para, no mínimo, se manterem competitivos. Alguns, que já poderiam estar aposentados, não abrem mão, várias vezes, de continuar a vida profissional, por ainda se sentirem motivados a produzir ou pelo fato de não conseguirem se manter financeiramente, recebendo somente o insuficiente valor dado pela aposentadoria do Brasil.
    Somando-se tudo isso ao fato de que, hoje, não existem oportunidades suficientes para todos, naquele formato de antigamente, pela transformação tecnológica inserida nas empresas em busca da competitividade e de sua sobrevivência. Resumindo: quem está há mais tempo no mercado, precisa, necessariamente, de frequentes atualizações para adaptarem-se às novidades e não ficarem pra trás; quem está entrando agora no mercado, precisa ter alguma experiência e formação mínima, muito melhor do que a de nossos concorrentes mais experientes; quem ainda não entrou no mercado, ainda pode se preocupar somente em qualificar-se, desde que tenha uma boa fonte que possa sustentar financeiramente sua formação.
    Por esses motivos, além de outros que, claro, não saberia enumerá-los, existe uma corrida aos bancos escolares cada vez maior, pela própria abundância de oferta de cursos técnicos, tecnológicos e os já tradicionais bacharelados e licenciaturas, fazendo com que a competição, que antes era efetivada somente no mercado de trabalho, agora já inicie nas escolas e universidades, além dos cursos de pós-graduação.
    Então, sentimo-nos obrigados a embarcar o quanto antes possível, nas oportunidades que surgem, mesmo que não sejam aquelas sonhadas pela gente, pois sempre haverá algum candidato a preenchê-la.
    Permita-me, humildemente, complementar sua frase inicial de que o universitário virou adulto. Podemos dizer, também, que o adulto virou ou voltou a ser universitário. Caso contrário, perderá competitividade no mercado e será ultrapassado por esta geração de jovens adultos, ávidos por uma chance de mostrar seu potencial.
    Obs: tenho 40 anos, acabo de concluir minha graduação em Marketing e vou em busca de uma pós nesta área. Me considero bastante jovem e maduro para buscar novos desafios, a cada dia. Mas, se não ficar atento às novidades, minha experiência profissional somada a minha recente formação acadêmica podem não servir pra muita coisa, pois os universitários adultos, apenas por sua faixa etária, podem não ser facilmente identificáveis.
    Grande abraço

  3. Liliane, ótimo texto, parabéns! Você observou uma carcaterística real, à qual os novos estudantes precisam se adequar.

    Existe um jargão nas entrevistas de emprego, e presente em muitos currículos, que chama-se “ser proativo”. O significado real dessa palavra é nada mais do que ser uma pessoa que não se acomoda, não se contenta em executar apenas o que é esperado. A pessoa proativa é aquela que não se contenta com o trivial e busca sempre fazer algo a cima da média. De fato, essa característica tem sido muito buscada pelas empresas, e um aluno que participa dos programas de desenvolvimento prático de sua faculdade e busca desenvolvimento pessoal através de estágios, certamente terá vantagem competitiva diante dos que dedicam-se exclusivamente aos estudos, pois demonstrará um perfil proativo.

    Tenho colocado em meu blog alguns tópicos a esse respeito no tag “Gestão de carreira”, e minha linha de pensamento parte do seguinte: diploma, nos próximos anos, será mera formalidade, pois todo mundo terá acesso ao curso superior, os custos para formação serão muito acessíveis, e consequentemente a qualidade do ensino será cada dia pior. Portanto, ter diploma já não será mais nenhum diferencial, será uma obrigação. O profissional competitivo no mercado trabalho será o que estiver mais atualizado, tiver maior volume de leitura especializada e mais experiências práticas na bagagem.

    Grande abraço!
    Adriano Berger

  4. Bruno Dantas disse:

    Muito bem observado.

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