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Por Tatiana Kielberman e Manuela Mesquita

Saber se relacionar com as diferenças: esse é o grande ouro da geração Y, segundo o pesquisador holandês Aart Bontekoning, especialista em gerações que chegou ao Brasil na semana passada para uma pesquisa em parceria com o Grupo Foco. Entre os dias 29 de março e 1 de abril, Aart recebeu grupos de diversas faixas etárias para estudar o comportamento das diferentes gerações no ambiente corporativo.

Aart , que aos trinta anos iniciou seus estudos em Psicologia Organizacional, concluiu sua tese de doutorado sobre o impacto das gerações na evolução social e realizou o mesmo trabalho que trouxe agora ao Brasil em países como Holanda, Alemanha e Bélgica.

Aproveitando sua presença no país, o especialista concedeu uma entrevista exclusiva ao Foco em Gerações, que você confere abaixo:

Conte um pouco de sua história. O que te despertou o interesse pelo assunto Gerações, principalmente no ambiente corporativo?
Eu comecei a trabalhar na Polícia quando eu tinha dezoito anos, um pouco cedo. Fui para a Universidade apenas com trinta anos e, então, comecei a perceber que a cultura e as próprias organizações estavam mudando. Essa mudança parecia ser muito difícil para a maioria das pessoas. Cada vez que vinha uma nova geração, algo ficava diferente sem que nos déssemos conta, o que dificultava o processo.

Devido a isso , comecei a perceber e estudar as gerações. Vi que esse assunto é fundamental para impulsionar as empresas e para haver uma evolução social. Precisamos da evolução de sistemas sociais nas companhias e na sociedade para que sejamos respeitados. Eu fiquei apaixonado por esse tema.

Você acha que as empresas têm enxergado as diferenças entre gerações?
Sim. Comecei minha pesquisa na Holanda e na época ninguém tinha interesse pelo assunto. Quando lancei meu primeiro artigo, em 2003, de repente percebi que as pessoas estavam reagindo e vindo falar comigo. Isso também estava começando na Bélgica, França e Alemanha, então foi crescendo e atingindo mais pessoas. Agora vejo que o assunto é discutido nas companhias, as pessoas estão pensando sobre isso.

Que diferenças importantes você encontrou entre as gerações no Brasil, se compararmos a outros países onde fez a pesquisa?
Bem, eu encontrei muitas similaridades entre o Brasil e outros países, especialmente na Geração Y. As características se parecem muito com as que vi na Europa, talvez por essa geração se comunicar muito entre si em todo o mundo. Mas vi uma grande diferença de todas as gerações aqui em relação à Europa quanto à afetividade. Em pouco tempo no país você sente um tipo de conexão humana e acho que esse é o grande diferencial dos brasileiros. As pessoas na Europa, independentemente da geração, são um pouco mais frias. Acredito que essa conexão seja melhor para o trabalho em equipe.

Acredita que os resultados da pesquisa no Brasil se assemelham aos países europeus?
Não, eu acho que existem diferenças. Vi isso claramente no que vocês chamam de Baby Boomers, e chamamos na Europa de Geração X (nascidos entre 1955 e 1970), como sendo a Geração Perdida. Eu ouvi suas histórias dizendo que são muito caros para as empresas, mas se esquecem de que a Geração Y precisa deles para crescer.

As duas gerações se encontram em locais diferentes durante a vida: em casa, pois os Baby Boomers são os pais da Geração Y e nas empresas, numa relação de líderes e subordinados . Se a geração de Baby Boomers não estiver nas companhias acredito que haverá grande prejuízo para a geração Y, pois sentirão falta da liderança de que necessitam.

Mesmo se esses jovens tiverem líderes da Geração X?
Eles precisam de seus pais e líderes da geração Baby Boomer, porque existem diferenças entre eles, a geração X e os Veteranos. Se os Veteranos estão no topo da pirâmide na empresa, quando começarem a chegar os membros da Geração Y, haverá um enorme gap, que pode levar os Veteranos à loucura. Isso porque são controladores e burocráticos, e a Geração Y, na opinião deles, é incontrolável.

Quais principais traços culturais brasileiros você detectou e que talvez diferencie nossas gerações das dos outros países?
Uma coisa é a afetividade e a vontade de trabalhar em equipe. Eu vi que aqui no Brasil toda geração quer e precisa ser vista como pessoa, deseja reconhecimento mais do que em outros países. Eles precisam disso das companhias e de seus líderes. Acredito que o lado humano da companhia é criado por essa cultura.

Gostaria que em poucas palavras enumerasse algumas características identificadas nas diferentes gerações?
A Geração Y é autêntica, quer ser ela mesma e sabe que em algumas áreas é mais esperta do que as outras gerações. A Geração X tem uma forte personalidade, o que me surpreendeu. Para ela, o equilíbrio é algo muito importante e eles querem ter três ou quatro vidas boas ao mesmo tempo: em casa, no esporte, com a família e no trabalho; são muito ativos.

Os Baby Boomers são um pouco modestos, não enxergam a sociedade e as companhias como lugares seguros, são muito doces, bons de ouvir e entender. Acredito que sejam ótimos pais e que cuidam muito bem das pessoas, mas parecem não ter uma personalidade muito forte. Os Veteranos são orgulhosos de suas carreiras, do que construíram. Sentem-se um pouco superiores em relação às outras gerações e não sei dizer se isso é bom ou ruim, mas sinto que querem ser respeitados por serem empregadores. São um pouco mais formais e têm muita sabedoria, muita experiência em construir um negócio, mas têm que aprender a transmitir esse conhecimento para as outras gerações.

Como você acha que as gerações têm enxergado umas às outras no ambiente de trabalho num contexto geral?
Os brasileiros se olham muito entre si, em todas as gerações. Mas existe uma química entre geração X e seus pais Veteranos e a geração Y e os Baby Boomers. Eles se conhecem melhor, por terem uma relação parental.

Você falou da partes boa, mas quando existem problemas, como as gerações se comportam em relação às diferenças?
Vejo problemas quando a Geração Y entra na empresa e não existem Baby Boomers por lá, tendo que trabalhar diretamente com os Veteranos, o que é quase impossível. Existem grandes gaps entre as duas gerações, os mais jovens precisam dos Baby Boomers da mesma forma que as empresas, e essa geração precisa continuar se desenvolvendo, pois está no auge da sabedoria, e experiência. A idéia de que são muito caros para as companhias é perigosa demais para todos. Essa talvez seja uma das coisas mais importantes.

E quando você tem um Baby Boomer sendo gerenciado por um Y, o que acontece?
Os membros da Geração Y ainda não têm muita experiência com organização. Talvez saibam tudo pelos meios multimídia e sejam experts nisso, mas não sabem como organizar e construir uma companhia.

Na Europa, encontrei empresas de muito sucesso construídas pela Geração Y ou pela Geração X, mas a maioria delas em dois ou três anos pediu ajuda de pessoas mais velhas, seniores.

Mas você acha que a Geração Y reconhece os valores dos Veteranos?
Sim, acho que a Geração Y é umas das gerações que melhor se relaciona com as diferenças. Eles estão acostumados a trocar e-mails com pessoas de diferentes culturas, de diferentes partes do mundo, são melhores em trabalhar em conjunto com os demais.

Mas detestam hierarquias, querem estar no mesmo nível. Reconhecem os valores dos outros, mas querem trabalhar juntos.

E a próxima geração, como acredita que será?
Eu não tenho idéia. Questiono alguns pais sobre esta nova geração e o que dizem é que aprendem numa velocidade inacreditável, pois usam computador com três anos de idade, palavras em inglês com quatro, então têm um aprendizado incrível.

Talvez saibamos quando eles entrarem no ambiente de trabalho…

Quando entrarem nas escolas, acredito.

Confira amanhã a publicação da segunda parte da entrevista com Aart Bontekoning.

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3 Responses to ““Entender as diferenças entre gerações é fundamental para impulsionar uma evolução social””

  1. Bom dia,

    Achei excelente a entrevista e já estou aguardando a publicação da segunda parte.

    Não tenho muitos anos de experiência no mercado de trabalho, pois sou um membro jovem da geração Y. Venho percebendo que existe um distância da Geração X com os Baby Boomers, como comentado na entrevista. Tenho percebido também um alto nível de frustações entre membros da Geração X. Essas frustações são normais em todas as gerações? Será que nós da geração Y vamos passar pelas mesmas frustações que a Geração X está passando?

    Guillermo Winocur
    http://www.twitter.com/guillermowin

  2. Mais uma contribuição valiosíssima da competente equipe do Grupo Foco. Aart levantou aspectos que coincidem com minha idéia de que a família é e será a grande diferença na evolução do comportamento pessoal e profissional da geração y. Quando ele diz “Eles precisam de seus pais e líderes da geração Baby Boomer” eu concordo em cada letra dessa frase. Porém preocupa-me o seguinte questionamento: eles têm esses pais presentes para satisfazer a essa necessidade?

    Forte abraço, amigas Taty e Manuela!
    Adriano Berger

  3. Chi.Clete - disse:

    Muito obrigada, usei esse artigo em um trabalho de escola, agradeço a colaboração (:

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