
Por Mauro Segura
Imagine-se numa reunião pesada, com discussões acaloradas, discutindo um assunto que acha que não tem nada a ver com você. Então, olha para tudo aquilo e pensa: o que estou fazendo aqui?
Esse foi o comentário de um amigo meu, executivo do ramo financeiro, na semana passada.
Mas a sensação de que não vale a pena ou de não pertence àquele mundo corporativo não é privilégio dele. Um grande número de trabalhadores sofre da mesma síndrome. Isso também já passou pela minha cabeça ao longo dos meus 128 anos de trabalho.
É muito comum as pessoas refletirem o quanto se sentem realizadas e satisfeitas com seus empregos, mas chega uma hora que você para e pergunta se vale a pena continuar fazendo o que faz todo dia.
Alto nível de pressão, conflito de valores, clima interno ruim, falta de camaradagem, sensação de se sentir explorado, desequilíbrio entre vida pessoal e profissional, assédio moral e muitos outros fatores podem ser as causas para essa síndrome que ataca cada vez mais a massa de trabalho.
O interessante é que essas sensações transcendem a idade, escolaridade, perfil e posição na empresa. Ou seja, todos estão sofrendo. Ao conversar com amigos sobre o tema, ficou evidente que este é o mal mais recente no mundo corporativo. Minha percepção é que o trabalhador de duas décadas atrás era menos contemplativo com estes pensamentos e conflitos, talvez por ser menos esclarecido ou por ter uma relação empresa-funcionário bem diferente da atual.
Perdoem-me pela generalização, mas acho que os trabalhadores mais velhos são os mais afetados por esse sentimento. A idade, a experiência e a expectativa de vida futura levam essas pessoas a serem mais reflexivas e menos tolerantes com as mazelas do mundo corporativo. Ironicamente, é comum que esses trabalhadores se mantenham em seus empregos, mesmo insatisfeitos, atuando de forma resignada e não realizada, pelo medo, riscos e dificuldades de mudar de emprego. Ou seja, tornam-se pólos de insatisfação. Viram os rabugentos do escritório. Irradiam frustração. Andam com uma nuvem preta na cabeça.
Por outro lado, a geração Y demonstra um perfil diferente. São mais antenados com o sentimento de realização, comunhão de valores e visão de propósito. Apesar de jovens, querem trabalhar em empresas que entreguem algo mais do que salário e carteira assinada, precisam sentir que estão construindo alguma coisa que fará a diferença, que existe algum propósito naquilo tudo. Se ficam insatisfeitos, vão embora, pedem demissão e procuram outro trabalho ou atividade. A maioria é pragmática na tomada de decisão por continuar ou não no emprego.
Olhar isso tudo me motiva a achar que as empresas deveriam pensar na mentorização invertida. É comum encontrar empresas que fazem o processo tradicional, onde os mais velhos e experientes mentorizam os mais jovens e aprendizes. Porém, minha experiência mostra que os mais velhos têm muito a aprender com a geração Y. Então acredito que o melhor seria o modelo “mentor-mentor”, em que ambos se mentorizam. Isso pode parecer sutil, mas não é. O conceito é realmente diferente do tradicional, pois significa dizer que os dois aprenderão juntos.
Criar um ambiente de trabalho colaborativo, flexível e sem barreiras passa a ser fundamental nos dias de hoje. Já não existe mais tempo para uma sala de aula com mestres e alunos. Somos todos mestres e alunos, ao mesmo tempo. Esta foi uma lição que aprendi na blogosfera e que deve ser replicada nas escolas e no trabalho. Levar e aplicar este mesmo conceito no ambiente corporativo deveria ser prioridade para qualquer executivo. Quebrar a ainda rígida hierarquia organizacional nas empresas, oriunda da Revolução industrial, com suas castas e feudos, será fundamental para as empresas se beneficiarem da pluralidade de visões e perfis das diversas gerações que hoje habitam os escritórios e fábricas. Quando as empresas chegarem neste estágio evolutivo, talvez não faça mais sentido falarmos em conflito de gerações no ambiente no trabalho.




